quinta-feira, 12 de janeiro de 2012

'Pronto, já estamos em casa'

Sou de um tempo em que uma viagem de ônibus até São Paulo demorava pelo menos três horas. Um tempo em que tudo era mais difícil, mais moroso, mas ao mesmo tempo mais romântico.
Lembro bem que meu pai, como um dos sócios da Fábrica de Móveis Santa Terezinha, pelo menos a cada dois meses tinha como rotina ir até São Paulo para fazer compras para a fábrica. Pregos, parafusos e dobradiças faziam parte da lista e eram encontrados em lojas da rua do Gasômetro, na região central da Capital.
A cada ida até São Paulo, para nossa alegria, meu pai levava um de nós para passear. As viagens eram divididas entre minha mãe, minha irmã mais velha e eu.
Eu ainda era um menino magricela de orelhas grandes e adorava aquele passeio. Por isso, quando chegava minha vez de acompanhar meu pai, a ansiedade pelo momento de entrar no ônibus do Expresso Cristália era tanta que o sono custava a chegar.
Acompanhar meu pai nas compras não era nada fácil. Era tudo feito na base da caminhada por aquelas ruas tomadas de gente, carros, ônibus e bondes, mas para mim era uma diversão e tanto.
Com meus olhinhos atentos a tudo, eu prestava atenção no movimento daquela cidade gigantesca para guardar na memória, pois sabia que teria que esperar minha vez novamente. Meu pai tinha um coração do tamanho do mundo e nunca deixava de comprar doces para trazer para casa.
Lembro que quando chegávamos de volta à velha rodoviária de São Paulo, na região da Luz, já era final de tarde. Quando entrávamos no ônibus do Cristália meu pai costumava dizer: “pronto, já estamos em casa”.
Essa frase ficou gravada em minha memória e expressava o verdadeiro sentimento de muita gente daquela época. Afinal, o Cristália, como era genuinamente itapirense, fazia parte da vida de cada um de nós.
A viagem era demorada e nas duas paradas que o ônibus fazia muita gente aproveitava para abrir as janelas, pois era forte o cheiro de combustível que impregnava o ar dentro do ônibus. Tanto em Campinas como em Mogi Mirim o ônibus fazia sua parada costumeira e os passageiros eram abordados, através das janelas, pelos vendedores ambulantes.
Como a parada era rápida os ambulantes corriam até as janelas do ônibus na tentativa de vender biscoitos, doces ou balas. E um desses personagens ficou gravado em minha memória.
Era um senhor de cabelos brancos, que com sua cesta de bambu, vendia biscoito na rodoviária de Mogi Mirim. Era uma figura diferente, por isso nunca me esqueci daquele homem.
Vivia correndo com sua cesta entre os ônibus, de janela em janela, na tentativa de vender os biscoitos. A pressa dele era tanta que ao anunciar o que estava vendendo acabava pronunciando ‘coito’ ao invés de biscoito.
Confesso que não presenciei a cena, mas o João Roberto Panizola, o JP da Rádio Clube, que por muito tempo trabalhou como cobrador no Cristália, viu e me contou. Um dia, ao ver uma pessoa tentando abrir a janela do ônibus de forma desesperada, esse homem não pensou duas vezes e se colocou embaixo da janela, aguardando que a mesma fosse aberta.
Ali estava ele proferindo o tradicional ‘coito, coito’ e a pessoa tentando abrir a janela. Quando, finalmente, a mesma se abriu, o passageiro soltou tudo o que estava embrulhando seu estômago atingindo homem, cesta e biscoitos em cheio.
Aquela cena dantesca ficou na memória do João e até hoje é lembrada. Cada vez que conversamos sobre fatos de antigamente damos boas risadas.
Hoje tudo está diferente, Mogi Mirim, Campinas e São Paulo têm outras rodoviárias, modernas. O Expresso Cristália já não pertence mais à família Coloço, mas as viagens até São Paulo ao lado de meu pai nunca serão esquecidas, assim como o JP nunca esquecerá aquela cena presenciada na rodoviária mogimiriana.



sexta-feira, 23 de dezembro de 2011

Cheiro de Natal

Sou de um tempo em que os preparativos para o Natal consumiam dias e dias no seio de minha família. Um tempo em que todos nós nos reuníamos para a tradicional ceia natalina e para o almoço de Natal.
Lembro bem desse tempo e um pequeno detalhe que seja já serve para me reportar àquela época feliz de minha existência. Seja uma música, um enfeite natalino ou mesmo um cheirinho tradicional de algo assando e pronto, lá vou eu para o túnel do tempo.
Esse período que antecede o Natal deixa meu espírito desprotegido no que diz respeito aos sentimentos que a saudade daquele tempo me dá. Basta fechar os olhos e recordar um daqueles dias e o nó na garganta aperta, os olhos marejam e a dor da perda aparece como um bólido.
Dia desses ocorreu algo parecido que me fez voltar imediatamente no tempo. Nas muitas andanças pelas lojas da cidade, em uma delas, a Marfim, um frasco com aroma de pinheiro foi o bastante para me remeter ao tempo em que eu ainda era um menino magricela de orelhas grandes.
Quando ouvi dizer que aquele spray tinha cheiro de Natal, imediatamente fui sentir o tal cheiro para ver se era mesmo aquele cheiro que eu sentia quando era criança. Esperava, ao sentir o aroma, voltar aos meus tempos de infância, mas aí me bateu a dúvida: o que seria para mim um cheiro de Natal?
Mais do que depressa me veio à mente o cheiro da leitoa assada ou do frango assando no forno. Eram esses os aromas que eu esperava sentir, que me faziam lembrar do Natal, não que cheiro de pinheiro não seja um aroma natalino, mas para mim cheiro de Natal é cheiro de carne assando no forno.
A Claudia, minha irmã mais nova, que estava comigo na loja, sem que eu dissesse algo, já foi logo dizendo que para ela cheirinho de Natal era aquele dos canudos recheados com doce de coco que minha mãe fazia. Claro que nada disso havia na fragrância daquele spray, mas aquele momento serviu para mostrar o quanto lembramos de nossa infância e das coisas boas que guardamos dela.
Tudo isso acabou. Não temos mais o jantar da véspera ou o almoço de Natal, na casa de nossos avós paternos, lá no alto da Vila Pereira. Mas as boas lembranças permanecem até hoje e um simples cheiro gostoso de assado já serve para trazer de volta todos os bons momentos daquele tempo.
Hoje, meu Natal se resume à Mariane e eu. Mas nem por isso deixa de ser Natal. Guardo as boas lembranças no coração e procuro dar a ela tudo que tive de bom nessa época mágica que a espera pelo Natal e pelo Papai Noel representa para as crianças.
Faço isso porque um dia, lá no futuro, quero que ela se lembre de tudo isso e fique feliz em ter em seu coração as recordações dos tempos em que era criança. Assim, onde eu estiver, terei a certeza de ter feito a coisa certa ao dar a ela tudo aquilo que tive de bom nos meus tempos de criança.
Hum, que cheirinho de Natal! Será que é leitoa assada. Ou será que é canudo recheado com doce de coco? Só sei que deve ter alguém por aí preparando uma bela ceia de Natal.

quinta-feira, 1 de dezembro de 2011

Refém do passado

Sou de um tempo em que eu nem imaginava que um dia iria recordar aquele tempo e sofrer de saudade. Um tempo tão bom que hoje me sinto refém do passado, pois é nele que busco a força para viver o presente e sedimentar o caminho do futuro.
Se um dia Deus me desse permissão para voltar no tempo, acredito que a opção seria uma viagem por tantos momentos que marcaram minha passagem por esse mundo. Pediria a Ele a permissão para ser criança novamente, mesmo que fosse para ser um menino magricela de orelhas grandes outra vez, contanto que pudesse viver de novo a expectativa da espera pelo Papai Noel.
Como dói no cerne de minha alma olhar para a grande árvore de Natal de casa e lembrar a história de cada bola ou enfeite ali pendurado, principalmente os mais antigos, que fizeram parte de minha infância e que conservo até hoje. Olho para a espiga de milho, a violinha, o balão, o moinho ou para o Papai Noel já desbotado e volto no tempo sem ter vontade de retornar ao presente.
Corro os olhos pela bola verde, que estampa uma margarida pintada pela Vera, minha irmã mais velha, e me lembro de um certo galho de goiabeira, pintado com tinta purpurina e envolto em algodão, que era a nossa árvore de Natal. Que tempo bom, repleto de boas recordações e momentos inesquecíveis para esse coração apertado de saudade.
Por que será que a cada momento de lembrança desse tempo o nó que se forma em minha garganta aperta e me dá a sensação de estar usando uma gravata que me sufoca? Talvez seja por ter ciência de que nunca mais terei tudo isso de volta, por mais que queira.
Sei que não posso voltar no tempo, mas também sei que recordar tudo isso, apesar da dor que a lembrança causa, mostra que minha estadia por aqui foi proveitosa e repleta de bons momentos. E isso já é o suficiente para me encher de força para continuar em frente.
Sei que um dia, lá na frente, minha pequena Mariane, que agora dorme a sono solto e nem ouve as músicas que ouço e me transportam para a janela do meu quarto lá casa número 20 da Comendador João Cintra, vai ler tudo isso e descobrir que seu velho pai era um menino magricela de orelhas grandes, que adorava o Natal e Papai Noel, que era apreciador de boa música e que um dia teria muito o que contar. Quem sabe, um dia, Deus me conceda esse último pedido e, de mãos dadas com minha pequena companheira, eu possa viajar no tempo e mostrar a ela tudo isso.
Quem sabe a gente se sente debaixo da parreira de uva da casa de meus avós paternos, lá na João Pereira, e belisque os cachinhos de uva sem que minha avó Leonor perceba e aproveite para ligar a vitrola de minha tia Marly para ouvir Jhonny Rivers ou Chris Montez; ou na janela do meu quarto para apreciar as boas e inesquecíveis músicas da Rádio Mundial; ou ainda tenha um tempinho para contar as casinhas coloridas do Cubatão, sentados na janela do banheiro. Ou então chorar, recordando tudo isso nas histórias de minha vida que contarei, detalhe por detalhe, para que ela possa entender tudo e querer, junto comigo, viajar no tempo.

segunda-feira, 28 de novembro de 2011

Versão brasileira Herbert Richers

Sou de um tempo em que as séries de TV eram importadas. Quase não havia produção nacional e as emissoras de televisão mostravam os seriados que encantavam a garotada.
Quem não se lembra de Viagem ao Fundo do Mar, Terra de Gigantes, Túnel do Tempo, Bonanza, Daniel Boone, Perdidos no Espaço e tantos outros seriados. Ou os desenhos animados como Speedy Racer, por exemplo.
Eu ainda era um menino magricela de orelhas grandes e, sempre que podia ou meus pais deixavam, atravessava a rua e subia a escadaria do sobrado da família Secchi Franco, na Comendador João Cintra, para me deleitar com os episódios que eram exibidos no início da noite. Naquele tempo não pegava a Globo e tudo girava em torno da TV Tupi e da Record.
Lembro bem que quando começava o episódio, fosse qual fosse o seriado, lá vinha aquela voz grave para anunciar ‘versão brasileira Herbert Richers’. Claro que aquilo não tinha qualquer importância para a platéia formada por garotos da rua e outros de locais mais distantes, afinal o que interessava era a estória que seria exibida.
Mas, talvez por já ter nas veias um pouco do que faço hoje, aquela frase não me saía da cabeça e enquanto não descobri o que aquilo queria dizer não sosseguei. Versão brasileira Herbert Richers, claro, descobri mais tarde que significava o estúdio onde eram gravadas as vozes dos dubladores, aquelas pessoas que diziam em português o que os artistas do seriado falavam em inglês.
Assim como muitas outras coisas, essa frase marcou minha infância e, acredito, a de muita gente que, como eu, era criança naquela época e adorava aqueles seriados. Ainda hoje, quando algum seriado desses é reprisado por algum canal de TV, logo me vem à cabeça aquele tempo que deixou tanta saudade.
Minha mãe, de saudosa memória, sempre dizia que uma música ou um perfume marcavam e cada vez que uma canção que tinha sido ouvida em determinada situação ou um perfume de alguma pessoa fosse sentido novamente, imediatamente o fato ou a pessoa voltariam à nossa mente. Como essa frase, ouvida centenas de vezes em minha infância, acredito que ocorra a mesma coisa, pois cada vez que ouço aquela voz grave de alguém que talvez nem faça mais parte desse mundo, meu baú de memórias se abre instantaneamente e as lembranças afloram como num passe de mágica.
Imediatamente volto no tempo e revivo um episódio de minha infância. Um episódio de uma série que já tem mais de meio século, mas que continua com seus episódios precedidos por aquela frase imortal: ‘versão brasileira Herbert Richers’.

Uma janela para o mundo

Sou de um tempo em que o silêncio imperava nas altas horas da madrugada. Um tempo em que as pessoas se recolhiam e aproveitavam a noite para o descanso.
Lembro bem que durante muitas e muitas noites em que o sono ia embora e meus olhos secavam, era na janela do meu quarto que eu me sentava para espiar a escuridão da noite e ouvir boas músicas. Era ali, de frente para o vazio que se formava entre a claridade do meu quarto e as poucas luzes do Cubatão, que eu via o tempo passar sem pressa.
Até meus 12 anos, quando eu ainda era um menino magricela de orelhas grandes, minha casa na Comendador João Cintra ainda tinha o formato antigo e meu quarto ficava no meio dela. Só depois da reforma e da ampliação é que ganhei um quarto com vista para o mundo.
E era ali, naquela janela, que durante muitas e muitas noites de minha adolescência, eu passava algumas horas olhando para aquele imenso vazio que se formava e para aquelas parcas luzes, como se estivesse procurando meu rumo. Não foram poucas as vezes que, sentado ali naquela janela, com um pé no telhado do terraço e o outro apoiado na cama, vi a escuridão ir embora para deixar mais um dia nascer.
De fundo, invariavelmente, boas músicas tocadas na Rádio Mundial do Rio de Janeiro, sintonizada no Saratoga, o rádio herdado de meu avô Antonio Papaléo, e que era meu grande e inseparável companheiro. Era ali, naquela janela, que meu contato com o mundo se tornava mais amplo e meus pensamentos rodavam sem parar.
Até hoje guardo boas recordações daquela janela com vista para a parte baixa da cidade. Parece que foi ontem, mas o tempo é implacável e nos afasta cada vez mais de tudo aquilo que recordamos com saudade.
Ainda me lembro de tudo aquilo e, por incrível que pareça, apesar de tanto tempo, tudo está bem vivo em minha memória. O silêncio da noite, quebrado apenas pelo som baixo de meu inseparável rádio ou por um o outro galo cujo despertador deveria estar fora de sintonia.
Nunca mais voltei àquela janela, principalmente depois de um dia, não muito distante, em que criei coragem e, de volta àquela casa, abri aquela janela e me deparei com tudo aquilo novamente. Tudo estava como eu havia deixado em minha adolescência e parecia que o tempo tinha dado um tempo para mim.
Instantaneamente o mundo se abriu a minha frente e todos os bons momentos passados ali voltaram como num passe de mágica. Apesar de estar de frente para o que sempre vislumbrei, o nó que se formou em minha garganta foi mais forte e minha emoção aflorou através de lágrimas de saudade.
Ali, naquele momento, já com cabelos pintados pelo tempo e com minha pequena Mariane no colo, fechei para sempre aquele ciclo de minha existência e decidi guardar aqueles bons momentos em um canto especial de meu baú de memórias. Era como se estivesse enterrando um pedaço de mim.
Infelizmente o tempo e o mundo não param e a vida segue em frente, deixando pelo caminho tudo o que vivemos e vivenciamos. Restam apenas as lembranças de um tempo que não volta mais.

sexta-feira, 11 de novembro de 2011

Sapato na quadra

Sou de um tempo em que respeito e disciplina eram mais do que lei, fosse no seio da família ou na escola. Um tempo em que se tratava os mais velhos por senhor ou senhora e se pedia a bênção para pais, tios, avós e padrinhos.
Lembro bem que, em casa ou fora dela, as crianças deviam se comportar, respeitar os mais velhos e, principalmente, obedecer aos pais. Havia uma espécie de doutrina que começava em casa e se estendia porta afora.
Naquele tempo a escola era uma extensão da casa e lá se aprendia muito, principalmente porque havia o respeito para com quem ensinava. O aluno saía do grupo escolar afiado para enfrentar o próximo desafio, que era estudar no ginásio.
Passei quatro anos nos bancos do Grupo Escolar Dr. Júlio Mesquita que valeram pela vida toda. Lembro bem que eu era um menino magricela de orelhas grandes que prestava atenção em tudo que as professoras ensinavam, pois sabia que tudo aquilo iria me servir pelo resto da vida, pois foi assim que minha mãe me preparou para iniciar meus estudos.
Quando ingressei no primeiro ano ginasial, prestes a completar 11 anos, já estava preparado para os novos desafios que a vida escolar iria me impor. A base que havia recebido era mais que suficiente para encarar as mudanças que viriam pela frente.
Apesar das mudanças radicais entre uma escola e outra, entre as matérias do ginásio e a cartilha do grupo escolar, uma coisa não se alterou. Da mesma forma que o aprendizado dos tempos de grupo escolar, tudo que aprendi no ginásio continua me servindo até hoje.
E não são apenas os ensinamentos que até hoje povoam minha mente. Os momentos vividos naquela escola imponente estão arquivados até hoje no meu baú de memórias.
Posso, num piscar de olhos, recordar momentos que marcaram minha passagem pelo ginásio, ouvir o burburinho intenso do recreio. Ou uma voz grave avisando algum desavisado que o mesmo estava infringindo uma das regras básicas.
‘Sapato na quadra’. Qual dos milhares de alunos que passaram pelo ginásio nunca ouviu essa frase retumbante?
Essa expressão, tão ouvida naqueles tempos, era usada sempre que alguém pisava na quadra de esportes da escola usando sapato de sola de couro. Quando isso ocorria logo se ouvia a voz grave do professor Barreto, que mais do que depressa dava o aviso para que o mesmo deixasse aquele local sagrado para ele e para os alunos.
Talvez aquela simples frase dita em alto e bom som não representasse para mim mais do que um aviso para alguém que estava infringindo uma das regras. Mas hoje me dou conta que aquilo significava muito mais que isso.
Durante os quatro anos de ginásio, antes de ir para o colegial, ouvi aquela e outras frases ditas por aquele professor que até hoje guardo na memória. E hoje, quatro décadas depois, sei o significado de tudo aquilo.
Mais que impor regras ou disciplinas aos alunos, professor Barreto deu aos seus milhares de alunos as noções básicas de boa conduta. Assim como no grupo escolar aprendi a ler e escrever, a fazer conta de mais, de menos, de vezes e dividir, com aquele professor aprendi a disciplina e a ordem.
Até hoje ecoam em meus ouvidos suas frases de efeito ou seus avisos. Até hoje me recordo de tudo aquilo e constato que nada é por acaso.
Hoje, quando vejo pessoas caminhando ou buscando a forma física nas academias logo nas primeiras horas da manhã, lembro que acordava ás cinco da madrugada para enfrentar um frio de rachar e freqüentar as aulas de Educação Física.
Hoje dou valor a tudo isso e carrego comigo muito do que aprendi em suas aulas. Lembro dos testes de ginástica básica, do passeio campestre e de tantas coisas boas que marcaram minha passagem por aquela escola e que me trazem boas recordações. E, às vezes, me pego dizendo ‘sapato na quadra’ quando algum amigo, sem querer, infringe uma regra.

sexta-feira, 21 de outubro de 2011

Lá vai o trem

Sou de um tempo em que o trem era um dos principais meios de transporte do país. Um tempo em que a cidade era cortada pelos trilhos e o apito das locomotivas era ouvido mesmo quando ela ainda estava distante.
Lembro bem do tempo em que eu ainda era um menino magricela de orelhas grandes e acordava no meio da madrugada. O sono, muitas vezes ia embora, os olhos secavam e eu ficava ali, quieto em minha cama, ouvindo o barulho das composições, que chegavam ou partiam rangendo suas engrenagens sobre os trilhos.
Como a linha do trem praticamente circundava a cidade, passando pelo bairro dos Prados e por trás do Cubatão, dava para ouvir claramente seu barulho enquanto ele seguia seu destino. Eu ficava ali, quietinho, ouvindo aquele som gostoso que embalava novamente meu corpo e acalentava meus sonhos de criança.
O trem e seus sons fizeram parte de minha infância de uma forma especial. Era nele que minha família embarcava para passar os finais de semana na fazenda São Miguel, em Martim Francisco, onde morava a família de minha tia Jacira, irmã de minha mãe.
Quando meu pai anunciava, no meio da semana, que no sábado a gente iria para a fazenda, era uma festa. Eu e a Vera, minha irmã mais velha, sabíamos que o passeio estava garantido e passávamos a contar os minutos até a hora de acordar bem cedinho no sábado para descer a rua da Estação, dobrar a esquina da Alfredo Pujol e alcançar minha avó Carmela, que há muito já havia feito o caminho com medo de perder o trem.
Como era gostoso estar ali na plataforma de embarque, ainda escuro, aguardando pela chegada do trem que vinha de Sapucaí com destino a Mogi Mirim. Quando ouvíamos o apito estridente da locomotiva que se aproximava era hora de começar a viagem.
Ainda ouço o barulho dos freios da locomotiva chegando na estação para nos levar. Posso ver o movimento daquele homem que recebia o trem e sentir o cheiro que exalava do vapor da caldeira.
A viagem sem pressa era o melhor de tudo. O dia começava a clarear e a paisagem se abria nas janelas enquanto a gente sacolejava em uma dos vagões.
Embora a distância fosse pequena entre as duas cidades e também entre Mogi e Martim Francisco, a viagem parecia durar uma eternidade. Quando chegava em Mogi Mirim havia a necessidade de trocar de composição e a baldeação era feita em poucos minutos para uma nova viagem até o destino final.
Hoje não há mais trem por aqui, não ouço mais seu barulho ritmado durante a madrugada, embora muitas vezes me pegue tentando encontrar algum som similar quando estou acordado. O trem há muito foi embora para nunca mais voltar e eu fiquei órfão de mais esse detalhe de minha infância.
Às vezes tento entender o motivo que leva os governantes a acabar com algo tão bom e eficaz como a estrada de ferro. Fico imaginando quantos caminhões de carga cabem nos vagões puxados pela locomotiva fumegante e quantos passageiros podem ser transportados em uma única viagem.
Será que eles não sabem que, além de acabarem com um dos meios de transporte mais econômicos que existia, colocaram fim também ao sonho de muita gente que, como eu, teve o trem como um companheiro de viagem e também das horas em que o sono ia embora durante a madrugada? Que desativaram, não só a estrada de ferro que cortava a cidade, mas o caminho entre o sonho e realidade de muita gente?
Lá vai o trem. Posso ouvir ao longe o barulho de seus vagões rangendo nos trilhos e o apito estridente a cada cruzamento para avisar que por ali irá passar uma parte da minha infância que foi embora para nunca mais voltar. Desse trem ficará apenas a lembrança dos bons momentos que todas aquelas viagens proporcionaram ou das muitas noites sem sono que fiquei ouvindo seu sacolejar pelos trilhos da vida.