terça-feira, 23 de setembro de 2014

Os anos dourados do ginásio

Quando se é criança o tempo custa a passar e tudo parece caminhar de forma lenta. Nossos sonhos se tornam quase impossíveis e tudo que queremos é que o tempo voe e a hora de realizá-los chegue logo.

No meu tempo de criança era assim. Tudo que eu sonhava era completar o grupo escolar e ingressar no tão famoso ginásio. Para as crianças da minha época, estudar no ginásio significava um passo muito grande a frente, a transposição da fase de criança para a adolescência.

Mal sabia eu que o tempo seria implacável e que um dia cobraria toda essa pressa. Se eu soubesse que quando o tempo chegasse e pintasse meus cabelos de cinza eu teria essa saudade toda do meu tempo de criança, acredito que daria tudo para ele parar e me deixar criança para sempre.

O ano era 1967. Eu cursava o quarto ano do Grupo Escolar Dr. Júlio Mesquita, que ficava um pulinho da minha casa. Bastava subir o escadão da Ladeira São João e lá estava eu na porta da escola.

Essa familiaridade toda me dava a segurança que toda criança busca quando sai debaixo da saia da mãe. Mas minha ansiedade em ingressar no ginásio era tão grande que eu não via a hora disso acontecer.

Lembro que, apesar de ainda ser um menino de nove para 10 anos, tinha consciência do que me esperava no final do ano. Sabia que para entrar no ginásio precisaria passar pelo exame de admissão, um verdadeiro vestibular tal a disputa pelas vagas no Instituto de Educação Estadual Elvira Santos Oliveira.

Naquele ano, quando eu estava prestes a completar 10 anos, o Sérgio Venturini, um amigo de infância que conservo até hoje e que já estava no IEEESO, me convidou pra ver a final do Interno de Futebol da escola. Topei na hora, afinal iria entrar pela primeira vez naquele local sagrado.

Lembro que os campeonatos realizados pelo professor José Barretto eram famosos, pois toda criança que gostava de futebol aguardava pela chance de disputar um campeonato organizado, coisa rara naquela época em se tratando de torneios para garotos de minha idade. O professor Barretto, que naquela época já era uma verdadeira lenda para todos nós, tal o respeito que angariava perante todos, realizava a competição logo no início do ano letivo e, mais tarde, fiquei sabendo que tinha muito aluno que iniciava o ano escolar, disputava o campeonato e depois desistia de estudar, só para voltar no ano seguinte e participar novamente da competição.

Quando chegou o tão aguardado dia da decisão, fui para o IEEESO junto com o Sérgio e fiquei no barranco, lotado de alunos e visitantes, aguardando a disputa. Lembro que o time dele tinha o Paulo Pedro como capitão e o time adversário era comandado pelo Uka Sartori, que não participou da final por estar suspenso na escola, dando vez a um rapaz gorduchinho, de face corada, que era ninguém menos que o Luiz Arnaldo Alves de Lima.

O jogo terminou com o placar de 7 a 3 para o time do Paulo Pedro, que já era um adolescente de 14 ou 15 anos, pronto para fazer carreira no futebol como realmente acabou acontecendo e só ele fez quatro gols. Aquela tarde marcou minha vida porque foi a primeira vez que pisei na escola com a qual sonho até hoje, mais de quatro décadas depois.

No ano seguinte, depois de passar com sobras pelo exame de admissão, tive a oportunidade de, já como aluno do ginásio, disputar por quatro anos o famoso campeonato interno de futebol da escola. Não tive a sorte de cair em times de qualidade e nunca passei da primeira fase da competição, mas pude sentir o prazer de jogar naquele campo, que sempre ficava rodeado de alunos e visitantes e até ser convocado para a seleção da escola, que treinada pelo Clóvis Avancini, o Ná, faria história como um dos grandes times infantis formados na cidade, com participação no campeonato colegial do estado.

Aquele era um tempo diferente, um tempo em que os alunos respeitavam os professores e valorizavam os ensinamentos que recebiam. Lembro que havia um respeito muito grande por todos que exerciam suas funções na escola, como os inspetores de alunos, por exemplo. Bastava olhar para o Luiz Leme, o Luizão Xerife, com seu semblante sério e o aluno já sabia que algo de errado estava cometendo.

Vivi aquele tempo mágico e sou grato por isso. Guardo na memória cada momento que ele me proporcionou e cada vez que tenho a oportunidade de visitar aquela escola todas essas lembranças voltam e me emocionam.


Ver a fanfarra de ex-alunos desfilando e ouvir seu toque irretocável tem o mesmo efeito, pois me remete a tantos e tantos momentos inesquecíveis que vivi em minha passagem por aquele estabelecimento de ensino. Momentos que o tempo, apesar de já ter pintado meus cabelos de cinza, não consegue apagar. 

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