Em 1974, prestes a completar 17 anos, minha vida
profissional mudou radicalmente. Ao ser aprovado no concurso para trabalhar no
escritório da Usina Nossa Senhora Aparecida, passaria a fazer parte do quadro
de funcionários de uma das maiores empresas da cidade naquela época.
De aprendiz no escritório de contabilidade Furiatti, meu
primeiro emprego, passei a trabalhar no setor de contabilidade da empresa,
mesmo não tendo ainda completado 18 anos. Apesar de ser menor de idade, pelo
meu aproveitamento no concurso acabei sendo contratado.
Lembro bem como era o ambiente, cada mesa e cada
funcionário. O setor contábil funcionava na parte de cima do prédio, no nível
da rua, na parte de baixo ficava o setor de recursos humanos e o balcão onde
era efetuado o pagamento aos cortadores de cana em época de safra.
Contíguo ao escritório ficava o local destinado à
diretoria. Na primeira mesa, de costas para a porta que dava acesso à sala dos
diretores, sentava o doutor Murillo Arruda. Atrás dele a enorme máquina de
xerox.
Na mesa seguinte, ocupando uma posição estratégica, de
costas para as janelas e de frente para todos os subordinados, sentava o
contado Osvaldo Pellegrini. Era um senhor do tipo bonachão, sisudo às vezes,
mas que tinha bom coração.
Lembro que quando voltava do almoço no caminho da praça
até a usina já ia cochilando no ônibus. E o cochilo continuava nas primeiras
horas da tarde, fato que provocava risos em todos.
Nas outras mesas, dispostas em duas fileiras, sentávamos
nós, simples mortais. Na primeira fila, perto da janela, ficava o Wilson
Foraciepe, depois tinha a minha mesa e na mesa de trás o Adolfo Tagliatti.
A outra fileira, com quatro mesas, abrigava o Irineu
Puggina, responsável pelos pagamentos, o Idair Giovelli, o Joãozinho Pereira e
na última, de costas para a porta de acesso ao andar de baixo, o Toninho
Franco, também conhecido como Toninho Carregador. Cada um com sua função
específica para o bom andamento do trabalho.
Nosso período de trabalho incluía o sábado pela manhã. E
foi numa manhã de sábado que tudo aconteceu.
Era época de safra e o campo da usina, pela proximidade
com o escritório, ficava abarrotado de cortadores de cana aguardando o momento
de receber a paga pelo trabalho semanal. Costumávamos falar que mais parecia
dia de clássico no Morumbi, tal a quantidade de pessoas.
Talvez para matar o tempo e não dar a tradicional
cochilada, o ‘seo’ Osvaldo desceu a escada e foi dar uma espiada no movimento.
Imediatamente, como era de costume, o Toninho iniciou sua sessão de humor.
Sentado de costas para a tal porta, ergueu o braço
direito, ainda segurando a caneta com que fazia as anotações referentes aos
caminhões que transportavam a cana da roça para a moenda, e iniciou a imitação
de uma banda.
Ele era tão engraçado que todos nós paramos o que
estávamos fazendo e ficamos olhando para trás para ver sua performance. Animado
com a plateia, Toninho continuou com a imitação e não percebeu que atrás dele,
parado na porta, estava justamente o ‘seo’ Osvaldo.
Todos nós passamos a rir da situação e ele, achando que
ríamos dele, continuou com a brincadeira até que o homem tossiu
propositadamente atrás dele. Atônito e sem saber o que fazer, Toninho baixou a
mão e mesmo imitando a tuba da banda, continuou escrevendo.
A cena foi hilária e até mesmo o contador riu da
situação. Essa cena permanece na minha memória até hoje e cada vez que vejo o
Toninho lembro de tudo, como se fosse hoje.
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