terça-feira, 23 de setembro de 2014

Chopão, um dos pontos de encontro na década de 70

Quem viveu aquela época com certeza curtiu muito e irá relembrar. Quem não teve a mesma sorte, pelo menos, terá a oportunidade de entender um pouco da magia que envolvia a juventude na década de 70.

No final de 74, em meio às comemorações do Natal e a preparação para a chegada de um novo ano, a cidade viveu momentos de glória com a inauguração de uma de suas mais tradicionais casas de entretenimento. Idealizado para ser um ponto de encontro das famílias, o Chopão acabou virando um dos locais preferidos dos jovens de então.

Vivi intensamente essa época de ouro e lembro bem da inauguração da casa. Uma festa concorrida e regada a muito chopp Brahma, oferecido pelos proprietários.

O Chopão, instalado no local onde hoje está a Montreal, bem defronte a antiga e de saudosa memória fonte luminosa, nasceu sob a estigma do sucesso e essa aura perdurou por um bom tempo. 
Diferente de tudo que havia por aqui, com suas mesas ao ar livre, protegidas por guarda-sóis, o Chopão era tudo que os jovens da época queriam, pois oferecia aquilo que todos chamavam de liberdade para se viver intensamente.

Ainda posso ver, em lampejos de memória, o movimento dos carros na praça Bernardino de Campos, que naquela época tinha o tráfego de veículos no sentido inverso ao atual. Ou seja, os carros faziam o trajeto de baixo para cima, passando primeiro pela parte inferior da praça e depois pelo setor de cima.

Naquela época os jovens se reuniam na praça central da cidade e não em postos de combustível, ao longo de avenidas ou na porta de concessionárias de veículos. E, aqueles que consumiam bebidas alcoólicas, utilizavam as mesas dos bares e lanchonetes e não as ruas, e nem atiravam os vasilhames nos locais públicos, prática tão comum nos dias atuais.

Os que tinham carro e dotavam o mesmo de equipamentos de som, optavam por tapes Road Star ou TKR, que eram o que havia de melhor, além de colocar potentes falantes e twitters Selenium, mas tudo dentro do carro. Muito diferente de hoje, tempos em que quem equipa o carro coloca o som do lado de fora e sai pelas ruas com o volume aos berros, evidenciando o mau gosto musical do proprietário do veículo.

Às vezes, quando o sono vai embora e os olhos secam, me pego divagando por esse tempo, que marcou a vida de quem teve o privilégio de vivê-lo, e que me traz nostalgia, saudade e prazer, principalmente prazer de ter vivenciado tudo isso.

A inauguração do Chopão, de propriedade do Sebastião Pompeo, o Dinho, e seus sócios, se deu no final de dezembro e foi bastante concorrida. Lembro que foi uma noite memorável para a cidade, que ganhava um novo ponto de encontro que, junto com o Bar do Edifício, passaria a receber a nata da sociedade e completaria o ciclo que tinha em seu centro o Clube XV de Novembro.

A praça era frequentada, tinha vida própria e inúmeros bares e restaurantes. Além do Bar do Edifício e do Chopão, contava também com o Bar Central, o Cine Bar e o Bar do Odilon, além do Itapira Bar, que estava mudando de mãos e passaria a ser conhecido como Sobradão.


Esse é um tempo que já vai longe, há 40 anos, mas que permanece vivo na memória de quem o viveu. Um tempo diferente e que não volta nunca mais, mas quem teve a felicidade de viver aquele período vai guardá-lo para sempre na memória e no coração.  

segunda-feira, 22 de setembro de 2014

O menino que costurava bolas

Sou de um tempo em que as dificuldades impostas pela vida assolavam grande parte das famílias. O sustento da família geralmente era de responsabilidade do homem da casa e os filhos, muitas vezes ainda crianças, eram colocados no mercado de trabalho para reforçar o orçamento.

Naquele tempo, quando eu ainda um menino magricela de orelhas grandes, com oito para nove anos, havia um garoto, um pouco mais velho, que retratava bem esse quadro. Embora ainda um menino, com sonhos de criança, não media esforços para auxiliar no sustento da casa.

Não o conheci daquele tempo, mas sei que sua tarefa era árdua. Dividia seu tempo entre a escola, as brincadeiras com os meninos da vizinhança, nas proximidades de sua casa, ali na Visconde de Cairú, no início da Vila Bazani, e a tarefa de costurar bolas de capotão.

Não era uma tarefa fácil, mas era a maneira que ele encontrou para ajudar seu pai, o ‘seo’ Benedito, no sustento da casa. Além disso, costurando as bolas para a fábrica Decar, de propriedade dos irmãos Décio e Carlito Nogueira, que ficava na esquina da João de Moraes com a Regente Feijó, embaixo do casarão dos Nogueira, conseguia o suficiente para o cinema do final de semana.

E era essa sua vida. Costurar bolas de capotão e sair para entregá-las na fábrica. Em uma das mãos o saco de bolas, na outra a mala de roupas que sua mãe, a dona Natalina, lavava pra fora e que ele entregava na casa do doutor José de Mello.

No caminho entre sua casa e o destino, havia sempre um tempo para passar em frente aos três cinemas da cidade. Na descida o primeiro era o Cine Teatro Américo Bairral.
Em seguida uma passadinha nos outros dois, que ficavam na praça central. Ali conferia os filmes que estariam em cartaz no Cine Rádio e no Cine Paratodos para, só depois, escolher a fita que veria no sábado, pois sabia que o dinheiro daria apenas para uma sessão.

Era um tempo difícil, mas aquele menino, talvez tão magricela quanto eu, era feliz com a única diversão semanal que tinha, pois sabia que em primeiro lugar vinha sua família. Ver os cartazes e escolher qual filme iria ver no sábado já bastava.

Mais tarde, já aos 14 anos, sua habilidade para costurar bolas foi reconhecida e aquele menino acabou contratado pela própria Decar, então instalada na Major David Pereira, e já de propriedade do Paulo Pereira da Silva e do Aloísio Victor dos Santos, como um funcionário da casa. Ali começava sua carreira como empreendedor.

Conheci esse menino bem mais tarde, quando já era homem feito e de barba na cara. Fui conhecê-lo já como empresário de sucesso, mas nem por isso acomodado.

Hoje, depois de tantos anos, vejo minha filha, que por sinal faz aniversário no mesmo dia que ele, chamá-lo carinhosamente pelo apelido que acabou virando sua marca registrada. Ouvi-la chamando-o por Mestre me faz entender que nenhuma luta é por acaso.


Daí, volto no tempo e entendo que perdi muito em não ter conhecido aquele menino que costurava bolas. Talvez, se tivesse visto de perto sua luta, poderia ter aprendido um pouco mais com a vida.

domingo, 27 de julho de 2014

Passadas largas

Sou de um tempo em que a palavra do pai era lei. E ai de quem ousasse não cumprir.

Lembro bem que tinha meus 13 anos, frequentava a terceira série ginasial e, apesar das boas notas que sempre tirei, vez por outra saía da linha e me dispersava, talvez por conta da adolescência.  E essa desviada pelos caminhos da brincadeira acabou por levar meu pai, após uma daquelas reuniões de pais e mestres, a dar a ordem expressa: ‘a partir de amanhã você vai sentar na frente do Gildo Piardi’.

A ordem foi cumprida e no dia seguinte lá estava eu, sentado na frente do Girdão, como a gente chamava aquele rapaz espigado, de cabelos loiros e encaracolados. Ele era dois ou três anos mais velho que eu e, junto com o irmão Miltinho, havia entrado na turma naquele ano.

Claro que meu comportamento mudou, passei a me comportar, mais por medo da bronca que poderia levar em casa, mas a influência do novo vizinho de classe também foi determinante. Aos poucos fui conhecendo sua determinação e sua perseguição pelo perfeccionismo.

Nas aulas de Educação Física era sempre um dos mais afiados e sua performance o levou a integrar o time de frente do atletismo da escola, comandado pelo eterno professor Barretto. Quando tinha uma prova de mil metros, tradicional naqueles tempos, a história era sempre a mesma, com ele chegando sempre na frente.

Lembro bem de sua estratégia de corrida. Largava sem pressa, ficava lá em último na primeira volta e, aos poucos, com passadas largas e determinantes, ia ‘jantando’ os concorrentes, como costumava falar.

Fora da escola sua forma de agir era a mesma. Não admitia perder e, se preciso fosse, acabava com a brincadeira antes de sair perdedor.

Lembro de um campeonato de botão que organizamos em sua casa na época da Copa de 70. Éramos 16 jogadores, 15 da nossa classe do IEEESO mais o Humberto, o mais novo dos Piardi, cada um com uma seleção e a competição seguiria os mesmos moldes da Copa, com a mesma tabela.

Meu time, por sorteio, era o Brasil. Lembro que o Luís Paulo Souza Ferreira jogava com a Tchecolosváquia e o Girdão era a Inglaterra e ambos estavam na mesma chave que eu.

Depois do primeiro jogo com o Luís Paulo, que terminou empatado em 4 a 4, eu teria que enfrentar o ‘poderoso’ Girdão. Depois de um começo equilibrado comecei a abrir vantagem e não deu outra. Vendo que iria perder ele deu um jeito de acabar com o jogo e com o torneio.

Essa estratégia também permeou sua caminhada por esse mundo. O perfeccionismo pontuou sua passagem por essas bandas e o tornou um vencedor em todos os setores.

Foi campeão brasileiro e sulamericano, brilhou nas pistas e construiu sua existência dando exemplos a cada passada larga. E assim foi até o ocaso precoce de sua existência.


Afinal, não foi ele que perdeu a vida apesar da batalha que travou contra um mal implacável. Foi a vida que perdeu um grande homem, que deixa uma trajetória de brilho e de ensinamentos aos que o conheceram e aprenderam, como eu, a admirar aquele rapaz espigado de cabelos encaracolados e com mania de perfeição. 

domingo, 20 de abril de 2014

Pequenos gestos

Sou de um tempo em que pequenos gestos eram mais valorizados. Um tempo em que as pessoas eram muito, mas muito mais felizes, porque sabiam o verdadeiro significado dos sentimentos verdadeiros.

Já tive muitos domingos de Páscoa. Uns inesquecíveis, outros comuns.

Quando eu era um menino magricela de orelhas grandes, os meus domingos de Páscoa eram sempre na casa de meus avós paternos, na João Pereira. Era lá que minha família se reunia para o almoço da Páscoa.

Lembro bem de cada momento. De acordar cedinho pra ir à procissão do Encontro, da ansiedade de chegar logo em casa para abrir meu ovo de Páscoa, de ir com meus pais e minhas irmãs para a casa dos meus avós. Foram tantos momentos de alegria que até hoje guardo bem guardados no meu baú de memórias.

Hoje, depois de tantos domingos de Páscoa, valorizo cada momento que tenho de alegria. Hoje, meus domingos de Páscoa são ao lado da pessoa que mais amo no mundo e, com certeza, da pessoa que mais me ama.

É ao lado da minha pequena Mariane que tenho o prazer de viver meus domingos de Páscoa. E, com seus pequenos gestos, ela me faz reviver meus bons tempos de criança e sentir todo o prazer de recordar tudo isso.

Ler o que ela escreve, ver seus desenhos, que sempre têm o pai presente entre os personagens, e os gestos de carinho que recebo, são o bálsamo que necessito para curar minhas feridas provocadas pelas dores da vida. Sentir seu abraço carinhoso, seus gestos de reconhecimento por tudo que tento fazer por ela, para preencher o que talvez faça falta em sua existência, é o maior presente que posso desejar.

Me sonho maior e, talvez, único, é poder vê-la feliz sempre. Vê-la capaz de se cuidar sozinha. Saber que posso partir dessa vida ciente de que fiz tudo que era necessário para vê-la caminhando com as próprias pernas.


Espero ainda ter muitos domingos de Páscoa ao lado da minha pequena. Poder dar a ela toda a alegria de encontrar o tão esperado ovo de Páscoa e receber, através de seus pequenos gestos, todo o amor que sei que sente por esse seu velho pai. 

domingo, 17 de fevereiro de 2013

“Vou morar num bangalô junto com meu véio"


Ao longo dos anos, quem passava pela rua Comendador João Cintra podia ver aquele casal, sempre sentado à porta. Sempre junto e sempre feliz.

Nos últimos cinco anos, com a ausência do marido, dona Dirce manteve o hábito de ficar ali, naquele mesmo lugar. Talvez, à espera do seu amado que partira.

Agora, quem passar pelo local não verá nem mesmo a dona Dirce. Esta semana ela foi ao encontro do seu grande amor. E como sempre dizia, para o bangalô em que iria reencontrar seu ‘véio’ no céu. Dona Dirce se foi para onde sempre quis estar nos últimos cinco anos.

Para quem a conheceu e com ela conviveu, ficam seus ensinamentos, seu jeito de contar piadas e a vivacidade com que gostava de responder adivinhações. Pessoa alegre e dedicada à família deixa um legado de bons exemplos e a lealdade ao único homem que amou em toda a sua existência, mesmo depois que ele partiu para preparar o tal bangalô e ficar à sua espera.

Com seu jeito alegre de conversar, sempre com uma piada nova na ponta da língua, costumava dizer que estudou sete anos na ‘faculdade do Sarkis’ (fábrica de chapéus onde trabalhou dos 15 aos 22 anos) até se casar com o marido, João Butti Filho. Tinha orgulho de tê-lo tido como companheiro durante mais de 50 anos e de todos os bons momentos que com ele viveu.

Depois de sua partida, embora deixasse sempre bem claro que seu maior sonho era ir ao encontro do esposo, nunca deixou de dar atenção à família e aos conhecidos. Guardava para si a tristeza da perda e não deixava que a mesma transparecesse.

Fiel aos costumes e ensinamentos dos pais, sempre dizia que da casa em nascera só sairia quando Deus a levasse. E foi esse o desfecho de sua passagem pela Terra. Foi ali, naquela casa da Comendador João Cintra que viveu os 79 anos de sua existência, criou os filhos e formou sua família.

Religiosa e de muita fé, estava sempre pronta para orar por aqueles que necessitavam. Na lista de falecidos pelos quais rezava, então, a relação era enorme e todos mereciam o mesmo ‘tratamento’.

Agora, que nos deixou, deve estar no seu bangalô, junto de seu ‘véio’, cuidando dos passarinhos que tanto gostava e dos vasos de violeta. Na porta, os dois banquinhos, onde ambos irão se sentar nos momentos de folga para darem continuidade a tudo que viveram nesse mundo. E quem passar por lá vai se lembrar daquele casal que ficava sentado à frente daquela casa de número 20 da Comendador João Cintra, feliz e unido, com está agora e estará para sempre...


Obrigado por tudo que nos deu e nos deixou. (escrito em julho de 2009, dias depois de sua partida)

terça-feira, 12 de fevereiro de 2013

A praça central como referência

Toda cidade tem uma praça central. Um local onde fica a matriz principal, o coreto e que sedia os principais eventos da cidade.

A praça central é o ponto de referência de toda cidade. É o local onde as pessoas se encontram, se divertem, se conhecem, se amam e se casam.

Ao redor dela estão os estabelecimentos que fazem a vida da cidade girar. Bares, clubes, cinemas, restaurantes, casas comerciais, agências bancárias, enfim, tudo o que é importante para o povo rodeia a praça central da cidade.

É na praça central de uma cidade que acontecem os grandes eventos, os grandes comícios, as grandes manifestações populares. É nela que as pessoas fazem o passeio dominical após a missa.

Itapira foi assim um dia. Na minha infância, adolescência, juventude e até mesmo em boa parte da minha fase de adulto a praça central sempre foi assim.

Até que tudo que tinha em sua volta foi se acabando como se uma praga assolasse aquele local. Os bares fecharam suas portas, os restaurantes mudaram para outras bandas, os cinemas foram desativados e a praça ficou órfã de seu movimento.

Quantos e quantos filmes vi nas telas do Cine Paratodos e do Cine Rádio. Desde os clássicos de Walt Disney até os impagáveis Mazzaropi e Renato Aragão. Dos bang bangs italianos aos épicos Ben Hur, El Cid e Os 10 Mandamentos. Dos lendários Hércules e Maciste aos musicais estrelados por Roberto Carlos nos tempos da Jovem Guarda.

Quantos shows tive o prazer de assistir no Centro Comércio e Indústria e no Clube XV de Novembro. Benito di Paula no Centrão, Simonal no Clube XV e assim por diante.

Era um tempo bem diferente. Um tempo em que as pessoas tinham na praça central o ponto de referência para tudo que fossem fazer.

Os jovens se reuniam defronte o Bar do Edifício, em frente o Chopão ou frequentavam os bailes dos dois clubes. Os bailes de debutantes eram realizados no Clube XV, que trazia grandes estrelas em seus bailes de aniversário, como Dick Farney, que vi em meados dos anos 70, na primeira vez que vesti um terno, emprestado pelo Beto Baldissin.

No Centrão a lotação era garantida nos bailes com o Corrente de Força, que depois virou Placa Luminosa. Os bailes de Natal e Ano Novo eram aguardados com ansiedade por todos e era para o Centrão que todo mundo se dirigia depois da tradicional ceia.

Na época do Carnaval o Clube XV abria sua programação com o Baile do Branco, sempre na sexta-feira. O Centrão, algum tempo depois, passou a realizar o seu Baile do Havaí.

Mas era nas quatro noites de folia que os dois clubes ficavam abarrotados de gente. As orquestras davam um verdadeiro show e no final do baile da terça-feira, já com o dia clareando para anunciar a Quarta-feira de Cinzas, as duas orquestras se encontravam no meio da praça para dar continuidade ao Carnaval por mais alguns instantes.

Tudo isso já não existe mais. O tempo passou, os bailes carnavalescos mudaram de endereço, foram para o Tênis Clube e depois para o Clube de Campo Santa Fé até agonizarem e morrerem para sempre.

Hoje, a realidade é bem outra. A praça central da cidade já não é ponto de referência para mais nada. Sua vida resume-se aos três dias da Festa Della Nonna em agosto e à Festa da Padroeira, no início de setembro.

De todos os bares, restaurantes, cinemas e clubes nada restou, nem mesmo a fonte luminosa com suas águas coloridas pelas luzes, dançando ao som da valsa. Apenas a perua do cachorro-quente permanece ali nas noites de domingo, sob o olhar imponente da estátua do Virgolino, em meio a penumbra desértica do restante da praça.


Por que será que tudo ali morreu? Será que alguém rogou alguma praga? Ou será que a praça central acabou ficando esquecida a ponto de deixar de ser o ponto de referência da cidade? 

Os latões gêmeos

Sou de um tempo em o leite vinha direto da origem, sem passar por indústrias ou processos avançados. Um tempo em que tudo era mais natural e simples.

Lembro bem que o leite consumido em casa era entregue pelo Sílvio Semolini, com sua carrocinha puxada por um cavalo. Mas, algumas vezes o produto vinha da casa da minha avó paterna, ou melhor das vacas do Valter Riboldi.

Meu avô João Butti trabalhou uma vida na olaria dos Riboldi, passava a noite queimando tijolos e pela manhã, quando deixava  trabalho no bairro dos Prados, fazia sua caminhada pelo chão batido da avenida Brasil e subia o morrão do sanatório, perto da mininha. Além da marmita vazia, trazia com ele o leite fresquinho que havia sido tirado ali mesmo nas cercanias da olaria.

Vez ou outra uma parte desse leite tinha como destino minha casa. E a incumbência de buscar o mesmo cabia à Vera, minha irmã mais velha, e a mim, um menino magricela de orelhas grandes.

O caminho era dos mais agradáveis, subíamos o escadão pela Ladeira São João e ganhávamos o Parque Juca Mulato, tomando a avenida dos Biris até chegar ao final do antigo campo Chico Vieira, que ficava onde estão as casas que compõem o quarteirão final da Rui Barbosa, entre a atual Casa da Cultura João Torrecillas Filho (antiga cadeia) e o SAAE, onde havia uma quadra de esportes. Ali desembocávamos na João Pereira, bem no primeiro quarteirão, onde ficava a casa de meus avós.

Nas mãos levávamos os recipientes para transportar o tão precioso líquido. Cada um portava um latãozinho feito em alumínio, idênticos, que estavam sempre reluzentes, tal o zelo e o capricho de minha mãe.

Na borda de ambos, lembro bem, estava escrito o nome de quem havia presenteado meus pais com as duas peças gêmeas. Gravado em letras maiúsculas o nome de meu tio Waldemar Franco de Godoy, marido de minha tia Ilda, irmã de minha mãe, dava o toque final aos dois recipientes.

Os latões gêmeos já não existem mais, assim como meus avós, meus pais e meu tio Waldemar, um homem de bom coração, pau para toda obra, como se dizia antigamente. Mas essa lembrança ficou gravada em minha memória como um marco de um tempo feliz, assim como um tombo que minha irmã levou um certo dia ao tentar se equilibrar na muretinha ao lado do antigo Posto de Puericultura.


Sua tentativa circence resultou na perda de uma parte do leite, além de um belo arranhão nas costas de uma das mãos e um pequeno amassado em um dos latões. O tempo curou tudo isso, menos a dor de saber que esse período de minha vida já vai longe, cada vez mais longe no horizonte. 

segunda-feira, 14 de janeiro de 2013

Coincidências dessa vida

Sou de um tempo em que enxoval de bebê era feito de tricô, todo na base da agulha mesmo, no talento de quem sabia fazer. Um tempo bem diferente do que vivemos hoje, mais romântico, mais simples e muito melhor de se viver.

Lembro bem que minha mãe era uma dessas pessoas agraciadas pelo dom divino de saber tricotar como ninguém. E o que é melhor, ter o asseio necessário para que a peça confeccionada chegasse às mãos da freguesa da melhor forma possível, principalmente se fosse feita com lã branca.

Minha mãe tinha esse capricho e essa preocupação, por isso suas peças de tricô tinham sempre endereço certo. E o dinheiro recebido era sempre para ajudar meu pai nas despesas da casa.

Lembro que minha mãe contava, anos depois, que tinha orgulho de ter freguesas importantes e que, entre elas, uma senhora conceituada na sociedade e estimada por sua benemerência. Ela se orgulhava em dizer que entre suas freguesas estava simplesmente a dona Carmem Ruette de Oliveira e que seus três filhos, Hermelindo, Carminha e Virgolininho, vestiram enxovais de tricô feitos por ela.

E um de seus maiores orgulhos era dizer que a freguesa, tão importante perante a sociedade itapirense, gostava de seus trabalhos principalmente porque as peças, tricotadas em lã branca, chegavam às suas mãos imaculadas, no mais puro dos brancos. “Lavo as mãos com sabão de coco a cada meia hora”, contava minha mãe.

Eu, ainda um menino magricela de orelhas grandes, ouvia tudo aquilo com orgulho de minha adorada mãe, sem saber que um dia, por uma dessas coincidências da vida, iria mais tarde trabalhar justamente na Usina Nossa Senhora Aparecida. Iria conhecer de perto as pessoas que minha mãe citava em suas histórias e constatar que eram exatamente do jeito que ela descrevia.


A vida nos ensina muitas coisas, ensina a saber dar valor às pessoas que realmente merecem. Eu aprendi isso com meus pais e até hoje, depois de dobrar a casa dos cinquenta e ver meus cabelos pintados de cinza pelo tempo, ainda recordo de tudo aquilo que minha mãe contava nos meus tempos de criança e cada vez que isso me vem à memória sinto mais orgulho ainda de ser seu filho. 

quarta-feira, 13 de junho de 2012

Fábrica de sonhos

Sou de um tempo em que a vida consistia em nascer, crescer, casar e trabalhar para sustentar a família. Um tempo em que os recursos eram parcos, mas de grandes e boas recordações.

Lembro bem que meu pai sempre foi um trabalhador. Saía cedo de casa para o trabalho, voltava pro almoço e já rumava novamente para a fábrica de móveis lá no final da avenida Rio Branco. E tudo isso a pé.

Mesmo quando sua bronquite asmática atacava, principalmente na época do frio, lá estava ele com um lenço protegendo o nariz, tal qual um bandido de filmes de faroeste, enfrentando o pó produzido pela serra que cortava a madeira que mais tarde se transformaria em peças de mobiliário.

Cresci vendo esse filme e admirando meu pai, não só por seu esforço, mas principalmente pela facilidade com que transformava uma simples prancha de imbuia em um armário ou uma cama de casal. Vez por outra eu o acompanhava até a fábrica e ficava vendo ele desempenhar sua função de marceneiro.

Lembro de cada detalhe daquela fábrica de móveis. Seus sete sócios – Ulysses Ravetta, Tila Avancini, Orlando Sartori, Beti Bayod, Adilson Ravetta, Francisco Tossini e meu pai -, cada um em seu banco de trabalho e os funcionários que ali trabalhavam. O Vicente Gomes, que conheço desde menino e que foi meu amigo de infância, o Zé Pedro Oziliero, o Camilo, o Pixorra e tantos outros que por ali passaram.

Tudo ali me fascinava, mas o que mais me chamava a atenção era a arte e o talento do Chico Tossini, um mestre na arte de entalhar a madeira e transformá-la em algo incomparável. Sua forma de trabalhar com o formão ou cinzel e o martelo de madeira era algo de tirar o chapéu.

Tudo aquilo já ficou para trás, fazendo parte apenas da minha infância e das recordações do tempo em que eu era um menino magricela de orelhas grandes. Aquele fábrica de sonhos que sustentava sete famílias e dava emprego para outro tanto de pessoas fechou suas portas e encerrou para sempre um ciclo que guardo com carinho em meu baú de memórias.


Quando fecho os olhos e me voltou para o passado, ainda posso ver meu pai em seu ambiente de trabalho naquela fábrica de sonhos e até sentir o cheiro do pó da madeira, que exalava de suas roupas quando ele chegava em casa no final da tarde. Exausto, mas feliz por ter cumprido mais um dia de sua árdua tarefa de sustentar a família com dignidade. 

sábado, 7 de abril de 2012

Que amor é esse?

Sou de um tempo em que a amizade entre as pessoas era muito mais verdadeira. Um tempo em que havia respeito para com os mais velhos.

Cresci aprendendo que o amor ao próximo era um sentimento original. Amar pai e mãe, principalmente, era primordial.

Lembro bem que, como criança, era meu dever respeitar os mais velhos, pedir a bênção aos meus avós, tios e padrinhos. Bem diferente dos dias atuais e da forma com que os mais velhos são tratados.

Já passei dos cinquenta, já vai longe o tempo em que eu era um menino magricela de orelhas grandes, mas nem por isso esqueci como se deve tratar uma pessoa mais velha. Acredito que os ensinamentos que recebemos quando criança devem ficar para sempre.

Sempre amei e respeitei meus pais e guardo seus ensinamentos como se guarda um tesouro. Aprendi com eles que o amor é algo verdadeiro.

Gostei de muita gente nessa vida e algumas pessoas, acredito, também gostaram de mim. Por isso sei o que é esse sentimento e o que ele significa.

Mas, como na vida a gente vive aprendendo, nada melhor que um dia após o outro para descobrirmos novas formas de amor. Para ser sincero, nunca imaginava que seria pai e sentiria tanto orgulho por isso.

Mas, mais do que isso, nunca imaginava ser pai depois dos 50 e sentir que sou alvo de tanto amor. E esse sentimento que vem de dentro do coração torna-se ainda maior e mais sincero quando parte de uma criança.

Às vezes, quando minha pequena Mariane já dorme a sono solto, me entrego aos pensamentos e busco uma explicação para tudo aquilo que ela me ensina com seu jeito simples de encontrar soluções ou pela forma de externar o amor que sente pelo pai. Fico a imaginar como seria minha vida sem ela, sem sua presença, sem seu amor e carinho.

Por tudo o que ela representa em minha existência, tenho plena consciência da sua importância para mim. Mas, muitas vezes, não consigo encontrar explicação para tudo que represento para ela.


Sei que um filho deve amar e respeitar pai e mãe, como aprendi na infância, mas sua forma de expressar esse amor e esse carinho é algo muito além de tudo que experimentei nessa minha caminhada. Por isso, sozinho em meus pensamentos, frequentemente olho para ela, dormindo como um anjo, e me pergunto: que amor é esse? A resposta vem quase que de forma imediata, pois seu semblante sereno, tranquilo, enquanto dorme, traduz tudo aquilo que seu coração emana para seu velho pai. 

sexta-feira, 2 de março de 2012

Medos da infância

Sou de um tempo em que era só falar em morrer que eu já morria de medo. Tinha medo de morrer, tinha medo que meu pai morresse, que minha mãe morresse, enfim, a morte me metia um medo danado.

Lembro bem que quando ainda era um menino magricela de orelhas grandes e acreditava em tudo que me diziam, fiquei assustado quando ouvi que o mundo acabaria no ano 2000. Não dormia à noite e ficava imaginando como seria sem o mundo.

Ainda me recordo de um dia em que fui ao cinema assistir um filme daqueles que tinha Hércules, Maciste e aqueles monstros de sete cabeças. Não consegui ficar no cinema de tanto medo que aquela fosse a forma que o mundo iria terminar.

Fui pra casa e na minha cama, remexendo com meus pensamentos, ouvia a gritaria do público que estava em um circo montado no campo do Coraça, onde hoje é o campo Bento Nunes. Como o rio estava bufando por causa das chuvas, imaginava que a água estava entrando no circo e levando todos embora.

Tudo isso era coisa de criança, medo que todas as crianças têm. Mas eu não sabia disso e custava a dormir de tanto pensar.

Quando morria alguém da vizinhança então, era um Deus nos acuda quando a noite chegava. Era só ficar na penumbra do quarto, sozinho com meus pensamentos, para o medo voltar.

O porão de casa era outro calcanhar de Aquiles para mim. Descer à noite no quintal, nem pensar.

Tudo por causa de um sonho que tive certa noite no qual um bicho esquisito, parecido com aqueles de filme de Hércules, saía do porão. Daquele dia em diante nunca mais esqueci do sonho e muito menos do medo que ele causou.

O tempo passou, o ano 2000 já vai longe, o mundo não acabou e a vida continuou. Hoje, lembro de tudo aquilo e acho engraçado.

Já perdi meu pai, minha mãe também já se foi e, apesar da dor que isso provoca, sei que é a lei da vida. Não temos como lutar contra isso.

É a única certeza que todos nós temos, de que um dia iremos tomar o trem para a viagem final. Só resta descobrir qual o destino, pois nunca ninguém voltou ou ligou pra dizer como é naquelas paragens.

Espero que seja uma continuação daqui, pois assim poderei ter tudo e todos de volta. Tudo aquilo que tive na minha infância e que hoje sinto muita falta.

Ter meus pais, em um bangalô, como minha mãe sempre dizia. Os passarinhos cantando, o cheiro do pão assando, os banquinhos da cozinha na porta de casa, os parentes e vizinhos queridos que já partiram e até os medos que toda criança tem.

Já vivi mais de meio século, já estou na curva que aponta o caminho de todos nós e nada mais me assusta. Por isso, a única coisa que sempre peço a Deus é que me dê saúde para continuar por aqui até que minha pequena Mariane já seja uma moça e saiba se defender.


Só assim poderei entrar no trem e fazer a tal viagem. Não sem antes pedir para dar uma parada naquela lanchonete que tem na porta do ‘morituris’ para tomar a última... 

A quarta série ginasial

Faz tempo que isso não ocorre, mas um tempo atrás eu vivia sonhando que estava nas dependências da escola onde cursei o ginasial e também ...