sexta-feira, 29 de julho de 2011

Para tudo que o sino está batendo

Sou de um tempo em que as pessoas respeitavam todo e qualquer sinal que pudesse estar vindo de Deus. Um tempo em que bastava o sino da igreja bater para que as pessoas imediatamente parassem de andar, conversar e ficassem imóveis, aguardando o fim do repicar do sino para se benzerem e prosseguirem com a vida.

Era um tempo diferente, as pessoas tinham na fé o alicerce para construírem suas vidas e suas famílias. Um tempo de mais respeito entre as pessoas e, principalmente, pelos mais velhos.

Lembro bem que nas noites de domingo meu pai e minha mãe levavam minha irmã mais velha e eu para um passeio na praça, que a gente chamava de jardim. Costumávamos sentar em um dos bancos para ouvir a Banda Lira, que só começava sua retreta após a missa das sete.

Durante a celebração, quem estava na praça certamente já havia ido à missa no período da manhã. Os jovens solteiros davam voltas na praça com os homens em sentido contrário das mulheres com o intuito de encontrar o par ideal para iniciar um namoro.

Eu, um menino magricela de orelhas grandes, ficava ali, sentado ao lado de meus pais vendo aquela movimentação toda na praça repleta de gente. Lembro que no momento em que o padre iniciava a consagração da eucaristia o sino da igreja começava a repicar forte.

Era o sinal para que todos parassem suas atividades. Quem estava sentado conversando ficava em pé e interrompia a conversa. Quem estava andando parava onde estava e todos se benziam e aguardavam o fim daquele som estridente do sino para reiniciar a conversa ou a caminhada.

Era como se o mundo parasse por alguns instantes para que Deus viesse para dar suas bênçãos a todos. O silêncio reinava em todos os cantos da praça e a vida só continuava depois que o sino desse o último repique.

Um gesto singular, de crença e respeito. Um gesto que, caso se repetisse nos dias de hoje, certamente seria encarado como apenas mais uma tolice de gente antiga.

Como era bom aquele tempo. Como era passear na praça, comer pipoca do ‘seo’ Parízio, ouvir a Banda Lira sob a regência do maestro Américo Passarella, ver toda a movimentação das pessoas no ir e vir pela praça à procura de um par, tomar um sorvete de massa no Bar Central e voltar para casa feliz.


Aquele era um tempo bem diferente, carregado de romantismo e respeito. Um tempo gostoso, feliz e que não volta mais, infelizmente. Restaram daquele tempo apenas as lembranças de infância, dos momentos de lazer na praça, das brincadeiras e do som estridente daquele sino batendo e avisando que era o momento do mundo parar por alguns instantes.

sábado, 23 de julho de 2011

A TV dos Secchi Franco

Sou de um tempo em que aparelho de TV era algo raro. Um tempo em que a TV era em preto e branco e eram poucas as casas que possuíam um aparelho.

Lembro bem que no quarteirão onde morava, no início da Comendador João Cintra, apenas uma casa tinha aparelho de TV. E era para lá que a criançada rumava no final da tarde, início da noite, para assistir os seriados da época.

Na casa, que na verdade era um sobrado, residia a família Secchi Franco. Lembro que era uma família excêntrica, com a velha senhora e os filhos, todos já adultos. As filhas Zoé e Zózima e os filhos Lau, João e Zito.

Era uma gente boa, que nos acolhia com paciência e deixava que todos se acomodassem no chão da sala para ver os seriados que a TV exibia. Eu, um menino magricela de orelhas grandes, entre eles, ávido por ver meus personagens preferidos na tela daquele aparelho.

A platéia era grande, vinha menino até do bairro dos Prados, com o Paulo Pedro, um garoto bom de bola que depois viraria Pedro Paulo e se tornaria jogador da Ponte Preta. Um menino bom, pobre como todos nós, mas que batalhou para vencer na vida e alcançou seu objetivo com muita luta e talento.

Naquele tempo de parcos recursos e poucas opções de lazer ver TV era a nossa diversão. Era jantar correndo e atravessar a rua até o sobrado dos Secchi Franco para pegar um bom lugar na plateia.

Na TV a gente via Vila Sésamo, os seriados americanos como Viagem ao Fundo do Mar, Túnel do Tempo, Terra de Gigantes e desenhos animados. Era um tempo gostoso, apesar das dificuldades que a vida impunha.

Lembro que um pouco mais tarde começavam as novelas da extinta TV Tupi e a gente ia embora. Afinal, já tínhamos visto nossos programas preferidos e era a hora de deixar que os donos da casa assistissem os seus programas.

Além da casa dos Secchi Franco, outra opção era a residência do Ângelo Lizzi, que morava em frente minha casa no sobrado que até hoje abriga o Cartório Civil. Lembro que foi lá que eu e minha família vimos o Santos vencer o Milan por 1 a 0 no Maracanã, com um gol de pênalti marcado pelo lateral Dalmo, na final do Mundial Interclubes em 63.

Mais tarde, quando meu pai pôde nos dar uma televisão, lembro que era da marca Colorado. Foi uma festa em nossa casa, pois afinal poderíamos ver nossos programas preferidos sem incomodar os vizinhos.

Já era um tempo em que a fábula Meu Pé de Laranja Lima, escrita por José Mauro de Vasconcellos, havia virado novela e fazia sucesso entre as crianças. Eu gostava também do seriado japonês Nacional Kid, dos desenhos animados que eram exibidos pela Record e, principalmente, do Speed Racer.

Minha mãe, que já ouvia no rádio, pela Nacional do Rio de Janeiro, enfim poderia ver a interminável O Direito de Nascer e chorar com a mamãe Dolores, vivída por Isaura Bruno, uma das personagens da telenovela. Naquela época o galã das novelas da Tupi era Juca de Oliveira, que brilhava em Nino, o Italianinho.

Que tempo bom aquele, mas que infelizmente não volta mais. Às vezes me pego pensando em tudo aquilo, em como era bom e, raras são as vezes em que não choro de tristeza por não poder recuar no tempo e voltar a ser criança.

Em poder viver tudo aquilo novamente, com a mesma intensidade que se vive quando se é criança. E, principalmente, quando se é criança e tem uma família como a que tive.


Hoje, depois de dobrar a esquina dos cinqüenta e com a bússola virada para o ocaso da vida, sinto que Deus me deu muitas coisas boas e que agora é a minha vez de retribuir isso tudo. E, graças a Ele, é o que mais tenho feito, principalmente passando para a minha pequena Mariane todos os ensinamentos que recebi quando criança.

sexta-feira, 15 de julho de 2011

As vozes que saíam do rádio

Sou de um tempo em que o rádio era o melhor companheiro que se tinha. Televisão era para poucos, computador, então, só se via em filme de ficção e internet nem se cogitava.

Um tempo mais romântico, em que as pessoas tinham seus locutores e cantores favoritos e os programas prediletos. As músicas eram realmente melodias e tinham um significado real em suas letras.

Lembro bem que minha mãe tinha predileção pelos programas da Rádio Nacional do Rio de Janeiro. Adorava o programa comandado pelo César de Alencar, um campeão de audiência e que levava em seu programa os mais famosos cantores daquela época.

Minha mãe tinha seus cantores favoritos como as irmãs Linda e Dircinha Batista, Francisco Alves, que já havia falecido, mas que continuava fazendo sucesso, Marlene, Emilinha Borba e outras famosos daquela época eram vozes constantes nas tardes de minha infância. Eu gostava de ficar ali, ao lado dela, sentado em sua cama, ouvindo aquelas pessoas que eu não conhecia, mas que preenchiam minha imaginação com suas canções.

Para aquele menino magricela de orelhas grandes ouvir rádio era deixar a mente viajar para lugares distantes e bonitos. Eu ficava ali horas e horas, vendo minha mãe fazer crochê ou tricô e ouvindo aquele som carregado de estática que saía do rádio.

Aquele era um tempo diferente. As pessoas sabiam as letras das músicas e gostavam de cantá-las.

Quando chegava o Carnaval o rádio trazia as novas marchinhas, as músicas que satirizavam personagens famosos ou até mesmo políticos, apesar da censura forte que existia. Até as crianças cantavam as músicas carnavalescas apesar de não saberem o verdadeiro significado daquilo que estavam cantarolando.

Na Rádio Clube não era diferente. Grandes vozes passaram por seus microfones e eram igualmente ouvidas em casa.

Dácio Clemente, a maior delas, era campeão de audiência em minha casa, como em toda a cidade e região. Como em casa não tinha telefone, era na do vizinho, o maestro Américo Passarella, que eu ia tentar ligar no seu programa para pedir uma música.

Lembro que primeiro se falava com a telefonista para depois ter a ligação completada. Era difícil conseguir, mas às vezes dava certo e eu voltava pra casa feliz por ter falado na rádio, pedido uma música e oferecido para minha mãe, minha irmã e para todos que estavam ouvindo.

Hoje não se vê e nem se ouve mais nada disso. Tudo ficou no passado, um passado que não volta mais, mas que está bem guardado em minha memória.

Aquilo tudo, mal sabia eu, seria a base para minha vida profissional. Foi ali que comecei a gostar de rádio, a gostar de ouvir seus comunicadores e as músicas. Por isso que acredito que tudo na vida tem seu verdadeiro significado.

Muitas vezes penso em ligar o rádio para buscar tudo aquilo de volta, mas acabo lembrando que não basta apenas ligar o aparelho, pois aquele tempo já passou e nada será igual. Aquelas vozes já se calaram, os cantores famosos já não existem mais e as músicas daquela época ficaram esquecidas no tempo ou guardadas na memória de quem viveu aquele tempo.

sexta-feira, 8 de julho de 2011

Doce de batata-doce

Sou de um tempo em que se deixava a vasilha de leite na janela e o leiteiro enchia pela manhã. Um tempo em que não existia leite em caixinha ou de saquinho.

Um tempo em que se podia confiar no leiteiro e no padeiro com a certeza de que pela manhã tudo estaria lá, no mesmo lugar de sempre. Bem diferente de hoje, um tempo em que é bem capaz da vasilha sumir do pedaço bem antes do leiteiro dar o ar da graça.

Lembro bem que quando eu ainda era um menino magricela de orelhas grandes o leite de casa era entregue pelo Sílvio Semolini, um senhor alto, forte, do tipo bonachão, que conduzia a charrete com o tambor na parte traseira do veículo. O leite chegava às casas pela manhã, bem cedinho, naquelas garrafas de vidro de um ou meio litro.

O pão, que também era entregue em casa, vinha da padaria dos Samora, lá na avenida Rio Branco, entregue pelo Irineu Samora, um senhor magrinho, mas igualmente de boa índole. Ele parava a perua Kombi no outro lado da rua e a gente ia até lá buscar o pão e, quando minha mãe autorizava, voltava também com uma bela rosca ou um pão doce.

Era um tempo bem diferente da realidade atual. Um tempo em que os alimentos não eram acondicionados em saquinhos e encontrados nas prateleiras dos supermercados.

Mesmo porque não havia supermercados. A venda ou armazém mais perto de casa era o local indicado para a compra do arroz e do feijão, que eram pesados na balança, na frente do freguês.

O feijão e o arroz não tinham marca. Vinham direto da roça. O arroz ainda passava pela máquina de descascar, mas era colocado à venda a granel.

Lembro bem que perto de casa tinha a venda dos Tellini, na esquina onde funcionou por muito tempo a Farmácia Nossa Senhora da Penha e hoje abriga o Pastel Gigante. Um pouco mais adiante, já na rua XV, tinha a venda do Evilásio Avancini, que mais tarde pertenceu ao Bittar. Minha mãe também gostava de comprar no Sesi, que ficava na Regente Feijó e depois mudou-se lá para a Embaixador Pedro de Toledo, pertinho da avenida Rio Branco.

Carne se comprava no açougue. As peças ficavam expostas e o freguês escolhia aquela que queria e só então o açougueiro cortava ou desossava. O açougue do Mingo Bruzasco, que mais tarde foi do Nego Franceschini, no entroncamento da Comendador João Cintra com a Saldanha Marinho era o preferido de meus pais.

Frutas, ovos e verduras vinham do Mercado Municipal. O local, recheado de bancas com os mais variados produtos, ficava lotado nas manhãs de domingo.

Eu gostava muito de ir com meus pais fazer as compras naquele local. Primeiro que sempre gostei de acordar bem cedinho e, segundo, porque sempre acabava escolhendo um doce ou outra iguaria.

Lembro bem de uma passagem de minha infância que nunca mais esqueci. Um acontecimento que ficou marcado na minha memória.

Recordo que estava no mercadão com minha mãe e ela havia comprado um frango vivo em uma banca lá na parte de baixo. Pedi pra minha mãe deixar eu carregar o penoso até em casa, no que fui prontamente atendido.

Quando estávamos passando pela parte superior meus olhos avistaram uma banca de doces e, entre eles, o meu predileto: o doce de batata-doce. Pedi e minha mãe, de pronto, parou para comprar.

Quando eu estava ali, parado defronte os doces, aguardando que o dono da banca embrulhasse o meu, o frango que estava debaixo do meu braço e que acho que também tinha predileção por doce de batata-doce, deu uma bicada em um daqueles que estavam expostos sobre a banca. O dono dos doces, injuriado com a cena, esbravejou comigo e minha mãe, com seu sangue de boa descendente de napolitana com catalão, não deixou por menos. Na mesma hora mandou o homem cobrar o doce que havia comprado pra mim e também o outro, que o frango havia bicado.

Nunca mais me esqueci daquela cena. Um fato simples, mas que serviu para colocar aquele homem mal-educado em seu devido lugar.

No caminho de volta pra casa comi meu doce de batata-doce mais do que depressa, antes que o frango crescesse os olhos pra cima dele também. Mesmo porque ele não iria fazer muito proveito, afinal horas depois seu destino seria a panela.

quinta-feira, 30 de junho de 2011

A Curintiana

Sou de um tempo em que minha cidade era pacata, provinciana e adorável. Um tempo em que era gostoso viver, poder brincar ou conversar na rua até tarde da noite sem correr o risco de ser atropelado por algum maluco ou mesmo assaltado.

Sou desse tempo. Um tempo em que as pessoas se respeitavam e tinham respeito pelas autoridades.

Os policiais, por exemplo, não precisavam exibir armas ou ligar a sirene do veículo para serem notados. Bastava a simples presença de um deles e a lei naturalmente se fazia.

Lembro bem que a polícia, mesmo sem o contingente e a frota existentes na atualidade, dava conta do recado. O povo era mais pacato, mais respeitador e mais respeitado.

O policiamento consistia em alguns valorosos soldados como o Sargento Lima, o Simão soldado, o Tótero, o cabo Belluomini e, salvo algum lapso de memória, um ou outro menos conhecido. Todos muito respeitados e sabedores dos direitos e deveres de cada um.

Aquele era um tempo folclórico. Tempo em o povo gostava de dar apelidos para tudo e para todos.

E não era diferente com a polícia. Assim como a Banda Lira era conhecida como Furiosa, a dita cuja tinha a alcunha de Curintiana.

Como a ronda era feita em dois carros, se tanto, um Jeep e um Fusca. E, embora o termo fosse jocoso, a policia era conhecida como Curintiana por causa das cores de seus carros, pintados em preto e branco.

Se algum problema mais grave acontecia, bastava ligar na cadeia e lá vinha a Curintiana. E era só ela apontar na esquina para a coisa esfriar, o povo dispersar e a bagunça acabar.

Bem diferente de hoje, um tempo dominado por debilóides que têm por hobby incrementar seus carros com um equipamento de som capaz de derrubar um prédio.
Um tipo de gente que não respeita ninguém e passeia pelas ruas da cidade impunes e exibindo, além da falta de respeito para com as pessoas, um mau gosto musical terrível. Sem contar a falta de respeito com a polícia, que nada pode fazer contra esse bando de malucos.

Fosse no meu tempo de menino magricela de orelhas grandes, bastaria chamar a Curintiana e o problema estaria resolvido. Que saudade daquele tempo que, infelizmente, não volta mais.

Se pudesse, com certeza, nas noites de domingo, quando esse pessoal maluco começasse a desfilar desrespeito, impunidade, mau gosto musical e maus hábitos na rua de casa, eu chamaria a Curintiana e, certamente, tudo seria resolvido. Pena que não é mais assim.


Como seria bom se tudo voltasse a ser como naqueles tempos. Como seria bom poder brincar na rua até mais tarde, ciente de que se algo diferente ocorresse, bastaria ligar e lá vinha a Curintiana.

sexta-feira, 24 de junho de 2011

Para onde vamos?

Sou de um tempo em que o mundo iria acabar no ano 2000. Um tempo em que as pessoas eram mais tementes a Deus e mais respeitadoras de seus desígnios.

Lembro bem que cresci acreditando que tudo iria se acabar no alvorecer do ano 2000. Era questão de tempo para que tudo se transformasse em uma bola de fogo e todos nós virássemos churrasquinho.

Quando esses pensamentos me assolavam o jeito era procurar diversão para esquecer o problema momentaneamente. Durante a noite, quando eu ainda era um menino magricela de orelhas grandes e chegava a hora de dormir, minha aflição aumentava só de pensar no fim do mundo.

O ano 2000 já vai longe, o mundo segue sendo o mesmo, o fogo não veio e o que nos resta de certeza é que um dia iremos partir desta para algum lugar. Mas, para onde? Para onde iremos depois que a vida chegar ao ponto final?

Minha mãe vivia dizendo que alguém disse que ouviu dizer que depois que a gente fechasse o paletó de madeira o destino seria um bangalô. Sua certeza era tanta que passava as horas de seus últimos dias no aguardo do momento de se juntar ao seu ‘véio’ em um desses bangalôs.

Se isso realmente ocorreu não posso afirmar, mas a verdade é que torço para isso ser verdade. Dessa forma meus pais poderiam dar continuidade à bela vida que tiveram juntos por aqui.

Deixando o bangalô de minha mãe de lado, a indagação sobre o destino de cada um de nós continua sem resposta concreta. Ninguém, que eu saiba, voltou pra contar como é por aquelas paragens.

Às vezes me pego pensando como seria o lado de lá. Um campo de relvas e flores brancas para os bons? Um mar de fogo para os maus? Sei lá! Prefiro nem pensar nisso.

O melhor mesmo é aproveitar o que resta da vida para angariar boas ações e seguir aquilo que tenho como doutrina. Conquistar boas amizades, fazer boas coisas para quem necessita e conhecer lugares bonitos, pois só assim minha mala estará pronta para a última viagem.

O destino? Prefiro não pensar muito nisso e deixar para o próprio destino a resolução. Se for para um bangalô, ótimo. Desde que seja ao lado de todos aqueles que por aqui passaram e fizeram parte da minha breve história.

Caso o destino seja outro, que seja pelo menos algum lugar onde eu, enfim, possa descansar meu esqueleto em paz. Afinal, o bicho já tá ficando arcado e cansado de tanto carregar meu corpo por essas bandas.


Atenção passageiros com destino ao destino desconhecido. Queiram afivelar suas malas, apertar seus cintos e ocupar suas mentes com pensamentos positivos. A última viagem vai começar e o destino é...

sexta-feira, 17 de junho de 2011

O campo do riozinho e os torneios do Havelange

Sou de um tempo em que qualquer espaço servia como campo de futebol. Bastavam quatro tijolos para a demarcação dos gols e a bola podia rolar, fosse qual fosse a condição do chão.

Como um garoto apaixonado por futebol e ávido por correr atrás da bola, sempre que podia lá estava eu, um menino magricela de orelhas grandes, correndo com minhas pernas finas e chutando com o pé esquerdo. Fosse na rua de casa ou em um campinho qualquer, o que valia era ver a bola rolar.

Lembro bem de vários locais que eram transformados em campinhos. Como o terreno em que a Companhia Mogiana utilizava para descarregar enxofre, onde hoje está a Faculdade IESI, ou o campinho ao lado do riozinho da rua Sete de Setembro, onde mais tarde foi construída a residência do doutor Décio Galdi e que hoje abriga a casa de eventos Maison Galdi.

Ali, naquele local, muitos foram os jogos e torneios que realizamos. Como eram muitos meninos, geralmente formávamos três ou quatro times e a disputa ficava ainda mais acirrada.

Tudo girava em torno de um garoto, que organizava tudo e dividia os times. Sua habilidade para tal era tanta que o apelido de Havelange logo pegou e nunca mais foi esquecido.

Júnior, filho do doutor Hélio Amâncio de Camargo, era assim. Inteligente, hábil com a bola e craque para organizar os times, a tabela de jogos e as regras. Por isso ficou conhecido como Havelange, uma alusão a João Havelange, que naquela época comandava a CBD (Confederação Brasileira de Desportos), que mais tarde viraria CBF (Confederação Brasileira de Futebol), assim como ele viraria presidente da FIFA.

Lembro bem dele, um menino inteligente, habilidoso com a bola nos pés e também para organizar. E era na casa dele, ali na esquina da XV de Novembro com a Campos Salles que a gente se reunia antes de descer a ladeira até chegar ao campo do riozinho, como era chamado nosso estádio predileto.

Lá, naquele local, de chão sem grama, mas muito charmoso, corríamos atrás da bola e deixávamos que nossa mente fluísse pelos campos da imaginação. Afinal, estávamos na década de 60, época de ouro para o futebol brasileiro, recheado de craques como Ademir da Guia, Garrincha e Vavá, entre outros, sem contar Pelé, o maior de todos.

Parecem estar vivas em minha memória as disputas acirradas em busca da vitória. Atrás da bola, além de mim, garotos como Plininho Cremasco, Tato Monezzi, Paulo Marcos Zelante, Antonio Alberto (filho do doutor Antoninho), Carlinhos Cavenaghi, Decinho Galdi, Ari Cremasco, os irmãos gêmeos João Carlos e João Paulo, conhecidos como Broa e Parada, filhos da dona Mariana e do ‘seo’ Ico, e muitos outros, além do Havelange, claro. Todo mundo descalço, correndo naquele chão disforme e cheio de buracos, pedras e outros obstáculos.

Hoje, bem diferente daqueles tempos, os garotos têm chuteiras importadas, caneleiras, bola impermeável e um gramado macio para fazer a bola rolar. Mas, muitas vezes, acabam matando a bola de canela e mandando o sonho de se transformar em um craque para escanteio.

Como é bom lembrar de tudo isso. Nunca mais vi o Havelange. Inteligente, seguiu a carreira do pai, se transformou em médico e se mudou daqui.


Mas para mim ele vai continuar sempre aquele menino inteligente, educado, hábil com a bola nos pés e craque na organização dos times e dos torneios. Para mim ele vai continuar sendo sempre o Havelange.

sábado, 11 de junho de 2011

O apito da fábrica

Sou de um tempo em que o relógio da Matriz funcionava e servia de norte para as pessoas. Bastava olhar para a torre da igreja e a hora certa estava ali, pronta para ajudar no dia-a-dia das pessoas.

Naquele tempo, além do relógio de parede das casas e dos relógios de bolso – não eram todas as pessoas que possuíam um relógio no pulso -, alguns artifícios eram usados como indicadores da hora. Um deles era o apito das fábricas, que soavam forte em determinadas horas do dia.

Cresci ouvindo o apito da fábrica de papel que ainda hoje funciona no Cubatão, ao lado do ribeirão da Penha. No alvorecer, bem cedinho, quando eu ainda era um menino magricela de orelhas grandes, de casa já se ouvia a sirene chamando os trabalhadores para o batente.

Minha mãe, talvez por ter passado a juventude trabalhando na Fábrica de Chapéus Sarkis, sempre se guiou pelo apito da fábrica. Como ela sempre dizia, foram sete anos – dos 15 aos 22 – na faculdade do Sarkis, de onde saiu para se casar.

Esse hábito de se guiar pelo apito da fábrica acompanhou minha mãe até o fim da vida. Dava seis horas, o apito soava e lá estava ela, abrindo a porta do quarto para começar seu dia.

Às vezes eu pensava que se um dia o apito falhasse ou encrencasse minha mãe passaria o dia todo dormindo à espera do dito cujo para se levantar. Claro que isso nunca aconteceu, mesmo porque minha mãe nunca foi de se levantar depois que o sol desse as caras.

Lembro como se fosse hoje e posso vê-la no fogão à lenha de casa, preparando o almoço. Quando o apito soava anunciando que a hora do almoço havia chegado, ela já sabia que dali cinco ou 10 minutos meu pai estaria ali para almoçar, descansar um pouco e já voltar para a fábrica de móveis, lá no fim da avenida Rio Branco.

Esse apito estridente me acompanha até hoje. Mesmo não residindo mais na casa de número 20 da Comendador João Cintra, ainda ouço o bendito apito anunciar que são seis da matina. E, claro, já boto os pés no chão para começar mais um dia.

E faço isso com o coração apertado de saudade daqueles tempos de menino, quando eu ouvia aquele apito bem mais de perto e sabia que meu pai e minha mãe já estavam rumando para a cozinha e, logo logo, o cheirinho gostoso de café estaria invadindo meu quarto. Bons tempos aqueles, que já vão longe, mas que voltam a cada manhã quando o apito soa em meus ouvidos.

Se antes, por muitas vezes eu reclamava de seu estrilo ardido, hoje seu som me soa como melodia nos ouvidos, pois me transporta para um tempo distante que guardo com muito carinho no coração e na memória.


A fábrica continua lá, já mudou de nomes não sei quantas vezes, mas seu apito permanece forte e estridente, me chamando para relembrar bons tempos de minha vida. Que ele continue firme e forte, mesmo que a fábrica mude de nome um sem número de vezes. Amém!

sexta-feira, 3 de junho de 2011

Os bancos do Grupo Escolar

Sou de um tempo em que escola particular era a forma encontrada pelos pais para dar continuidade ao estudo dos filhos que não se saíam bem na escola pública. Um tempo em que o ensino gratuito superava em muito aquilo que era oferecido onde se pagava para estudar.

Lembro bem de meus anos nos bancos escolares. Um tempo importante e que foi a base do pouco que sei.

Antes de completar sete anos, quando eu ainda era um menino magricela de orelhas grandes, rumei todo imponente em meu uniforme para o Grupo Escolar Dr. Júlio Mesquita. Apesar de não saber o que iria encontrar pela frente, tinha certeza de que iria gostar.

Aprendi a escrever e a ler pelas mãos e a sabedoria de dona Ismaelina Proença Pinto. Uma senhora que era tudo que um aluno de primeiro poderia querer, tamanha bondade e paciência.

Nos anos seguintes, já craque nas contas e na leitura, o aprimoramento veio com as professoras Genny Piva Zázera, Gilmery Vasconcellos Pereira Ulbricht e Ivone Pegorari Vieira. Todas também importantes para minha formação escolar.

Lembro como se fosse hoje daqueles tempos que ficaram lá atrás. Um tempo em que o aluno tinha que estudar de fato para tirar nota se quisesse passar de ano e não ser rotulado de repetente.

E como dava orgulho poder colocar uma listra azul a mais no bolso da camisa. Poder responder que havia passado de ano e cumprido com o dever de bom aluno.

Ainda hoje, quando passo defronte ao prédio secular da escola ou entro para exercer o direito do voto posso sentir o clima daqueles quatro anos que marcaram minha infância. E como tenho saudade daquele tempo.

Parece que ouço o burburinho do recreio ou a voz grave das professoras se empenhando em passar aos alunos a lição do dia. É como se estivesse ali, sentando na carteira, com minha camisa extremamente branca e meu short azul marinho.

Meu pensamento voa e me transporta para a fila formada no galpão do recreio para a entrada para as classes. Ainda posso ouvir o hino nacional ou da Independência ou mesmo o hino à Bandeira, que eram entoados antes da entrada.

E tudo era feito dentro do mais profundo respeito, tanto ao símbolo nacional como à professora que nos conduzia. Não havia algazarra ou bagunça.

Se pudesse voltar no tempo certamente não perderia a oportunidade de voltar àquela escola e ler minha cartilha Caminho Suave. Subiria correndo o escadão da ladeira São João para chegar logo ao grupo escolar.

Iria ouvir atentamente os ensinamentos de minhas professoras para angariar um pouco mais de saber. Recitaria novamente a poesia sobre o descobrimento do Brasil e me sentaria nos bancos do recreio para saborear o lanche preparado por minha mãe para o intervalo.

sábado, 28 de maio de 2011

Os banquinhos da cozinha


Sou de um tempo em que televisão era artigo de luxo e a maioria das famílias não tinha recursos para contar com aquela novidade. Um tempo em que o lazer preferido das famílias e talvez um dos únicos era sentar na calçada para conversar no início da noite.

Lembro bem que com minha família não era diferente. Ver televisão era algo raro e, quando ocorria, era na casa de algum vizinho.

Nasci e cresci na casa de número 20 da rua Comendador João Cintra. Foi ali que vivi grande parte de minha existência.

Quando nasci era uma casa antiga, com teto alto e assoalho de madeira com buracos que deixavam ver o andar de baixo. Naquele tempo eu ainda era um menino magricela de orelhas grandes.

Somente no final da década de 60, mais precisamente em 1970, na época da Copa do Mundo do México, quando eu já contava 13 anos, que uma nova casa começou a surgir a partir das idéias de minha mãe, que praticamente desenhou nossa nova residência.

E quando a reforma por fim terminou, já em 71, alguns acessórios foram adquiridos para dar vida à casa. E, entre eles, três banquinhos em fórmica que circundavam uma pequena mesa de mármore incrustada na parede da cozinha.

Está certo que os mesmos praticamente nunca foram utilizados como assento para refeições naquela mesa. Primeiro porque dificilmente alguém comia ali e, depois, porque eram extremamente baixos para tal finalidade.

Mas o destino havia reservado uma tarefa mais importante para aqueles bancos nanicos e de pernas finas. Quis o destino que por mais de três décadas fossem eles as testemunhas de uma das uniões mais perfeitas que já vi.

Por mais de três décadas aqueles banquinhos serviram como assento para meus pais se sentarem na porta de casa. Fosse de dia ou de noite, a cada folga nos afazeres domésticos ou no trabalho e lá estavam os dois, sentados nos banquinhos jogando conversa fora ou planejando algo novo para nossa família.

Cresci vendo aquela cena e hoje, alguns anos depois que meu pai se foi e depois da partida de minha mãe, a cada vez que passo por aquele quarteirão, sinto a presença de ambos.

Olho para aquela casa, de coração apertado e a saudade aflorada no peito e parece que vejo os dois sentados ali, encostados no portãozinho do abrigo. Essa cena não me sai da memória e, mesmo à distância, se fecho os olhos posso visualizar ambos ali sentados.

Os banquinhos nem sei onde foram parar. Foram consumidos pelo tempo e se deterioraram, mas a lembrança permanece intacta e a imagem nítida em minha retina.

Infelizmente o tempo é implacável e senhor de todas as coisas. Ele rege nossa vida e nossa história e nada podemos fazer para mudar o curso natural das coisas.


É como um rio, que segue seu curso deixando para trás as marcas indeléveis de sua força. Tal como as águas, que passam e não voltam mais, nossa vida segue seu curso de acordo com o tempo e, por mais que desejamos, jamais conseguiremos voltar no tempo para reviver tudo o que já se foi.

sexta-feira, 20 de maio de 2011

A Coloninha, o Risca Faca e a rua da Estação

Sou de um tempo em que ruas, bairros e vilarejos eram mais conhecidos por apelidos que propriamente por seus nomes oficiais. Um tempo romântico, em que as pessoas valorizavam muito mais as amizades.

Lembro bem de certos locais e ruas da cidade que nem mesmo o nome correto eu sabia, mas que eram por mim conhecidos pelo apelido. A José Bonifácio, rua principal da cidade, por exemplo, era mais conhecida como rua da Estação, por ser a principal via de acesso à estação do trem.

Quem iria pegar um trem na estação da Mogiana, invariavelmente descia pela rua da Estação antes de virar tomar o trecho que hoje leva o nome de Orestes Pucci, mas que ainda era uma parte da Alfredo Pujol. Esse era o caminho natural para quem vinha do Cubatão, dos Prados ou do Centro mesmo.

Lembro das inúmeras vezes que desci aquela rua com meus pais para tomar um trem rumo a Martim Francisco, com destino a fazenda São Miguel, de propriedade da família Cavenaghi, então administrada por meu tio Osório, esposo de minha tia Jacira, irmã de minha mãe. Eu era um menino magricela de orelhas grandes e ainda era de madrugada e a gente descendo a fria José Bonifácio tentando alcançar minha avó Carmela, que há muito já havia saído de casa, desembestada com medo de perder a Maria Fumaça.

A rua da Estação era apenas uma entre tantas vias conhecidas pelo apelido. Assim como a rua do Pescador, alcunha dada à rua Embaixador Pedro de Toledo, por ser o caminho natural com destino ao ribeirão da Penha.

Ou a rua do Comércio, como era conhecida a rua Francisco Glicério. Tinha também a rua do Amparo, como era chamada a rua da Penha, por ser a saída para Amparo.

Era um tempo diferente, bem mais gostoso que essa agitação toda de hoje. Um tempo em que podíamos brincar na rua sem medo de ser atropelado ou assaltado.

Da janela do banheiro de casa eu vislumbrava alguns lugares pitorescos como o Risca Faca, hoje a parte alta da Vila Ilze, ou a Coloninha, ali no pé do escadão do Tenente Pintor. Sem contar o Arranha Gato, que pra quem não sabe é aquela viela existente na avenida dos Italianos, perto da casa da família Guiraldelli.

Na Francisco Glicério, depois da avenida Rio Branco, tinha o Pito Aceso, que compreendia a rua Santos Dumont, a Romano Mozzaquatro e as demais vias daquela região. Na Duque de Caxias tinha o Cata-Osso, pouco antes de chegar ao local onde hoje está o Ginásio Itapirão.

Na Vila Bazani, nas proximidades do campo que leva o nome do saudoso Jaú, tinha o Subaco Ardido. Sem contar o Morro do Macumbê, como até hoje é conhecido o final da rua do Cubatão. Ou o Tola Cavalo, apelido da rua Presidente Kennedy.


Nomes e apelidos que ficaram para trás no tempo, esquecidos ou desconhecidos dos mais novos. Mas que permanecem na memória de quem viveu aquele tempo romântico de Itapira e sua gente.

A quarta série ginasial

Faz tempo que isso não ocorre, mas um tempo atrás eu vivia sonhando que estava nas dependências da escola onde cursei o ginasial e também ...