quarta-feira, 27 de outubro de 2010

Esse menino vai ser padre

Sou de um tempo em que ter um padre na família era como uma graça recebida dos céus. Cresci acreditando nisso e assim penso até hoje.

Mas naquele tempo essa dádiva era ainda mais valorizada. Afirmo isso com a certeza de quem teve esse privilégio desde que nasceu.

Cresci tendo um tio seminarista, que infelizmente partiu desse mundo pouco tempo depois de sua ordenação. Além de ter inúmeras qualidades como homem, tio Zé Rubens era também meu padrinho.

Quando foi pedida sua presença no andar superior eu não era mais um menino magricela de orelhas grandes. Aos 15 anos já era um adolescente cheio de sonhos.

Lembro bem que, certo dia, com a família ainda vivendo a dor da perda, fui interpelado por minha avó paterna e por uma religiosa que atendia por Irmã Mariana. As duas queriam porque queriam que eu seguisse a carreira sacerdotal como forma de suprir a ausência de meu tio querido. Claro que declinei daquele ‘convite’ por entender que para tanto havia a necessidade da vocação.

Sempre acreditei que a vocação, para qualquer caminho na vida, nasce com a pessoa. E o exemplo maior disso vivia bem próximo.

Afinal, cresci ouvindo que o menino que minha mãe havia amamentado quando eu nasci e que para todos nós era como se fosse da família seria padre. De fato, todos os caminhos levavam meu ‘irmão de leite’ ao sacerdócio.

Sua devoção, seu jeito de ser e pensar indicavam que aquele menino seria um padre. Ele sim tinha vocação, tinha nascido para aquilo.


E assim acabou ocorrendo. O menino, de nome José Eduardo, amamentado por minha mãe, cresceu, ordenou-se padre e hoje, com as barbas brancas apesar de ainda estar na casa dos 50, já completou 25 anos de vida religiosa.

terça-feira, 19 de outubro de 2010

O amigo da onça

Sou de um tempo em que o ensino público superava, de longe, o particular. Ao contrário do que ocorre na atualidade, estudava em escola particular quem era jubilado da escola pública.

Naquele tempo, quem estava prestes a completar sete anos já rumava para os bancos escolares para o aprendizado que nunca mais seria esquecido. Um mundo de letras, números, cores e desenhos, totalmente novo para aquele menino magricela de orelhas grandes.

Lembro bem de minha passagem pelos quatro anos de grupo escolar. A pequena distância entre minha casa e o Júlio Mesquita era cumprida pelo escadão da ladeira São João.

Foram quatro anos de conhecimento para aquele menino sempre atento as novidades. As notas altas no final de cada semestre revelavam que o aprendizado estava sendo absorvido de forma satisfatória.

Algumas passagens ficaram guardadas em um canto do meu baú de memórias. Mas foi um fato ocorrido já no quarto ano do primário que ficou marcado para sempre em minhas recordações. Sempre que vou ao velho Júlio Mesquita para cumprir meu dever de eleitor a cena volta e tudo que ocorreu naquele dia revira minha memória, avivando cada segundo como se tudo estivesse acontecendo novamente.

Apesar de ser um aluno dedicado e sempre tirar notas altas, naquele dia cometi um erro fatal para os moldes rígidos do ensino da época. Um erro que poderia ter sido evitado.

O dever de casa passado pela professora Ivone Pegorari Vieira era escrever uma composição sobre um passeio nas férias. Por algum motivo eu havia esquecido de escrever a composição.

Quando fui escalado para ler meu dever de casa um frio percorreu minha espinha, pois sabia que alguma coisa ruim estava para acontecer. Lembro bem que minha carteira era na primeira fila e do meu lado estava o Lula. Não o presidente, mas o Luís Carlos Santa Luzia.

Quando ouvi meu nome proferido pela professora pensei rápido e abri o caderno em uma folha em branco. Passei a ler uma composição inexistente, deixando minha imaginação fazer o serviço que eu não havia feito em casa.

Talvez meu senso jornalístico já estivesse presente e minha interpretação corria da melhor maneira possível, até ser delatado pelo colega de carteira. ‘Professora, não tem nada escrito no caderno dele’, disse o amigo da onça.

Aquela frase gelou minha alma e temi pelo pior. E ele veio de uma forma cruel. Depois de constatar que eu havia tentado burlar as regras inventando uma composição de cabeça, a professora reagiu prontamente e aquela mão veio como um bólido em minha direção.

Imediatamente senti a dor do tapa no lado direito do rosto. Mas senti muito mais a vergonha que passei pelo duro castigo que me foi imposto.

Quase cinco décadas depois ainda consigo ver tudo aquilo novamente. São fatos que teimam em retornar a cada lembrança dos meus tempos de Júlio Mesquita.


Fatos que ficaram gravados na memória daquele menino magricela de orelhas grandes. E a lembrança deles dói tanto quanto o tapa que deixou meu rosto marcado pela força daquela mão impiedosa.

quarta-feira, 13 de outubro de 2010

Brincar de cor

Sou de um tempo em que um simples brinquedo de madeira ou plástico já fazia uma criança feliz. Um tempo em que jogos eletrônicos, videogames e outras parafernálias eram apenas projetos futuros.

Lembro bem de muitos brinquedos que tive. Cada um com sua peculiaridade.

Mas, nem sempre eram os carrinhos, jogos ou mesmo a bola que atraíam aquele menino magricela de orelhas grandes. Muitas vezes, olhar pela janela do banheiro de casa e ver as casas que compunham o cenário à minha frente era uma atividade mais atraente.

Pode parecer um tanto quanto estranho uma criança gostar de ver casas e suas diversas cores, mas talvez pode sido ali, naquela janela, que minha predileção por números e estatísticas tenha começado. Ficava ali, olhando aquelas casas no Cubatão, contando quantas eram amarelas, quantas tinham a parede pintada em azul, verde ou outra cor qualquer .

Invariavelmente a brincadeira de contar as casas de cada cor era sempre feita a dois. Minha mãe, com paciência de Jó, estava sempre pronta para me fazer companhia.

E, brincar de cor talvez seja hereditário. Depois de tantos anos, com os cabelos já pintados pelo tempo, minha relação com as cores continua, mas de uma forma totalmente diferente.

Minha tarefa agora é árdua, parecida com aquela que minha mãe realizava, mas muito prazerosa. A cada convite da Mariane, minha pequena de quase dois anos, para brincar em seu quarto, já sei que vou viajar no tempo e vislumbrar aquelas casinhas e suas cores que me fascinavam.

Na sua simplicidade de criança, chamar o pai para brincar de cor é sua diversão preferida. Passo horas sentado no tapete com seus lápis coloridos e a cada resposta correta sobre a cor do lápis em minha mão é um prêmio para quem já imaginava passar pela vida sem ter o privilégio de ser pai.

Vê-la se ocupando com as cores é um bálsamo que cura qualquer ferida aberta pela ação do tempo. Ficar ali, sentado ao seu lado, ao contrário de ser um incômodo para o esqueleto de quem já fez a curva dos 50, é uma viagem até a janela do banheiro de minha casa na Comendador João Cintra.


Olhando para aquela garotinha compenetrada acabo enxergando um garotinho com os olhinhos buscando cores e mais cores entre as casinhas no longínquo alto do Cubatão, pertinho da mata que existia onde hoje está o Cemitério da Paz. Segundo minha mãe, era lá naquela mata que os urubus pousavam para descansar.

quarta-feira, 6 de outubro de 2010

Retrato do tempo

Sou de um tempo que as fotos em preto e branco retratavam a vida em família. Diferente dos dias de hoje, em que as digitais e os celulares facilitam a tarefa de quem gosta de registrar fatos e passagens, naquele tempo as famílias costumavam perpetuar os momentos importantes com a presença de todos os membros, sentados ao redor dos patriarcas.

Comparo nossa passagem pela vida a essas fotos. Quando se é criança os personagens presentes na foto compõem a família que nos rodeia. Mas, aos poucos, cada figura daquelas retratadas na fotografia vão sumindo, pouco a pouco, deixando apenas os rastros de boas lembranças.

Minha fotografia genealógica sempre foi repleta de personagens. Uns mais próximos, outros, nem tanto, mas sempre presentes na vida daquele menino magricela de orelhas grandes.

Cada personagem que o passar dos anos apaga se torna um desfalque que nos deixa órfãos de vida em família. Afinal, pessoas que gravitam ao nosso redor durante a infância são como pontos de apoio durante nossa caminhada.

Meu retrato do tempo já está bastante desfalcado. Olho para ele e vejo apenas vazios, antes ocupados por avós, tios, pais e primos, que hoje figuram em outro retrato. O retrato das boas lembranças, que nem mesmo o tempo consegue esvaziar.

A vida nos ensina a dura realidade da perda. A cada figura que se apaga, um pouco de nós segue com ela. São como golpes de punhal que perfuram e dilaceram nossa alma.


Por isso, de vez em quando, corro os olhos da mente pela foto para ver se ainda estou nítido nela ou se minha figura está se tornando opaca, sem brilho e desfigurada. E é nesse instante que um calafrio percorre o corpo de alto a baixo e me faz sentir que nada somos além de meras figuras em um retrato do tempo.

terça-feira, 28 de setembro de 2010

Minha tia de longe

Sou de um tempo em que viajar no tempo era coisa de seriado de TV. Hoje percebo o verdadeiro significado dessa expressão a cada vez que minha mente me remete a fatos e passagens de minha infância.

Quando eu ainda era um menino magricela de orelhas grandes o seriado Túnel do Tempo estava na moda. Apesar de não ter aparelho de TV em casa, eu sempre dava um jeitinho de assistir no sobrado dos Secchi Franco, local de encontro da criançada para a sessão de TV do início da noite.

Talvez por ainda ser criança e ter pouco ou quase nada para relembrar, não entendia como minha avó Carmela e minha mãe ficavam rememorando tantos fatos do passado. E a resenha era ainda maior quando minha tia Nira vinha da longínqua Álvares Machado para uma temporada em casa. Ávida por notícias de pessoas com as quais conviveu em sua juventude, minha tia, alegre e extrovertida, era uma companhia agradável e muito esperada por todos nós.

Como residia muito longe de Itapira, tia Nira visitava os familiares uma vez por ano, se muito. E o tempo que passava conosco era uma festa, com verdadeira peregrinação para rever familiares e conhecidos.

E foi em um desses passeios que ocorreu uma cena inusitada, que ficou gravada até hoje em minha memória. Tudo se passou em uma viagem de trem até Martim Francisco, última parada antes da pequena viagem de charrete até a Fazenda São Miguel, onde residia a família de minha tia Jacira.

A viagem era curta, mas havia a necessidade da troca de trem em Mogi Mirim. A famosa baldeação.

Era preciso descer de um trem e subir em outra composição. E, para tanto, havia a necessidade de atravessar por entre os trilhos.

Sempre bem arrumada, minha tia Nira acabou enroscando o salto do sapato no dormente dos trilhos e o tombo foi inevitável. Apesar do contratempo, seu bom humor falou mais alto e, sentada no meio da linha férrea, deu boas risadas da situação, até se levantar e prosseguir pelo trajeto até o trem que nos levaria até Martim.

Hoje, já com o baú de memórias abarrotado pelo tempo que passou, posso entender o valor de tudo o que temos de bom para relembrar. E é num simples fechar de olhos que viajo no tempo. Tão rápido quanto a passagem dos personagens daquele antigo seriado, que viajavam no túnel e caíam em um ponto do passado.


Mas, diferente das aventuras irreais vividas pelos personagens do seriado, minha viagem é recheada de lembranças. Lembranças como essa do tombo hilário de minha tia. Um fato simples, mas marcante, pois retrata um tempo feliz de minha infância.

quarta-feira, 22 de setembro de 2010

Sebo nas canelas

Sou de um tempo em que se jogava futebol no meio da rua. Um tempo em que as noites eram calmas e demorava muito para que um carro passasse e atrapalhasse a brincadeira. O gol era feito com dois pedaços de tijolo e arrancar a champa do dedão do pé nos paralelepípedos da rua era algo comum.

A bola rolava todas as noites na rua de casa e o jogo parava pouco antes das dez. Afinal, antes da diversão vinha o respeito às pessoas e às ordens que nossos pais impunham como regras básicas para as brincadeiras.

Nos finais de semana o jogo era transferido para o campinho que ficava às margens do ribeirão da Penha, onde hoje passa a avenida dos Italianos, pertinho da ponte da rua Sílvio Galizoni, que faz a ligação com o Cubatão.

Era ali que o Paulistinha mandava seus jogos. Mas quando surgia um convite de algum time de fazenda ou sítio lá íamos nós para enfrentar o desafio.

Fazenda Jardim, Sítio Grande, Córrego do Cocho era adversários tradicionais e fregueses contumazes. Nosso time era redondinho e dificilmente era batido.

E a viagem até o local do jogo era feita em charretes. Cada uma levava três ou quatro integrantes do time e a romaria partia cedo pra dar tempo de chegar para o jogo.

Um belo domingo de sol fomos nós, já devidamente uniformizados, até os Limas, enfrentar o time local. O convite partiu de um dos moradores daquela localidade que, virava e mexia, estava na rua de casa.

Fomos muito bem recebidos, principalmente por ter entre nós o Hermenegildo Giovelli, amigo de escola daquele morador que havia convidado nosso time para o jogo. Quando a bola rolou a amabilidade acabou.

Jogo difícil, equilibrado e a gente, ainda garotos, enfrentando aqueles marmanjos acostumados com a vida da roça, calejados e de porte físico muito mais avantajado. Mas isso não intimidava nosso time, que tinha técnica e corria bastante. E essa facilidade para correr acabou nos salvando de apanhar daquele pessoal de pele curtida pelo sol e que ficava bravo de verdade quando perdia um jogo.

A história começou quando o jogo, já no segundo tempo, estava empatado em 3 a 3. Rápido e driblador, o Vanderlei Zalgelmi, nosso ponta-direita, levou meio time deles na corrida e quando entrou na área foi derrubado. Pênalti claro que podia nos dar a vitória.

Aí veio o aviso: “se vocês baterem o pênalti e marcarem o gol vão apanhar”. É claro que o medo bateu naqueles garotos, mas a vontade de vencer era mais forte.

Ficamos todos prontos pra correr, só esperando a bola passar pela linha do gol na cobrança do pênalti. Como era o que mais corria, o Vanderlei ficou encarregado de bater o pênalti.

O chute saiu forte, longe do alcance do goleiro. E, imediatamente, iniciamos nossa fuga até as carrocinhas ‘estacionadas’ bem atrás do gol.

Lembro bem da cena dantesca. A gente correndo e pulando nas charretes e aquele pessoal todo atrás de nós.

E, como se dizia antigamente, era sebo nas canelas. Claro que escapamos e ainda saímos de lá comemorando a vitória por 4 a 3 e, principalmente, o fato de ter ludibriado nossos algozes.


Esse tempo não volta mais, mas as lembranças de infância ainda estão bastante claras. Hoje já não é mais possível se jogar futebol no meio da rua, mas se fechar os olhos ainda posso ver aquele menino magricela de orelhas grandes correndo atrás da bola.

terça-feira, 14 de setembro de 2010

Dois frangos e um mico

Sou de um tempo em que frango de granja era novidade. As galinhas e os frangos caipiras predominavam na face da terra e os branquelos eram motivo de curiosidade.

No meu tempo de criança quase todo sábado era dia de pagar mico. Está certo que essa gíria ainda não existia, mas, com certeza, cairia como uma luva diante da situação que me era imposta.

Quando tinha meus 10 ou 11 anos meu pai era um dos sete sócios da Fábrica de Móveis Santa Terezinha. Situada no final da avenida Rio Branco, onde depois funcionou a Fábrica de Calçados Bellini, a empresa fabricava móveis de qualidade, que eram comercializados em lojas de móveis de toda a região, além do atendimento direto ao cliente.

E para fabricar os móveis era necessário serrar a madeira que vinha de Caçador, em Santa Catarina. O processo resultava também em um monte de cavaco, que virava piso de granja.

O destino desse cavaco era um granja de Serra Negra, que em troca oferecia aos proprietários alguns galináceos. O presente era dividido de forma justa e cada um dos sócios da fábrica levava dois frangos para casa. Quer dizer, levavam coisa nenhuma, pois essa tarefa cabia a nós, filhos, que tínhamos que buscar os bichinhos e fazer o trajeto de volta com eles a tiracolo até chegar em casa.

Atravessar a Rio Branco inteira com aqueles dois bípedes, um em cada mão, era uma tarefa árdua. Talvez, por saberem que o destino deles seria uma panela, ficavam irriquietos e tentando a todo custo subir pelos braços daquele menino magricela de orelhas grandes, ávido por chegar em casa e se livrar daquele mico.


Está certo que depois de virarem um belo e suculento complemento para a polenta que minha mãe fazia os bichinhos até que se tornavam simpáticos, mas a viagem de pouco mais de um quilômetro com eles a bordo era terrível. Sorte mesmo tinham o Tatão e o Tatinha, filhos do Tila Avancini, que por serem dois podiam dividir a tarefa e o mico.

segunda-feira, 6 de setembro de 2010

O trem das seis

Sou de um tempo em que o trem era um dos principais meios de transporte do país. Um tempo em que nossos políticos ainda não tinham tido a infelicidade de extinguir esse meio de locomoção de cargas e pessoas.

E, naquele tempo, andar de trem era uma das mais fantásticas aventuras que havia. Demorava pra chegar? Sim, mas valia a pena e, quem não teve a oportunidade de viajar de trem não sabe o que perdeu.

Quando eu tinha meus seis anos de idade e era um menino magricela de orelhas grandes, passear na fazenda São Miguel, em Martim Francisco, era algo que me fazia feliz. Minha tia Jacira, irmã de minha mãe, residia naquela propriedade, que era administrada por meu tio Osório.

Bem cuidada, a fazenda, de propriedade dos Cavenaghi, tinha um pomar defronte a casa em que meus parentes residiam que era algo de dar inveja a qualquer produtor. Ali eram encontradas as mais variadas frutas, desde a simples laranja até a castanha portuguesa, aquela que se cozinha antes de comer.

Lembro bem de como era gostoso acordar cedinho no sábado e descer a rua José Bonifácio até a esquina da Alfredo Pujol e depois subir até a estação da Mogiana. O trem saía às seis da manhã com destino a Mogi Mirim, onde era feita a baldeação até Martim Francisco. Dali até a fazenda o trajeto era feito na charrete em que meu primo Beto ia nos buscar.

Lembro de tudo isso com aquela saudade que aperta o peito, dá um nó na garganta e nos deixa triste e feliz ao mesmo tempo. Triste por não ter mais como voltar no tempo e reviver tudo aquilo. Feliz por ter vivido aqueles momentos prazerosos.


Lembro também de como minha avó materna descia a José Bonifácio em desabalada carreira com medo de perder o trem. Até aí tudo bem, não fosse o fato do trem sair as seis da estação e minha avó iniciar o trajeto quando o velho relógio de parede de casa ainda não ter dado as cinco badaladas.

terça-feira, 31 de agosto de 2010

O exame de admissão

Sou de um tempo em que o respeito, com o perdão da redundância, era tratado com respeito. Lembro bem das noites de domingo, quando a praça central da cidade recebia centenas de pessoas, ávidas por um bate-papo com conhecidos e por momentos de lazer ao som da banda Lira.

A praça, recém reformulada, ostentava a matriz como baluarte da arquitetura e da fé das pessoas. O soar dos sinos era o sinal para que todos que ocupavam a praça parassem de andar, falar ou o que estivessem fazendo naquele momento. Era a senha para que as pessoas que ocupavam os bancos se levantassem e aguardassem pelo final do repicar para retomarem o que haviam interrompido.

Esse tempo, claro, ficou no passado, um passado repleto de costumes e gestos respeitosos, como pedir a bênção aos pais, avós, tios e padrinhos. Ou chamar de senhor ou senhora os mais velhos.

Lembro bem das brincadeiras na rua de casa todas as noites. Podia ser pega-pega, futebol ou qualquer outra brincadeira. Quando os ponteiros do relógio se aproximavam das dez da noite era hora de tomar o rumo de casa, sem esperar pelo chamado dos pais.

No meu tempo de criança estudar no ginásio era o sonho de 10 entre 10 alunos do primário. Para conseguir uma vaga era preciso passar pelo exame de admissão e, para tanto, aulas particulares eram ministradas na Escola Técnica de Comércio.

Lembro bem dessas aulas, à tarde, em período contrário ao das aulas no Júlio Mesquita, onde menino estudava no período da manhã e menina frequentava as aulas à tarde. No cursinho preparatório para o exame de admissão era importante aproveitar ao máximo as instruções dos professores Fenízio Marchini e Orlando Dini, pois só assim as chances de entrar para o ginásio eram concretas. Fiz a minha parte, garantindo minha vaga com sobras e notas expressivas.


São lembranças de um tempo que não volta mais, que ficaram guardadas no meu baú de memórias e que são desenterradas sempre que algum fato me transporta no tempo. Aí, volto a ser aquele menino magricela de orelhas grandes, sempre atento aos fatos e aos ensinamentos que a vida nos reserva.

segunda-feira, 23 de agosto de 2010

O Saratoga do meu avô

Não conheci meu avô materno. Anos antes do meu nascimento um câncer o levou aos 54 anos. ‘Seo’ Antonio Papaléo, pelo que minha mãe contava, era um homem austero, inteligente e muito bem informado.

Além de algumas parcas fotos que restaram do seu tempo aqui na terra, sobrou para minha família um rádio, daqueles bem antigos, da marca Saratoga. Por muitos anos aquele aparelho ficou num canto da sala, sem muito uso pois, apesar da nossa casa ainda não ter um aparelho de TV, minha mãe tinha outro rádio no quarto e era nele que ouvia as novelas da rádio Nacional do Rio de Janeiro todas as tardes, enquanto bordava, fazia crochê ou tricô.

Quando passei a gostar de ouvir rádio e a ter acesso a eles foi naquele velho aparelho herdado do meu avô que comecei a procurar por emissoras e programas. Lembro bem do som forte e limpo que seu potente falante emitia.

À noite era nele que eu ouvia a programação da rádio Mundial do Rio de Janeiro, uma AM que botava qualquer emissora de FM, principalmente as de hoje, no chinelo. Era gostoso ficar horas e horas olhando pro nada, imaginando como era a emissora por dentro e ouvir as baladas e as vozes incomparáveis de seus locutores.

O Saratoga resistia bem ao tempo e à minha curiosidade. Seu único defeito estava no botão da sintonia, que não funcionava mais por ter escapado do cordão que girava o dial. Mas isso não era problema para aquele menino magricela de orelhas grandes que já estava se tornando um jovem.

Era só meter a mão por detrás do aparelho e girar o barbante com a mão. É claro que de vez em quando dava umas queimadas nos dedos por causa das válvulas, mas valia a pena.

Mas, como tudo que é bom dura pouco, meu velho companheiro acabou me deixando sozinho. Não por minha ou sua culpa, mas por causa de um primo, que ‘entendia’ de tudo e se meteu a enrolar o motorzinho do Saratoga.

Na esperança de ver o velho rádio novo em folha, vi ele levar a peça embora e, depois de um bom tempo, voltar com a mesma toda melada, dizendo que não prestava mais. Foi o fim de uma parceria muito prazerosa, que me fez viajar nas ondas do rádio e tomar ainda mais gosto por esse meio de comunicação incrível, capaz de aguçar nossa imaginação.

quinta-feira, 19 de agosto de 2010

Só vão restar as lembranças

Dizem que dessa vida nada se leva. Será? Sinceramente, acredito que são muitos os ingredientes que levaremos na bagagem quando o trem chegar para nos levar daqui para o lugar que, dizem, está reservado para cada um de nós.

Todas as vezes que viajamos, a serviço ou para um simples passeio de férias, a preocupação com o espaço na mala é evidente. O que levar? Roupas, sapatos, escova de dente, objetos pessoais, máquina fotográfica e outras bugigangas lotam todos os espaços.

Para aquela que dizem ser nossa última viagem não deve ser diferente. As boas lembranças devem ficar em um local de fácil acesso, prontas para serem encontradas no primeiro momento de saudade. Afinal, é pra isso que servem. Para apaziguar o aperto no peito e o nó na garganta.

As boas amizades que conquistamos nessa nossa passagem pela Terra precisam ficar bem acomodadas em um local da mala. Como não sabemos qual será nosso paradeiro final, é a elas que iremos recorrer em caso de solidão, medo, insegurança ou necessidade. Se angariamos bons amigos por aqui, com certeza eles não nos faltarão no primeiro momento de fraqueza.

Os lugares bonitos que conhecemos também deverão estar entre os pertences. Como um manual de viagem, daqueles que utilizamos quando saímos sem destino definido, eles irão servir como ilustração para nossa caminhada rumo ao ponto final.


E, finalmente, as boas ações que praticamos por aqui preencherão os espaços que sobrarem na mala. São elas que irão garantir que seremos bem recebidos, onde formos parar nessa viagem. Serão nosso cartão de visita em qualquer ponto ou paradeiro.

A quarta série ginasial

Faz tempo que isso não ocorre, mas um tempo atrás eu vivia sonhando que estava nas dependências da escola onde cursei o ginasial e também ...