segunda-feira, 27 de dezembro de 2010

Rojões não combinam com o Natal

Sou de um tempo em que Natal se comemorava em família, dentro de casa, com a ceia e o almoço entre familiares. Um tempo que ficou bem lá trás, esquecido no tempo.

Lembro bem que a noite de Natal era dedicada à Missa do Galo e à ceia com a família reunida. Minha mãe preparava a leitoa, o frango assado, a maionese, a farofa, o arroz, o virado de feijão e a sobremesa. As castanhas-do-pará, nozes, castanhas portuguesas, avelãs e as frutas ficavam por conta do meu pai.

Tenho gravadas na memória as noites natalinas de minha infância. Geralmente a hora de dormir era bem antes da meia-noite. O silêncio imperava nas ruas, não se ouvia carros buzinando, gente berrando ou rojões, como nos dias de hoje.

A noite de Natal era dedicada à confraternização e ao encontro com familiares que vinham de longe. Não havia essa loucura dos dias de hoje, quando não se tem paz nem mesmo para uma simples troca de presentes, tal o barulho dos fogos e das buzinas.

Talvez os tempos tenham mudado ou eu esteja ficando velho, mas a verdade é que rojões, gritaria e buzinas não combinam com a celebração do nascimento de Jesus. Esse tipo de algazarra, típico da juventude atual, está mais para o Ano Novo, que para mim não tem significado algum, a não ser o fim de um ano e o começo de outro.

Sei que minhas lembranças de um tempo que não volta mais são apenas lembranças, mas como seria bom se o tempo parasse e o relógio retrocedesse para tudo aquilo voltar. Seria bom ver tantas pessoas que já se foram, sentir novamente a ansiedade pela espera para abrir o presente de Natal, acreditar em Papai Noel e olhar no espelho e ver um menino magricela de orelhas grandes.

Mas, como não sou senhor do tempo, é preciso viver o tempo de hoje e me contentar com o que tenho, que não é pouco. Na noite de Natal, deitado em minha cama, tive o prazer de acariciar a cabeça de minha pequena Mariane para protegê-la do barulho dos fogos.


Sentir que aquela pequena criatura confiava no pai para não ter medo do barulho foi o maior presente de Natal que eu poderia ter. Muito mais do que qualquer presente material de grande valor. Ouvi-la perguntar se o barulho já ia acabar preencheu o vazio que meu coração sentia pela falta de meus pais e das noites de Natal de antigamente.

quinta-feira, 23 de dezembro de 2010

Água e capim

Sou de um tempo em que o respeito aos pais era o ponto de partida para a educação dos filhos. Um tempo em que pai e mãe eram figuras imponentes no seio de uma família. Cada um com seu valor dentro da criação dos filhos, mas com o mesmo peso no momento das decisões.

Lembro bem de minha infância e da participação que cada um teve para minha formação. Aquele era um tempo em que, geralmente, só o homem trabalhava, enquanto que para a esposa sobravam os deveres de casa e a criação dos filhos.

Minha mãe tinha seus métodos eficazes para resolver as situações que surgiam, deixando meu pai em paz para que pudesse desenvolver suas atividades como marceneiro. Se algum problema mais grave ficasse pendente, somente após o jantar é que o mesmo seria levado ao seu conhecimento.

Sua forma de agir e pensar sempre colocou em evidência sua inteligência e perspicácia para resolver algum problema ou influenciar nas decisões dentro de casa. Como ela mesma dizia, era preciso usar a cabeça e a psicologia para resolver as mais diversas situações.

Naquele tempo a última palavra era do homem da casa, mas minha mãe sempre conseguia, com sua psicologia, influenciar nas decisões e mudar o rumo das coisas.
Lembro bem como ela foi decisiva para que minha irmã mais velha continuasse seus estudos após o quarto ano primário, ao invés de entrar para um curso de corte e costura, como era desejo de meu pai.

Em minha memória guardo inúmeras passagens de minha infância, dos tempos em que eu era um menino magricela de orelhas grandes. E a presença de minha mãe nessas recordações é forte e reflete sua importância em minha existência. Uma dessas passagens, embora de consequência não muito agradável para mim, ficou gravada em minha memória pela forma como ocorreu.

Lembro bem que, por algum motivo, depois de ter torrado bastante a paciência de minha mãe, ouvi dela que se não sossegasse iria levar um pescoção. Sem saber o que era aquilo, disse a ela que queria saber o significado daquela palavra.

Depois de tanta insistência de minha parte minha mãe me pegou pelo cangote e me aplicou o tal pescoção. Com o joelho ralado, levantei do chão e imediatamente recebi um abraço de minha mãe e começamos a rir da situação.

Daquele dia em diante nunca mais ousei duvidar das coisas que ela dizia, procurando sempre ficar atento ao seu método eficaz de resolver cada problema. Ainda hoje, depois de ter dobrado a curva dos cinqüenta, sempre recordo de como ela agia nas mais diversas situações.

Lembro bem também de como minha mãe cuidava para que minha crença em Papai Noel se mantivesse viva. No dia 24, apesar das tarefas finais na cozinha, ela sempre encontrava um tempinho para cortar o capim que eu colocaria ao lado dos meus sapatos, junto com a vasilha com água.

Segundo ela, se o Papai Noel chegasse em casa e o capim e a vasilha com água não estivessem ao lado dos meus sapatos, seus burrinhos não poderiam se alimentar e matar a sede antes do velhinho seguir sua viagem. Claro que, quando eu acordava e corria para abrir o presente, a água e o capim já haviam sumido, aumentando ainda mais minha crença na existência daquele velhinho de barbas brancas e roupa vermelha.


Talvez seja por isso que até hoje eu goste tanto do Natal e guarde na memória tantas boas recordações. E, claro, já esteja com a vasilha pronta para colocar a água e o capim preparado para que minha pequena Mariane coloque perto de seus sapatinhos, ao pé da árvore de Natal, ávida para abrir seus presentes de Natal.

sexta-feira, 17 de dezembro de 2010

Meu pai

Sou de um tempo em que tudo caminhava de forma mais branda. Um tempo em que não havia essa loucura de hoje.

Um tempo em que se podia andar pelas ruas sem medo de ser atropelado ou assaltado. Tempo em que as pessoas se conheciam mais, valorizavam mais cada minuto vivido.

Lembro bem das noites de dezembro, das lojas com as portas abertas, expondo as novidades de final de ano. Os pais à procura do presente para os filhos. Os filhos, ávidos pela chegada do Natal e do presente tão aguardado.

Meu tempo de criança não foi diferente. Com a chegada do mês de dezembro tudo mudava, parecia que o tempo teimava em caminhar ainda mais devagar. A espera se tornava mais angustiante, mas ao mesmo tempo podia se viver aqueles momentos de forma intensa.

Lembro do meu último presente de criança. Meu pai, que nunca deixou de nos dar um presente no Natal, fazia mistério o tempo todo, não deixava que a gente visse o que era, apenas dizia que era um presente só para os três filhos, aumentando ainda mais a nossa ansiedade e, claro, a curiosidade.

Sempre que a gente perguntava sobre o dito cujo, meu pai, sempre sorridente, nos enchia de curiosidade e ficava feliz como se ele fosse a criança a espera do presente de Natal.
E era com esse espírito de criança que meu pai guardava a surpresa a sete chaves.

Quando tirava da caixa fazia questão de trancar a porta do quarto e somente minha mãe tinha acesso. O máximo que eu minhas irmãs conseguíamos era ouvir o barulho que o misterioso brinquedo fazia.

Com a chegada do dia de Natal a ansiedade tomou conta daquele menino magricela de orelhas grandes. A noite custou a passar e quando o dia amanheceu pudemos finalmente ver o que tinha naquela caixa enorme.

Meu pai, com sua bondade e o coração do tamanho do mundo, havia comprado um jogo eletrônico de futebol, algo raro naqueles tempos, na Casa dos Presentes, e nossa alegria era tanta que dava pra ver seus olhos brilhando de satisfação com a felicidade dos filhos.

Lembro dessa época como forma de reverenciar a figura de meu pai, que apesar das dificuldades que aquela época impunha, nunca nos deixou sem um presente de Natal, sem os chocolates, as castanhas e, principalmente, sem a alegria de se viver em uma família feliz. Um pai que sempre foi um exemplo, rígido, austero, mas que nunca deixou de cuidar de sua família e de todos que o cercavam.

Um pai que Deus levou para junto de si, mas que nos deixou um legado de ensinamentos e um mundo de boas recordações. Recordações que o tempo não apaga e que para sempre estarão presentes em nossas vidas, principalmente nessa época em que ficamos mais sensíveis às emoções.

E, quando se escreve com o coração, as palavras fluem em nossa mente e escorregam para os dedos banhadas pelas lágrimas de saudade que escorrem dos olhos e teimam em turvar a visão. Por isso, a cada lembrança, volto no tempo e revivo cada momento como forma de alegrar meu coração.

terça-feira, 7 de dezembro de 2010

Tenho saudade

Sou de um tempo em que tudo era mais difícil. Um tempo em que, por ser mais difícil, tudo era mais saboroso.

Ao contrário dos dias atuais, naqueles tempos eram poucas as opções em qualquer das situações. Além da pouca variedade, não havia tanta facilidade para se adquirir algo.

Lembro bem de como era gostoso poder saborear um refrigerante ou um chocolate. Apesar das dificuldades que a vida impunha, meus pais nunca deixaram de comprar aquilo que tínhamos vontade.

Apesar das facilidades de hoje tenho saudade daqueles tempos. Tenho saudade de sentir o sabor do guaraná da Itamira, que eu tomava pelo furo na tampo feito por um prego só para que ele durasse mais, ou dos chocolates Sonksen que meus pais compravam no final de ano no Buraco da Onça.

Tenho saudade das noites em saímos para passear e da felicidade que tomava conta de nós quando parávamos na doceria das irmãs Dini, que depois passou a ser Brasília Bar. Posso ver aqueles doces e sentir o sabor de cada um.

Tenho saudade de ir ao Itapira Bar com meu pai após a missa de domingo pela manhã e saborear uma Crush. Ou de ir à praça Bernardino de Campos nas noites de domingo e ver tanta gente sentada nos bancos ou simplesmente passeando.

Tenho saudade de ir à praça ver a fonte luminosa. Saudade de ouvir a banda Lira, naquela época apelidada carinhosamente de Furiosa.

Tenho saudade dos doces de batata-doce que minha mãe fazia e colocava ao sol em uma assadeira para secarem em cima do telhado do rancho de casa. Saudade de subir nesse mesmo telhado e comer esses doces antes mesmo que eles secassem, deixando apenas marcas na assadeira.

Tenho saudade de descer ao quintal de casa para subir na goiabeira. Saudade de ouvir o canto dos canários que minha mãe fazia gosto de ter em casa.

Tenho saudade de atravessar a coloninha e comprar biscoitos e sequilhos no Tico Donatti. Saudade de descer a ladeira São João e ver a represa do ribeirão da Penha e sua água limpa.

Tenho saudade dos meus tempos de infância, quando eu era um menino magricela de orelhas grandes que atravessava o parque Juca Mulato para ir à casa de meus avós paternos na rua João Pereira. Saudade da parreira de uva, do pé de limão galego e do rancho daquela casa que já não existe mais, mas que continua firme e forte em minhas lembranças.

Tenho saudade de chegar à casa de meus avós e ver o presépio enorme que minha avó Leonor montava no chão da sala, ao pé da árvore de Natal enfeitada com bolas enormes. Saudade de sentir o aroma dos assados preparados para o Natal ou Ano Novo, do corre-corre com os preparativos para o almoço natalino.

Tenho saudade de ver a mesa grande repleta de gente, das músicas natalinas e do valor que tudo isso tinha pra todos. Saudade de ser criança e não ter tanto ainda para recordar e sofrer com a falta que tudo isso faz.

Tenho saudade desse tempo que não volta mais. Tempo em que tudo era mais difícil, mas ao mesmo tempo muito melhor e mais valorizado.


Como dói ter tanto para recordar. Mas como é bom ter vivido tudo isso e sentir saudade desse tempo que não volta mais.

quarta-feira, 1 de dezembro de 2010

A menina magricela de orelhas quase grandes

Sou de um tempo em que se dizia ‘cara de um, focinho do outro’ quando duas pessoas se pareciam. Um tempo em que as pessoas se davam mais, se conheciam mais e se valorizavam mais.

Um tempo bem diferente dos dias atuais, mas que me faz lembrar, mesmo que por alguns instantes, meus tempos de infância. Instantes que me fazem retroceder no tempo e ser novamente um menino magricela de orelhas grandes.

Volto no tempo a cada momento que sento para brincar com minha pequena Mariane. A cada gesto dela me é possível fazer uma analogia entre nós. Não que eu tenha pretensão de afirmar que era tão bonito quando criança ou mesmo que ela tenha orelhas grandes como as minhas, mas as semelhanças são muitas entre as duas figuras.

Seu corpinho miúdo, o rostinho afilado e as orelhas destacadas fazem dela um retrato fiel daquele menino canhoto e miudinho. E essa semelhança enche meu coração de alegria e orgulho, principalmente quando a ouço dizer que sou seu ‘amigãozão’ e ela é minha companheirinha.

Olho para ela, com seu jeitinho meigo de cantar ou desenhar e imediatamente retrocedo no tempo. Vejo aqueles olhinhos brilhantes e atentos a tudo e lembro do meu interesse por tudo que era diferente.

E essa relação, que se estreita a cada minuto que passamos sentados frente a frente com as pernas cruzadas, desenhando, cantando ou, como ela mesma diz, conversando, me faz entender o quanto é bom ser pai.

E, mais do que isso, vivenciar tudo isso em sua plenitude. Poder participar de seu desenvolvimento


E é essa criaturinha magricela de orelhas quase grandes que me renova e revigora minhas forças a cada dia. É dela que saem os fluidos que movem meu corpo e minha mente.

terça-feira, 23 de novembro de 2010

Alicerce da vida

Sou de um tempo em que casamento era para a vida toda. Um tempo em que a união de duas pessoas era o alicerce para a construção de um lar e uma família verdadeira. Cresci acreditando nisso e tive como exemplo vivo a vida a dois de meus pais, que por mais de meio século formaram um casal exemplar.

As regras básicas que regem a união perante Deus eram encontradas com facilidade no seio daquela união. Na alegria e na tristeza, na saúde e na doença, e por aí afora. Tudo isso fez parte da vida a dois dessas duas criaturas que me colocaram nesse mundo.

Quando vejo um casal já com os cabelos pintados pelo tempo, a pele marcada pela longevidade e o corpo arcado pelo peso dos anos e das dificuldades por eles imposta vem à minha memória a cena de meus pais sentados na porta de casa, sempre juntos, sempre com algum assunto para conversar. E não tem como segurar as lágrimas e o nó que se instala na garganta.

O tempo é cruel e implacável e nos leva tudo que temos. Somente a lembrança doída, mas ao mesmo tempo gostosa, é que permanece.

E é nesse tempo de aproximação das festas natalinas que essa lembrança fica mais viva. Voltam à tona os tempos felizes em que aquele menino magricela de orelhas grandes ficava com o coraçãozinho repleto de felicidade pela ansiedade que tomava conta na espera pelo Natal.

São tempos que não voltam mais, que guardo em minha memória como cristais indestrutíveis. Capazes de iluminar minhas lembranças e colocar à minha frente cenas que me fazem chorar e rir ao mesmo tempo.

É como se eu pudesse ver o presente atrás da porta, perto dos sapatos colocados na noite anterior junto com o capim e a água para os burrinhos do Papai Noel, como dizia minha mãe.

Relembrar tudo isso, apesar da triste constatação de que não é possível entrar no túnel de tempo e retroceder, revigora minhas forças para a batalha em busca da paz e da felicidade. Busco naquele tempo o que é necessário para seguir em frente no caminho da vida, aplicando na educação de minha pequena Mariane os ensinamentos que tive enquanto criança.

Se um dia Deus me permitir reencontrar meus pais e lhes dirigir algumas palavras, com certeza direi obrigado. Obrigado pela educação que me foi dada, pelo sentimento de respeito pelas pessoas, pelos momentos – e não foram poucos – em que encheram meu coração de alegria.


E, mais que tudo, pedirei perdão. Perdão por não ter feito por eles tudo o que mereciam.

quarta-feira, 10 de novembro de 2010

Vassouradas de cal

Sou de um tempo em que minha família se reunia nas festas de Natal e Ano Novo. Um tempo feliz, em que nos reuníamos na casa de meus avós paternos, no alto da Vila Pereira, bem pertinho do Bairral.

Lembro bem dos afazeres de minha mãe no preparo dos doces nos dias que antecediam as festas de final de ano. O clima natalino, bem mais intenso que nos dias atuais, era algo que encantava e enchia nossos corações de alegria.

A expectativa pela chegada das festas e pela reunião que acontecia para o almoço no rancho, bem ao lado da parreira de uva e do pé de limão galego, aumentava a cada dia. Para nós, crianças, havia também a espera pelos presentes de Natal.

A mesa grande ficava repleta de gente. No Natal, além dos meus avós, meus tios Ivan, José Rubens e Marly e de minha família, vinha também a família de minha tia Lia.

No Ano Novo era a vez da família de tia Shirley marcar presença. Sem contar os vizinhos e parentes mais próximos, que sempre apareciam para os cumprimentos, criando um clima ainda mais gostoso.

Diversos momentos daquela época são avivados em minha memória a cada Natal que chega. A saudade daquele tempo, bem diferente e mais feliz, chega a doer no cerne da alma.

Talvez seja por não ter mais a presença da grande maioria dos personagens que escreveram a história daquele menino magricela de orelhas grandes. Ou, então, por não tem mais o que comemorar, a não ser a presença de minha Mariane, um presente que Deus colocou em minha vida e por quem enfrento qualquer tipo de adversidade.

E, dentre tantas passagens felizes daquele tempo, uma não sai de minha memória. Lembro bem que era Ano Novo e que a casa de meu avô havia passado por uma pintura. No quintal havia uma caixa d’água com os restos da cal que havia sido utilizada na pintura.

Tudo começou após o almoço. Meu pai, meus tios e meu avô João passaram a fazer guerra de água. Lembro da cena do meu tio José Rubens, ainda seminarista, postado em cima do telhado com uma tigela cheia d’água, aguardando a primeira vítima passar por ali.

A brincadeira durou um bom tempo e, para completar a farra, meu avô foi a vítima. Com vassouras embebidas na cal, meu pai e meus tios pintaram meu avô de branco da cabeça aos pés, apesar dos protestos de minha avó, sempre avessa às brincadeiras.

Quando tudo terminou e todos estavam brancos como fantasmas, veio o pior. A guerra de água minou o reservatório da casa e não havia nem uma gota para o banho.

Sem alternativa para resolver o problema o jeito foi procurar uma solução do lado de fora. E o chuveiro do vestiário do velho estádio Chico Vieira, ao lado do parque Juca Mulato, virou a tábua de salvação.

Esse tempo não volta mais, muitos personagens dessa história não estão mais entre nós, mas sinto a presença deles. Ao fechar os olhos posso enxergar o presépio montado na sala, posso ouvir o burburinho das vozes e as músicas natalinas saindo da picape Phillips de minha tia Marly, posso sentir o sabor da comida colocada à mesa e a alegria no semblante de cada um.


Mas, quando abro novamente os olhos tudo isso se dissipa como uma nuvem e a realidade, cruel e implacável, me devolve ao tempo atual. Me sinto órfão, sem forças para prosseguir minha caminhada. Mas basta olhar para minha pequena Mariane, companheirinha de todos os momentos, e minhas forças se renovam.

quarta-feira, 3 de novembro de 2010

Retalhos de bala

Sou de um tempo em que as casas tinham o teto alto e as lâmpadas ficavam penduradas pelo fio de eletricidade. Tempo em que eram poucas as construções em estilo moderno. A maioria delas tinha a mesma aparência e no interior os móveis e utensílios também não primavam pela beleza.

Naquele tempo em que aparelhos de TV eram raridade não havia muito o que se fazer à noite. Em geral as pessoas costumavam sentar-se em cadeiras colocadas na calçada após o jantar e ali ficavam horas colocando os assuntos em dia.

Minha família não era diferente. Minha avó materna, minha mãe e meu pai gostavam de ficar conversando por longas horas, aproveitando a brisa da noite.

Lembro bem que em muitas dessas noites o programa mudava e meus pais acompanhavam minha avó nas visitas que ela fazia a um tio de minha mãe. Eu e minha irmã mais velha também fazíamos parte da comitiva.

José Martellini, cunhado de minha avó, residia na Manoel Pereira em uma casa bem antiga. Acometido por um derrame, sem poder deixar o leito, as poucas visitas que recebia serviam para mudar um pouco a rotina daquele senhor que eu não conheci, embora sempre acompanhasse as ditas visitas.

Lembro que enquanto minha avó e meus pais entravam no quarto para levar um pouco de conforto àquele senhor, eu, um menino magricela de orelhas grandes, e minha irmã Vera, quatro anos mais velha, ficávamos ali naquela sala aguardando pela recompensa por nos comportarmos de forma educada. Ficávamos ali, naquele sofá surrado pelo tempo, imóveis pela ação das sombras que a luz da lâmpada fraca que pendia do teto provocava nos objetos espalhados pela sala.

O tempo se arrastava e a visita durava uma eternidade para aquelas duas crianças. Nossa agonia terminava quando, finalmente, a porta do quarto se abria e, junto com minha avó e meus pais, vinha tia Vicência, irmã de minha avó. Em suas mãos estava o que esperávamos enquanto permanecíamos ali naquela sala.

Cada um de nós recebia uma pelota colorido, formada por retalhos de bala de todas as cores possíveis e imagináveis, produto do que sobrava na fábrica de balas Zanovello.
A mistura de sabores ainda está guardada na minha memória e posso sentir cada um deles a cada lembrança daqueles tempos. Íamos embora para casa, felizes com o presente e, principalmente, por ter cumprido mais uma das visitas àquela casa repleta de sombras e objetos estranhos.

Esse tempo não volta mais, mas a lembrança dele está viva e bem guardada em meu baú de memórias.

quarta-feira, 27 de outubro de 2010

Esse menino vai ser padre

Sou de um tempo em que ter um padre na família era como uma graça recebida dos céus. Cresci acreditando nisso e assim penso até hoje.

Mas naquele tempo essa dádiva era ainda mais valorizada. Afirmo isso com a certeza de quem teve esse privilégio desde que nasceu.

Cresci tendo um tio seminarista, que infelizmente partiu desse mundo pouco tempo depois de sua ordenação. Além de ter inúmeras qualidades como homem, tio Zé Rubens era também meu padrinho.

Quando foi pedida sua presença no andar superior eu não era mais um menino magricela de orelhas grandes. Aos 15 anos já era um adolescente cheio de sonhos.

Lembro bem que, certo dia, com a família ainda vivendo a dor da perda, fui interpelado por minha avó paterna e por uma religiosa que atendia por Irmã Mariana. As duas queriam porque queriam que eu seguisse a carreira sacerdotal como forma de suprir a ausência de meu tio querido. Claro que declinei daquele ‘convite’ por entender que para tanto havia a necessidade da vocação.

Sempre acreditei que a vocação, para qualquer caminho na vida, nasce com a pessoa. E o exemplo maior disso vivia bem próximo.

Afinal, cresci ouvindo que o menino que minha mãe havia amamentado quando eu nasci e que para todos nós era como se fosse da família seria padre. De fato, todos os caminhos levavam meu ‘irmão de leite’ ao sacerdócio.

Sua devoção, seu jeito de ser e pensar indicavam que aquele menino seria um padre. Ele sim tinha vocação, tinha nascido para aquilo.


E assim acabou ocorrendo. O menino, de nome José Eduardo, amamentado por minha mãe, cresceu, ordenou-se padre e hoje, com as barbas brancas apesar de ainda estar na casa dos 50, já completou 25 anos de vida religiosa.

terça-feira, 19 de outubro de 2010

O amigo da onça

Sou de um tempo em que o ensino público superava, de longe, o particular. Ao contrário do que ocorre na atualidade, estudava em escola particular quem era jubilado da escola pública.

Naquele tempo, quem estava prestes a completar sete anos já rumava para os bancos escolares para o aprendizado que nunca mais seria esquecido. Um mundo de letras, números, cores e desenhos, totalmente novo para aquele menino magricela de orelhas grandes.

Lembro bem de minha passagem pelos quatro anos de grupo escolar. A pequena distância entre minha casa e o Júlio Mesquita era cumprida pelo escadão da ladeira São João.

Foram quatro anos de conhecimento para aquele menino sempre atento as novidades. As notas altas no final de cada semestre revelavam que o aprendizado estava sendo absorvido de forma satisfatória.

Algumas passagens ficaram guardadas em um canto do meu baú de memórias. Mas foi um fato ocorrido já no quarto ano do primário que ficou marcado para sempre em minhas recordações. Sempre que vou ao velho Júlio Mesquita para cumprir meu dever de eleitor a cena volta e tudo que ocorreu naquele dia revira minha memória, avivando cada segundo como se tudo estivesse acontecendo novamente.

Apesar de ser um aluno dedicado e sempre tirar notas altas, naquele dia cometi um erro fatal para os moldes rígidos do ensino da época. Um erro que poderia ter sido evitado.

O dever de casa passado pela professora Ivone Pegorari Vieira era escrever uma composição sobre um passeio nas férias. Por algum motivo eu havia esquecido de escrever a composição.

Quando fui escalado para ler meu dever de casa um frio percorreu minha espinha, pois sabia que alguma coisa ruim estava para acontecer. Lembro bem que minha carteira era na primeira fila e do meu lado estava o Lula. Não o presidente, mas o Luís Carlos Santa Luzia.

Quando ouvi meu nome proferido pela professora pensei rápido e abri o caderno em uma folha em branco. Passei a ler uma composição inexistente, deixando minha imaginação fazer o serviço que eu não havia feito em casa.

Talvez meu senso jornalístico já estivesse presente e minha interpretação corria da melhor maneira possível, até ser delatado pelo colega de carteira. ‘Professora, não tem nada escrito no caderno dele’, disse o amigo da onça.

Aquela frase gelou minha alma e temi pelo pior. E ele veio de uma forma cruel. Depois de constatar que eu havia tentado burlar as regras inventando uma composição de cabeça, a professora reagiu prontamente e aquela mão veio como um bólido em minha direção.

Imediatamente senti a dor do tapa no lado direito do rosto. Mas senti muito mais a vergonha que passei pelo duro castigo que me foi imposto.

Quase cinco décadas depois ainda consigo ver tudo aquilo novamente. São fatos que teimam em retornar a cada lembrança dos meus tempos de Júlio Mesquita.


Fatos que ficaram gravados na memória daquele menino magricela de orelhas grandes. E a lembrança deles dói tanto quanto o tapa que deixou meu rosto marcado pela força daquela mão impiedosa.

quarta-feira, 13 de outubro de 2010

Brincar de cor

Sou de um tempo em que um simples brinquedo de madeira ou plástico já fazia uma criança feliz. Um tempo em que jogos eletrônicos, videogames e outras parafernálias eram apenas projetos futuros.

Lembro bem de muitos brinquedos que tive. Cada um com sua peculiaridade.

Mas, nem sempre eram os carrinhos, jogos ou mesmo a bola que atraíam aquele menino magricela de orelhas grandes. Muitas vezes, olhar pela janela do banheiro de casa e ver as casas que compunham o cenário à minha frente era uma atividade mais atraente.

Pode parecer um tanto quanto estranho uma criança gostar de ver casas e suas diversas cores, mas talvez pode sido ali, naquela janela, que minha predileção por números e estatísticas tenha começado. Ficava ali, olhando aquelas casas no Cubatão, contando quantas eram amarelas, quantas tinham a parede pintada em azul, verde ou outra cor qualquer .

Invariavelmente a brincadeira de contar as casas de cada cor era sempre feita a dois. Minha mãe, com paciência de Jó, estava sempre pronta para me fazer companhia.

E, brincar de cor talvez seja hereditário. Depois de tantos anos, com os cabelos já pintados pelo tempo, minha relação com as cores continua, mas de uma forma totalmente diferente.

Minha tarefa agora é árdua, parecida com aquela que minha mãe realizava, mas muito prazerosa. A cada convite da Mariane, minha pequena de quase dois anos, para brincar em seu quarto, já sei que vou viajar no tempo e vislumbrar aquelas casinhas e suas cores que me fascinavam.

Na sua simplicidade de criança, chamar o pai para brincar de cor é sua diversão preferida. Passo horas sentado no tapete com seus lápis coloridos e a cada resposta correta sobre a cor do lápis em minha mão é um prêmio para quem já imaginava passar pela vida sem ter o privilégio de ser pai.

Vê-la se ocupando com as cores é um bálsamo que cura qualquer ferida aberta pela ação do tempo. Ficar ali, sentado ao seu lado, ao contrário de ser um incômodo para o esqueleto de quem já fez a curva dos 50, é uma viagem até a janela do banheiro de minha casa na Comendador João Cintra.


Olhando para aquela garotinha compenetrada acabo enxergando um garotinho com os olhinhos buscando cores e mais cores entre as casinhas no longínquo alto do Cubatão, pertinho da mata que existia onde hoje está o Cemitério da Paz. Segundo minha mãe, era lá naquela mata que os urubus pousavam para descansar.

A quarta série ginasial

Faz tempo que isso não ocorre, mas um tempo atrás eu vivia sonhando que estava nas dependências da escola onde cursei o ginasial e também ...