terça-feira, 5 de março de 2019

A casa 41


Certas passagens marcam nossa existência e permanecem como lembranças intactas, guardadas em um baú de memórias instalado em um canto qualquer do coração. São pessoas, lugares, momentos que são eternizados e, vez ou outra, reaparecem de forma fugaz na nossa mente.
Minha infância foi permeada por momentos e pessoas como a de qualquer outro ser humano. E tantas passagens foram vividas em uma certa casa de número 41 que ficava na Rua João Pereira, a rua abaixo do Bairral e bem perto do Parque Juca Mulato e do antigo estádio Chico Vieira.
Foi ali, na casa dos meus avós paternos, que vivi muitos desses momentos. Era lá que eu passava quase todos os finais de semana, as festas de Natal, Ano Novo, Páscoa, além da festa junina que sempre acontecia no dia de São João, que também marcava o aniversário do meu avô João Butti.
Aos domingos era comum meu pai atravessar o parque, subindo pela Ladeira São João, passar a Avenida dos Biris até alcançar a passagem que existia para a João Pereira, na altura de onde hoje está o PPA Central na Rua Bentico Pereira. Do seu lado a Vera, minha irmã mais velha, e eu.
Nos dias de festa, como Natal, Páscoa e Ano Novo, minha mãe já subia durante a semana para ajudar no preparo das comidas e dos doces. E quando chegava o momento de sentar à mesa a casa estava cheia.
A mesa do rancho era grande, abrigava pelo menos 20 pessoas e nem sempre cabia todo mundo. Muitas vezes outra mesa era colocada para as crianças para que todos se acomodassem.
Foi um tempo feliz, que produziu muitas lembranças, a maioria delas alegre. Um tempo que faz falta nos dias de hoje.
Daquela casa lembro cada detalhe. Do portão de entrada, das flores do jardim antes da pequena área, da sala onde ficava o sofá e a TV e onde minha avó Leonor armava a enorme árvore de Natal, dos dois quartos do lado direito e o do lado esquerdo onde dormia meu tio Ivan, depois tinha a cozinha e lá fora, do lado direito o banheiro e do outro o rancho com o fogão à lenha no fundo.
Mas também tinha o quintal onde ficava a parreira de uva e mais acima os pés de limão galego e figo. Lá no final um galinheiro desativado que servia para meu avô guardar as tralhas dele.
A casa não existe mais, foi demolida e no lugar construída uma nova. Mas, se não existe fisicamente, continua em pé nas minhas lembranças de criança e é lá que ficará até que um dia eu também vá para o andar de cima depois de cumprir minha etapa nessa vida.

A banda do Toninho


Em 1974, prestes a completar 17 anos, minha vida profissional mudou radicalmente. Ao ser aprovado no concurso para trabalhar no escritório da Usina Nossa Senhora Aparecida, passaria a fazer parte do quadro de funcionários de uma das maiores empresas da cidade naquela época.
De aprendiz no escritório de contabilidade Furiatti, meu primeiro emprego, passei a trabalhar no setor de contabilidade da empresa, mesmo não tendo ainda completado 18 anos. Apesar de ser menor de idade, pelo meu aproveitamento no concurso acabei sendo contratado.
Lembro bem como era o ambiente, cada mesa e cada funcionário. O setor contábil funcionava na parte de cima do prédio, no nível da rua, na parte de baixo ficava o setor de recursos humanos e o balcão onde era efetuado o pagamento aos cortadores de cana em época de safra.
Contíguo ao escritório ficava o local destinado à diretoria. Na primeira mesa, de costas para a porta que dava acesso à sala dos diretores, sentava o doutor Murillo Arruda. Atrás dele a enorme máquina de xerox.
Na mesa seguinte, ocupando uma posição estratégica, de costas para as janelas e de frente para todos os subordinados, sentava o contado Osvaldo Pellegrini. Era um senhor do tipo bonachão, sisudo às vezes, mas que tinha bom coração.
Lembro que quando voltava do almoço no caminho da praça até a usina já ia cochilando no ônibus. E o cochilo continuava nas primeiras horas da tarde, fato que provocava risos em todos.
Nas outras mesas, dispostas em duas fileiras, sentávamos nós, simples mortais. Na primeira fila, perto da janela, ficava o Wilson Foraciepe, depois tinha a minha mesa e na mesa de trás o Adolfo Tagliatti.
A outra fileira, com quatro mesas, abrigava o Irineu Puggina, responsável pelos pagamentos, o Idair Giovelli, o Joãozinho Pereira e na última, de costas para a porta de acesso ao andar de baixo, o Toninho Franco, também conhecido como Toninho Carregador. Cada um com sua função específica para o bom andamento do trabalho.
Nosso período de trabalho incluía o sábado pela manhã. E foi numa manhã de sábado que tudo aconteceu.
Era época de safra e o campo da usina, pela proximidade com o escritório, ficava abarrotado de cortadores de cana aguardando o momento de receber a paga pelo trabalho semanal. Costumávamos falar que mais parecia dia de clássico no Morumbi, tal a quantidade de pessoas.
Talvez para matar o tempo e não dar a tradicional cochilada, o ‘seo’ Osvaldo desceu a escada e foi dar uma espiada no movimento. Imediatamente, como era de costume, o Toninho iniciou sua sessão de humor.
Sentado de costas para a tal porta, ergueu o braço direito, ainda segurando a caneta com que fazia as anotações referentes aos caminhões que transportavam a cana da roça para a moenda, e iniciou a imitação de uma banda.
Ele era tão engraçado que todos nós paramos o que estávamos fazendo e ficamos olhando para trás para ver sua performance. Animado com a plateia, Toninho continuou com a imitação e não percebeu que atrás dele, parado na porta, estava justamente o ‘seo’ Osvaldo.
Todos nós passamos a rir da situação e ele, achando que ríamos dele, continuou com a brincadeira até que o homem tossiu propositadamente atrás dele. Atônito e sem saber o que fazer, Toninho baixou a mão e mesmo imitando a tuba da banda, continuou escrevendo.
A cena foi hilária e até mesmo o contador riu da situação. Essa cena permanece na minha memória até hoje e cada vez que vejo o Toninho lembro de tudo, como se fosse hoje.

A arte de fotografar, o dever de preservar


O ângulo nem sempre era favorável, mas eles sempre deram um jeito de buscar a melhor imagem para retratar um simples momento, uma pessoa ou um gesto. Muitas vezes nem imaginavam que aquele simples apertar de botão na máquina fotográfica fosse eternizar aquele instante.
Ser fotógrafo, como muitas outras profissões, faz do profissional um verdadeiro artista. Mesmo sem o uso de pincéis, tintas e cavaletes, sua obra é sempre digna de ser vista inúmeras vezes e, a cada olhar, um novo detalhe é destacado.
Conheci vários desses profissionais ao longo dessa caminhada por aqui. Com alguns cheguei a trabalhar e acompanhar o quanto é importante o resultado final de sua capacidade em perceber o melhor momento para disparar sua câmera.
Artistas como Paulino Santiago, Orlando Cestaro, Armando Mantuan, Nagayuki Suzuki e, mais tarde, Benedito Castro, André Santiago, Léo Santos e Zalberto Silva, entre outros, contribuem para enriquecer o acervo histórico da cidade e seus personagens.
A eles juntam-se os aficionados pela fotografia e que também colaboram para eternizar momentos e pessoas. Entre eles estão o inesquecível Nouman Sabbag, que deixou um legado rico em se tratando da história que o acolheu e adotou como filho, e o Luiz Antonio da Fonseca, o Toy, que por onde anda carrega sua inseparável câmera.
Para quem não viveu os tempos de outrora, as fotos oferecem uma oportunidade única de conhecerem lugares que já não têm a mesma magia, como a Avenida dos Biris, por exemplo, ou entender um pouco mais da história da cidade, construída lá atrás por pessoas de bem e que já subiram para o andar superior.
Pena que muitas fotos se perderam ao longo do tempo. Algumas pela ação do próprio tempo, outras pela incapacidade de pessoas em preservar ou dar valor a uma simples foto, que tempos depois viraria uma relíquia e até mesmo um documento histórico.
Fotografar, registrar, preservar a história de um povo. Se todos nós tivéssemos consciência da importância disso tudo, talvez nosso futuro fosse mais promissor, pois é no passado que buscamos as orientações para que no presente possamos firmar as bases que o futuro requer.


62, 70, 94, 2002...


Em 1958, embora eu já tivesse nascido, não teria como viver as emoções da conquista do título mundial. Tinha apenas um ano e era novo demais para comemorar alguma coisa.
Em 1962, com cinco anos, lembro apenas da final entre Brasil e Tchecoslováquia. Ouvi o jogo sentado na calçada do outro lado da rua, em frente onde foi a alfaiataria do Hélio Sígolo por muito tempo, no rádio Hitachi do meu pai.
O tricampeonato conquistado em 70 foi um marco na minha vida. Eu tinha 13 anos e vi as partidas pela TV.
Lembro que minha casa estava em reforma e meus pais, minhas irmãs e eu ficamos morando no cômodo da frente, onde antes era um depósito do Buraco da Onça e, depois da reforma, virou a garagem e o abrigo de casa. Ali vi todos os jogos, todas as vitórias e vibrei com a conquista do título por Pelé e companhia.
Vinte e quatro anos se passaram até a conquista do tetra em 94 nos gramados norte-americanos. Mas, as cinco copas entre uma conquista e outra foram intensamente vividas por mim, cada uma com suas peculiaridades.
O penta, em 2002, vi em Mogi Mirim, onde morei por 10 anos. Vibrei com os gols de Ronaldo e as jogadas de Rivaldo, um craque que vi chegar no Mogi Mirim e acompanhei até alcançar o sucesso na Espanha, primeiro no La Coruña e depois no Barcelona.
Mas, apesar de não ter visto a Copa de 58, talvez tenha sido aquela que gostaria de ter visto. Sou saudosista e com certeza a década de 50 é aquela que eu gostaria de ter vivido.
Tenho certeza que foi um tempo repleto de romantismo, de pessoas de bem. Um tempo em que havia mais interação entre as pessoas, mais respeito e, principalmente, mais valorização do ser humano.
Não vivi aquele tempo, não comemorei o título de 58, não vi Bellini erguer a taça. Mas quando o capitão foi embora desse mundo e o cortejo parou em frente a casa onde seus pais residiam, na José Bonifácio, onde hoje está a Relojoaria Lalo, algo me tocou e pude me sentir como se estivesse retroagido no tempo e preenchido essa lacuna que sempre senti.
Talvez eu trocasse todas as emoções sentidas nos quatro títulos seguintes pela chance de ter visto e me emocionado com aquele momento único. Esse talvez seja o motivo principal de minhas constantes pesquisas sobre aquela Copa disputada em gramados suecos.

sábado, 13 de janeiro de 2018

Um urubu na minha vida

Trilhar os caminhos dessa vida fica mais suave quando temos pessoas que marcam nossa caminhada. Parece que a alegria que exalam deixa mais leve nossas passadas.
Comigo não foi diferente, muitos amigos foram fundamentais para que cada obstáculo fosse transposto com mais facilidade. Em cada fase da vida sempre tive uma mão amiga estendida em minha direção.
E um desses amigos guardo até hoje no meu baú de memórias, em um lugar especial e reservado para pessoas especiais. E dele guardo muitas lembranças boas.
Mauro Gomes Ferreira, que eu chamava de Urubu por causa de sua pele queimada de sol, foi um desses amigos que podemos classificar como verdadeiros. Se eu o chamava de Urubu, em contrapartida, pela minha dificuldade de enxergar de longe, ele me chamava de Corujinha.
No início da década de 80 tive o privilégio de trabalhar como recenseador na contagem dos habitantes feita pelo IBGE (Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística). Como havia passado em primeiro lugar na prova, pude escolher o bairro que iria atuar.
Escolhi a Vila Bazani, por ser um bairro que eu gostava e por ser populosa, oferecendo assim um ganho maior. Como também havia passado na prova, o Mauro ficou com aquela parte alta da Vila Ilze, que outrora era conhecida como Risca Faca.
Fizemos um acordo para efetuar o serviço com mais tranquilidade e, assim, durante a semana o Mauro subia para a Vila Bazani para me auxiliar e, nos finais de semana lá eu rumava pro Risca pra dar uma mão pra ele.
Lembro que quando passava das quatro da tarde e eu estava no interior de alguma residência do meu setor, ouvia o assobio característico dele, avisando que estava na área. Como era professor de Educação Física, era preciso cumprir sua carga de aulas para só depois iniciar o trabalho no censo.
Mauro era de casa e eu também frequentava a casa dele, sempre bem recebido pela Zezé, sua esposa, e pelos filhos Luciana e Rafael. Lembro que muitas vezes saíamos para levar os dois pequenos passearem e, enquanto ele levava a Luciana nos ombros, eu fazia o mesmo com o Rafael.
Aos sábados pela manhã era comum a gente se encontrar na loja Bi Esportes, do Bi Sartorato, e dali, muitas vezes, descíamos até a casa do Bi, no bairro do Cubatão para um churrasco. E era sempre o Mauro o responsável pela churrasqueira.
Maurinho foi embora em janeiro de 2012 e eu não tive coragem de ir dar um último adeus àquele amigo. Preferi guardar na memória seu jeito alegre, brincalhão e diferenciado.

Um dia, quando chegar minha hora de embarcar no trem para o desconhecido, quando lá chegar, com certeza o Urubu estará lá me esperando para dar as boas vindas.

terça-feira, 23 de setembro de 2014

Os embalos de domingo na discoteca do Centrão

Quem nunca frequentou a discoteca do Centrão que levante a mão. Se essa pesquisa for feita entre aqueles que nasceram nas décadas de 50, 60, 70 e 80, vai ser difícil encontrar alguém com as mãos para o alto.

Eu vivi esse tempo mágico. Frequentei a discoteca do Centrão em diversas épocas e não há como negar que foram anos dourados em minha vida.

Como era bom esperar pelo domingo a noite e viver aquelas horas contagiantes. Ouvir músicas da melhor qualidade, músicas de verdade, bem diferentes da porcaria que se ouve ou se é obrigado a ouvir nos dias atuais.

Aquele foi um tempo mágico, principalmente para quem fez do Centrão seu lazer das noites de domingo. Eu vivi tudo isso em três épocas distintas, no início dos anos 80, no final da mesma década e, depois, no princípio dos anos 90.

Não há como deixar esquecidos em um canto da memória tempos tão felizes e momentos tão mágicos. Como era gostoso ficar ali, ouvindo os hits do momento que eram tocados, um a um, pelo trio formado pelos irmãos Zé e Paulinho Labegalini e pelo Luisão, que comandava a festa.

Um tempo mágico que não volta mais, mas que ficou guardado na memória de quem teve a oportunidade de viver toda essa magia. Quantos casamentos começaram ali, naquele lugar mágico, cheio de luzes e som.

Guardo na memória os amigos de cada época de minha passagem pela discoteca do Centrão. Muitos deles presentes nas três fases, como o Rochinha e o Rosinha, amigos inseparáveis e apreciadores de tudo que é bom.

Como seria bom poder voltar àquele tempo. Chegar na porta do Centrão e ver a Idalina ali, parada, aguardando para conferir a carteirinha de cada um ou encontrar o ‘seo’ Paulinho Luvizetto, uma lenda viva na história do Centrão.

Daria tudo para sentir novamente a magia daquele lugar. Encostar no balcão do bar, ao lado do Ronalde Soares, do Di Canguru, do Bolão, do Dênis Rocha e de tantos amigos que ficaram pelo caminho ou sumiram por esse mundo afora.

Como seria bom reviver aquele tempo. Um tempo em que a noite do domingo era reservada para a discoteca do Centrão. Tenho guardada na mente as músicas verdadeiras de discoteca e o ambiente sadio e saudável.

Sou desse tempo. Um tempo em que ter um som no carro era equipar o mesmo com um tape TKR ou Road Star, que eram o que havia de melhor. Muito diferente de hoje, tempos em que quem equipa o carro coloca o som do lado de fora e sai pelas ruas com o volume aos berros, evidenciando o mau gosto musical do proprietário do veículo, sem ser molestado pelos homens de farda.

Às vezes, quando o sono vai embora e os olhos secam, me pego divagando por esse tempo, que marcou a vida de quem teve o privilégio de vivê-lo, e que me traz nostalgia, saudade e prazer, principalmente prazer de ter vivenciado tudo isso. Sinto que minha cabeça roda no embalo das músicas e das luzes. Meu pensamento voa velozmente e, como se penetrasse em um túnel do tempo, me remete aos bons tempos dos embalos de domingo.

Sou um saudosista inveterado, gosto de relembrar bons momentos de minha vida e dividir tudo isso com quem teve a oportunidade de viver todos aqueles momentos. Às vezes, em meio aos meus devaneios, chego a pensar se existe alguém que, como eu, derrube lágrimas de saudade desse tempo que não volta mais.

O Centrão fez e faz parte da vida de milhares de pessoas. Marcou a adolescência, a juventude e a vida de quem freqüentou suas discotecas.


Não vou me esquecer nunca desse tempo mágico, das músicas que até hoje curto e tenho orgulho de dizer que são as minhas prediletas ou de tantos momentos inesquecíveis. E tenho plena certeza que quem pisou naquele lugar vai relembrar de cada segundo vivido ali.

Os anos dourados do ginásio

Quando se é criança o tempo custa a passar e tudo parece caminhar de forma lenta. Nossos sonhos se tornam quase impossíveis e tudo que queremos é que o tempo voe e a hora de realizá-los chegue logo.

No meu tempo de criança era assim. Tudo que eu sonhava era completar o grupo escolar e ingressar no tão famoso ginásio. Para as crianças da minha época, estudar no ginásio significava um passo muito grande a frente, a transposição da fase de criança para a adolescência.

Mal sabia eu que o tempo seria implacável e que um dia cobraria toda essa pressa. Se eu soubesse que quando o tempo chegasse e pintasse meus cabelos de cinza eu teria essa saudade toda do meu tempo de criança, acredito que daria tudo para ele parar e me deixar criança para sempre.

O ano era 1967. Eu cursava o quarto ano do Grupo Escolar Dr. Júlio Mesquita, que ficava um pulinho da minha casa. Bastava subir o escadão da Ladeira São João e lá estava eu na porta da escola.

Essa familiaridade toda me dava a segurança que toda criança busca quando sai debaixo da saia da mãe. Mas minha ansiedade em ingressar no ginásio era tão grande que eu não via a hora disso acontecer.

Lembro que, apesar de ainda ser um menino de nove para 10 anos, tinha consciência do que me esperava no final do ano. Sabia que para entrar no ginásio precisaria passar pelo exame de admissão, um verdadeiro vestibular tal a disputa pelas vagas no Instituto de Educação Estadual Elvira Santos Oliveira.

Naquele ano, quando eu estava prestes a completar 10 anos, o Sérgio Venturini, um amigo de infância que conservo até hoje e que já estava no IEEESO, me convidou pra ver a final do Interno de Futebol da escola. Topei na hora, afinal iria entrar pela primeira vez naquele local sagrado.

Lembro que os campeonatos realizados pelo professor José Barretto eram famosos, pois toda criança que gostava de futebol aguardava pela chance de disputar um campeonato organizado, coisa rara naquela época em se tratando de torneios para garotos de minha idade. O professor Barretto, que naquela época já era uma verdadeira lenda para todos nós, tal o respeito que angariava perante todos, realizava a competição logo no início do ano letivo e, mais tarde, fiquei sabendo que tinha muito aluno que iniciava o ano escolar, disputava o campeonato e depois desistia de estudar, só para voltar no ano seguinte e participar novamente da competição.

Quando chegou o tão aguardado dia da decisão, fui para o IEEESO junto com o Sérgio e fiquei no barranco, lotado de alunos e visitantes, aguardando a disputa. Lembro que o time dele tinha o Paulo Pedro como capitão e o time adversário era comandado pelo Uka Sartori, que não participou da final por estar suspenso na escola, dando vez a um rapaz gorduchinho, de face corada, que era ninguém menos que o Luiz Arnaldo Alves de Lima.

O jogo terminou com o placar de 7 a 3 para o time do Paulo Pedro, que já era um adolescente de 14 ou 15 anos, pronto para fazer carreira no futebol como realmente acabou acontecendo e só ele fez quatro gols. Aquela tarde marcou minha vida porque foi a primeira vez que pisei na escola com a qual sonho até hoje, mais de quatro décadas depois.

No ano seguinte, depois de passar com sobras pelo exame de admissão, tive a oportunidade de, já como aluno do ginásio, disputar por quatro anos o famoso campeonato interno de futebol da escola. Não tive a sorte de cair em times de qualidade e nunca passei da primeira fase da competição, mas pude sentir o prazer de jogar naquele campo, que sempre ficava rodeado de alunos e visitantes e até ser convocado para a seleção da escola, que treinada pelo Clóvis Avancini, o Ná, faria história como um dos grandes times infantis formados na cidade, com participação no campeonato colegial do estado.

Aquele era um tempo diferente, um tempo em que os alunos respeitavam os professores e valorizavam os ensinamentos que recebiam. Lembro que havia um respeito muito grande por todos que exerciam suas funções na escola, como os inspetores de alunos, por exemplo. Bastava olhar para o Luiz Leme, o Luizão Xerife, com seu semblante sério e o aluno já sabia que algo de errado estava cometendo.

Vivi aquele tempo mágico e sou grato por isso. Guardo na memória cada momento que ele me proporcionou e cada vez que tenho a oportunidade de visitar aquela escola todas essas lembranças voltam e me emocionam.


Ver a fanfarra de ex-alunos desfilando e ouvir seu toque irretocável tem o mesmo efeito, pois me remete a tantos e tantos momentos inesquecíveis que vivi em minha passagem por aquele estabelecimento de ensino. Momentos que o tempo, apesar de já ter pintado meus cabelos de cinza, não consegue apagar. 

Chopão, um dos pontos de encontro na década de 70

Quem viveu aquela época com certeza curtiu muito e irá relembrar. Quem não teve a mesma sorte, pelo menos, terá a oportunidade de entender um pouco da magia que envolvia a juventude na década de 70.

No final de 74, em meio às comemorações do Natal e a preparação para a chegada de um novo ano, a cidade viveu momentos de glória com a inauguração de uma de suas mais tradicionais casas de entretenimento. Idealizado para ser um ponto de encontro das famílias, o Chopão acabou virando um dos locais preferidos dos jovens de então.

Vivi intensamente essa época de ouro e lembro bem da inauguração da casa. Uma festa concorrida e regada a muito chopp Brahma, oferecido pelos proprietários.

O Chopão, instalado no local onde hoje está a Montreal, bem defronte a antiga e de saudosa memória fonte luminosa, nasceu sob a estigma do sucesso e essa aura perdurou por um bom tempo. 
Diferente de tudo que havia por aqui, com suas mesas ao ar livre, protegidas por guarda-sóis, o Chopão era tudo que os jovens da época queriam, pois oferecia aquilo que todos chamavam de liberdade para se viver intensamente.

Ainda posso ver, em lampejos de memória, o movimento dos carros na praça Bernardino de Campos, que naquela época tinha o tráfego de veículos no sentido inverso ao atual. Ou seja, os carros faziam o trajeto de baixo para cima, passando primeiro pela parte inferior da praça e depois pelo setor de cima.

Naquela época os jovens se reuniam na praça central da cidade e não em postos de combustível, ao longo de avenidas ou na porta de concessionárias de veículos. E, aqueles que consumiam bebidas alcoólicas, utilizavam as mesas dos bares e lanchonetes e não as ruas, e nem atiravam os vasilhames nos locais públicos, prática tão comum nos dias atuais.

Os que tinham carro e dotavam o mesmo de equipamentos de som, optavam por tapes Road Star ou TKR, que eram o que havia de melhor, além de colocar potentes falantes e twitters Selenium, mas tudo dentro do carro. Muito diferente de hoje, tempos em que quem equipa o carro coloca o som do lado de fora e sai pelas ruas com o volume aos berros, evidenciando o mau gosto musical do proprietário do veículo.

Às vezes, quando o sono vai embora e os olhos secam, me pego divagando por esse tempo, que marcou a vida de quem teve o privilégio de vivê-lo, e que me traz nostalgia, saudade e prazer, principalmente prazer de ter vivenciado tudo isso.

A inauguração do Chopão, de propriedade do Sebastião Pompeo, o Dinho, e seus sócios, se deu no final de dezembro e foi bastante concorrida. Lembro que foi uma noite memorável para a cidade, que ganhava um novo ponto de encontro que, junto com o Bar do Edifício, passaria a receber a nata da sociedade e completaria o ciclo que tinha em seu centro o Clube XV de Novembro.

A praça era frequentada, tinha vida própria e inúmeros bares e restaurantes. Além do Bar do Edifício e do Chopão, contava também com o Bar Central, o Cine Bar e o Bar do Odilon, além do Itapira Bar, que estava mudando de mãos e passaria a ser conhecido como Sobradão.


Esse é um tempo que já vai longe, há 40 anos, mas que permanece vivo na memória de quem o viveu. Um tempo diferente e que não volta nunca mais, mas quem teve a felicidade de viver aquele período vai guardá-lo para sempre na memória e no coração.  

segunda-feira, 22 de setembro de 2014

O menino que costurava bolas

Sou de um tempo em que as dificuldades impostas pela vida assolavam grande parte das famílias. O sustento da família geralmente era de responsabilidade do homem da casa e os filhos, muitas vezes ainda crianças, eram colocados no mercado de trabalho para reforçar o orçamento.

Naquele tempo, quando eu ainda um menino magricela de orelhas grandes, com oito para nove anos, havia um garoto, um pouco mais velho, que retratava bem esse quadro. Embora ainda um menino, com sonhos de criança, não media esforços para auxiliar no sustento da casa.

Não o conheci daquele tempo, mas sei que sua tarefa era árdua. Dividia seu tempo entre a escola, as brincadeiras com os meninos da vizinhança, nas proximidades de sua casa, ali na Visconde de Cairú, no início da Vila Bazani, e a tarefa de costurar bolas de capotão.

Não era uma tarefa fácil, mas era a maneira que ele encontrou para ajudar seu pai, o ‘seo’ Benedito, no sustento da casa. Além disso, costurando as bolas para a fábrica Decar, de propriedade dos irmãos Décio e Carlito Nogueira, que ficava na esquina da João de Moraes com a Regente Feijó, embaixo do casarão dos Nogueira, conseguia o suficiente para o cinema do final de semana.

E era essa sua vida. Costurar bolas de capotão e sair para entregá-las na fábrica. Em uma das mãos o saco de bolas, na outra a mala de roupas que sua mãe, a dona Natalina, lavava pra fora e que ele entregava na casa do doutor José de Mello.

No caminho entre sua casa e o destino, havia sempre um tempo para passar em frente aos três cinemas da cidade. Na descida o primeiro era o Cine Teatro Américo Bairral.
Em seguida uma passadinha nos outros dois, que ficavam na praça central. Ali conferia os filmes que estariam em cartaz no Cine Rádio e no Cine Paratodos para, só depois, escolher a fita que veria no sábado, pois sabia que o dinheiro daria apenas para uma sessão.

Era um tempo difícil, mas aquele menino, talvez tão magricela quanto eu, era feliz com a única diversão semanal que tinha, pois sabia que em primeiro lugar vinha sua família. Ver os cartazes e escolher qual filme iria ver no sábado já bastava.

Mais tarde, já aos 14 anos, sua habilidade para costurar bolas foi reconhecida e aquele menino acabou contratado pela própria Decar, então instalada na Major David Pereira, e já de propriedade do Paulo Pereira da Silva e do Aloísio Victor dos Santos, como um funcionário da casa. Ali começava sua carreira como empreendedor.

Conheci esse menino bem mais tarde, quando já era homem feito e de barba na cara. Fui conhecê-lo já como empresário de sucesso, mas nem por isso acomodado.

Hoje, depois de tantos anos, vejo minha filha, que por sinal faz aniversário no mesmo dia que ele, chamá-lo carinhosamente pelo apelido que acabou virando sua marca registrada. Ouvi-la chamando-o por Mestre me faz entender que nenhuma luta é por acaso.


Daí, volto no tempo e entendo que perdi muito em não ter conhecido aquele menino que costurava bolas. Talvez, se tivesse visto de perto sua luta, poderia ter aprendido um pouco mais com a vida.

domingo, 27 de julho de 2014

Passadas largas

Sou de um tempo em que a palavra do pai era lei. E ai de quem ousasse não cumprir.

Lembro bem que tinha meus 13 anos, frequentava a terceira série ginasial e, apesar das boas notas que sempre tirei, vez por outra saía da linha e me dispersava, talvez por conta da adolescência.  E essa desviada pelos caminhos da brincadeira acabou por levar meu pai, após uma daquelas reuniões de pais e mestres, a dar a ordem expressa: ‘a partir de amanhã você vai sentar na frente do Gildo Piardi’.

A ordem foi cumprida e no dia seguinte lá estava eu, sentado na frente do Girdão, como a gente chamava aquele rapaz espigado, de cabelos loiros e encaracolados. Ele era dois ou três anos mais velho que eu e, junto com o irmão Miltinho, havia entrado na turma naquele ano.

Claro que meu comportamento mudou, passei a me comportar, mais por medo da bronca que poderia levar em casa, mas a influência do novo vizinho de classe também foi determinante. Aos poucos fui conhecendo sua determinação e sua perseguição pelo perfeccionismo.

Nas aulas de Educação Física era sempre um dos mais afiados e sua performance o levou a integrar o time de frente do atletismo da escola, comandado pelo eterno professor Barretto. Quando tinha uma prova de mil metros, tradicional naqueles tempos, a história era sempre a mesma, com ele chegando sempre na frente.

Lembro bem de sua estratégia de corrida. Largava sem pressa, ficava lá em último na primeira volta e, aos poucos, com passadas largas e determinantes, ia ‘jantando’ os concorrentes, como costumava falar.

Fora da escola sua forma de agir era a mesma. Não admitia perder e, se preciso fosse, acabava com a brincadeira antes de sair perdedor.

Lembro de um campeonato de botão que organizamos em sua casa na época da Copa de 70. Éramos 16 jogadores, 15 da nossa classe do IEEESO mais o Humberto, o mais novo dos Piardi, cada um com uma seleção e a competição seguiria os mesmos moldes da Copa, com a mesma tabela.

Meu time, por sorteio, era o Brasil. Lembro que o Luís Paulo Souza Ferreira jogava com a Tchecolosváquia e o Girdão era a Inglaterra e ambos estavam na mesma chave que eu.

Depois do primeiro jogo com o Luís Paulo, que terminou empatado em 4 a 4, eu teria que enfrentar o ‘poderoso’ Girdão. Depois de um começo equilibrado comecei a abrir vantagem e não deu outra. Vendo que iria perder ele deu um jeito de acabar com o jogo e com o torneio.

Essa estratégia também permeou sua caminhada por esse mundo. O perfeccionismo pontuou sua passagem por essas bandas e o tornou um vencedor em todos os setores.

Foi campeão brasileiro e sulamericano, brilhou nas pistas e construiu sua existência dando exemplos a cada passada larga. E assim foi até o ocaso precoce de sua existência.


Afinal, não foi ele que perdeu a vida apesar da batalha que travou contra um mal implacável. Foi a vida que perdeu um grande homem, que deixa uma trajetória de brilho e de ensinamentos aos que o conheceram e aprenderam, como eu, a admirar aquele rapaz espigado de cabelos encaracolados e com mania de perfeição. 

domingo, 20 de abril de 2014

Pequenos gestos

Sou de um tempo em que pequenos gestos eram mais valorizados. Um tempo em que as pessoas eram muito, mas muito mais felizes, porque sabiam o verdadeiro significado dos sentimentos verdadeiros.

Já tive muitos domingos de Páscoa. Uns inesquecíveis, outros comuns.

Quando eu era um menino magricela de orelhas grandes, os meus domingos de Páscoa eram sempre na casa de meus avós paternos, na João Pereira. Era lá que minha família se reunia para o almoço da Páscoa.

Lembro bem de cada momento. De acordar cedinho pra ir à procissão do Encontro, da ansiedade de chegar logo em casa para abrir meu ovo de Páscoa, de ir com meus pais e minhas irmãs para a casa dos meus avós. Foram tantos momentos de alegria que até hoje guardo bem guardados no meu baú de memórias.

Hoje, depois de tantos domingos de Páscoa, valorizo cada momento que tenho de alegria. Hoje, meus domingos de Páscoa são ao lado da pessoa que mais amo no mundo e, com certeza, da pessoa que mais me ama.

É ao lado da minha pequena Mariane que tenho o prazer de viver meus domingos de Páscoa. E, com seus pequenos gestos, ela me faz reviver meus bons tempos de criança e sentir todo o prazer de recordar tudo isso.

Ler o que ela escreve, ver seus desenhos, que sempre têm o pai presente entre os personagens, e os gestos de carinho que recebo, são o bálsamo que necessito para curar minhas feridas provocadas pelas dores da vida. Sentir seu abraço carinhoso, seus gestos de reconhecimento por tudo que tento fazer por ela, para preencher o que talvez faça falta em sua existência, é o maior presente que posso desejar.

Me sonho maior e, talvez, único, é poder vê-la feliz sempre. Vê-la capaz de se cuidar sozinha. Saber que posso partir dessa vida ciente de que fiz tudo que era necessário para vê-la caminhando com as próprias pernas.


Espero ainda ter muitos domingos de Páscoa ao lado da minha pequena. Poder dar a ela toda a alegria de encontrar o tão esperado ovo de Páscoa e receber, através de seus pequenos gestos, todo o amor que sei que sente por esse seu velho pai. 

A quarta série ginasial

Faz tempo que isso não ocorre, mas um tempo atrás eu vivia sonhando que estava nas dependências da escola onde cursei o ginasial e também ...