terça-feira, 5 de março de 2019

Bife a rolê enrolado


Minha mãe sempre cuidou da comida com esmero, pelo menos enquanto a saúde permitiu. Sempre foi de fazer belas roscas, doces, pudins e outras iguarias, principalmente nas tardes de sábado.
Mas de seus dotes culinários também faziam parte pratos salgados e sempre experimentava alguma receita nova. Seu macarrão feito em casa, por exemplo, era de se comer rezando como dizem por aí quando a comida é boa, o mesmo se podia dizer do nhoque, que ela mesma preparava depois de ir ao mercadão e, de faca em punho, testar a batata para ver se dava liga.
Dizia que a batata boa para o nhoque era a binge. Ela cortava uma ao meio e juntava as duas partes outra vez. Se grudasse era porque dava liga e aí o nhoque seria de qualidade.
Mas, ao mesmo tempo em que cozinhava bem, sempre se preocupava com a família. Principalmente quando preparava algum prato diferente.
Certa vez, na hora do almoço, inventou de fazer bife a rolê. Lembro que o recheio tinha bacon, cenoura e outras iguarias que deixavam o bichinho com um sabor muito bom.
Naquele dia, como não tinha palitos para prender a carne depois de enrolada, deu uma de professor Pardal e amarrou cada bife com linha de costurar para que o recheio não escapasse quando fosse cozinhar no molho. A invenção deu certo e tudo ficou em seu lugar.
Mas, preocupada que ninguém se esquecesse de tirar a linha na hora de comer, avisou todos nós da tal da linha. A cada bife que saia da travessa era um aviso.
Até que aconteceu o inesperado. Mesmo avisando todo mundo que a linha podia enroscar na garganta e que era para termos cuidado, ela acabou esquecendo e comeu o tal do bife a rolê com linha e tudo. Imediatamente sentiu que tinha feito besteira e a coisa ficou ainda pior quando a linha fez sua parte e enroscou na garganta.
Passado o susto e refeita do problema, minha mãe riu dela própria por ver que avisou tanto a gente e acabou se esquecendo de tirar a linha antes de comer. Daquele dia em diante, cada vez que ela fazia bife a rolê, mesmo colocando os devidos palitos para segurar o recheio, já recebia o aviso de tomar cuidado com a linha.

Belas tardes de domingo


Mitos marcam os ciclos de nossas vidas e ajudam a formar nossa memória e nossa história. Quem nunca idolatrou um mito que atire a primeira pedra.
Nos meus tempos de adolescência tive meus ídolos e mitos. Não apenas aqueles inalcançáveis como grandes jogadores de futebol ou heróis de seriados ou histórias em quadrinhos.
Tive ídolos e mitos que viviam na mesma cidade e que podiam ser vistos a qualquer momento. Mas, era nas tardes de domingo que eu mais gostava de vê-los em ação.
Era no velho Chico Vieira, lá longe de casa, que eu passava minhas belas tardes de domingo para em 90 minutos ver o que eram capazes de fazer com a bola nos pés. Para mim eram verdadeiros heróis, pois treinavam no período noturno, quando treinavam, para depois enfrentarem os adversários nas tardes de sol escaldante.
Se na minha pré-adolescência tive a oportunidade de ver a Esportiva ser campeã da Terceira Divisão de 69, nos anos 70 foi a vez de idolatrar um grupo que, apesar das dificuldades e de não ganhar nada para jogar, ficou vários anos sem perder no Chico Vieira.
Vi muita gente vestir a camisa grená do Itapira Atlético Clube. Uns com maestria, outros nem tanto, mas todos com a mesma valentia.
E todos, sem exceção, se transformaram em mitos para os jovens e adolescentes da época. E tinham o respeito e carinho dos mais velhos.
Costumo dizer que sem personagem não há história para contar. E sem os ídolos e mitos não há feitos para relatar.
Aquele foi um tempo diferente, todos jogavam pelo amor a bola e a camisa que vestiam. Não havia chuteiras coloridas, cabelos descoloridos ou tatuagem encobrindo braços, pernas e outras partes do corpo.
Era um tempo mais romântico, um tempo em que muitos daqueles jovens se agigantavam dentro das quatro linhas davam o que tinham e o que não tinham pela vitória. Sem contar que algumas vezes saíam de um baile na noite anterior praticamente direto para o vestiário, mas mesmo assim estavam lá, prontos para a batalha que os esperava.
Ver as defesas de um Luizinho, um Sabadini, um Roberto Cremasco ou de tantos que envergaram a camisa 1 do time era fantástico. Assim como era bom ver o trato com a bola de um Almir, um Toninho Bellini, um Mineiro; a raça de um Pirulito, um Nelsinho, um Tadeu Venturini, um Carlinhos Mendes; a vontade e a capacidade para marcar um gol de um Dado, um Tuia, um Fifo, um Pedro Paulo, um Dé, um Kalu, um Cabrita e tantos outros que lá na frente tinham no meio-campo a maestria de um cara chamado Flávio Boretti.
Tempos bons aqueles! Nem sempre o dinheiro do ingresso estava disponível, mas meu pai, sabedor da paixão que eu tinha pela bola, colaborava e lá ia eu a pé até aquele templo do futebol, mas feliz por ter a oportunidade de viver mais uma bela tarde de domingo.
Mitos marcam os ciclos de nossas vidas e ajudam a formar nossa memória e nossa história. Esses foram meus mitos da juventude, que me ajudaram a construir minha memória e minha história.

Avenida sem biris


A Avenida dos Biris sempre foi um dos pontos principais da cidade. Sua vista para a parte baixa que compreende o Cubatão, parte dos Prados e até a Vila Izaura, sempre foi algo deslumbrante, principalmente no nascer do sol, que desponta atrás das montanhas.
Suas frondosas árvores, que deram o nome ao logradouro, além de enfeitar, protegiam a encosta e ofereciam às crianças os biris que serviam para diversas brincadeiras. Desde a curva onde começa o barranco que divide o parque da Avenida Brasil, até quase onde hoje está a lanchonete, tudo era bem diferente.
A partir da luminosa ideia que alguém que se acha dono da cidade teve de mudar a avenida, acabou-se o que era doce. A Avenida dos Biris perdeu suas árvores frondosas, as crianças perderam seu brinquedo, a natureza perdeu o sentido e tudo ficou igual a qualquer outro lugar.
O encanto do local era a sua cara de natureza, os raios de sol entre os galhos dos birizeiros, a brisa soprando suas folhas, aquele ar bucólico e a vista que tudo isso proporcionava para quem por ali passava. Hoje, o que restou disso foi apenas a vista da parte baixa da cidade, algo que ser humano nenhum, nem mesmo aqueles que se acham donos de tudo, podem tirar.
Para quem não sabe, o birizeiro é uma árvore rara encontrada no cerrado, principalmente em Mato Grosso. Acabar com elas, além de acabar com um dos cartões postais da cidade, foi agredir a natureza. Qual cidade tem ou tinha árvores tão belas enfileiradas em uma avenida?
Hoje, a encosta do parque é cercada por uma mureta com balaústres, que serve apenas para que o lixo depositado por vândalos e negligentes fique escondido. Mas, quem se debruça na tal mureta para observar a vista, se olhar para baixo com certeza irá se deparar com uma montanha de garrafas pet, copos, sacolas plásticas, entre outros detritos.
Será que um dia o ser humano voltará a ter consciência que não se deve mexer com a natureza, mesmo que seja para se autopromover? Mexer no que é belo aos olhos de quem vê deveria ser crime inafiançável, pois só assim nossos patrimônios jamais seriam destruídos.

Apelidos exóticos


Que o brasileiro é pródigo em inventar apelidos todo mundo sabe. Basta comparar times de futebol de outros países com os nossos, recheados de nomes exóticos.
Nos tempos atuais nem tanto, salvo algumas exceções a maioria é conhecida por nome e sobrenome ou nomes duplos. Mas, antigamente, era Pelé, Didi, Vavá, Garrincha, Tostão, Beto Fuscão, Zico, Quarentinha e por aí afora.
Durante nossa vida mesmo, quantas e quantas figuras ficaram conhecidas pelo apelido ou até mesmo por um nome que não era o seu. Alguém por acaso sabe que o Pedro, pai do Dão Rossi, não se chama Pedro e sim Onofre?
Acredito que muita gente desconhece esse detalhe que fez até mesmo o Onofre se esquecer de seu próprio nome. Certa vez, quando ainda era sócio do Mingo Bruzasco no açougue, ao atender uma ligação telefônica e ouvir a pessoa do outro lado da linha pedir para falar com o Onofre, virou-se imediatamente para o sócio e perguntou quem era esse tal de Onofre.
Mas, povo pródigo em colocar apelidos e daqueles bem exóticos eu conheci nos meus tempos de Usina Nossa Senhora Aparecida. Lá, dificilmente alguém era conhecido pelo nome.
E tinha cada apelido! Era Cido Bacate, João Cudiguia (melhor escrever emendado, embora leia-se separado), Gatão, Zé Sóco, Pacu, Bertozo, Zé do Mato, Coitão, Canário, os irmãos João de Lau e Cido de Lau, entre tantos outros.
Tinha também os que eram conhecidos pelo local onde trabalhavam como Sebastião Manoel, que era o Bastião da Bomba; o José Luiz Gonçalves, transformado em Zé Luiz da Balança; o José Scholz, conhecido como Zé do Armazém. Ou aqueles que já carregavam o apelido desde criança como o Lito e o Nô, filhos do Zé Luiz da Balança; o trio Lelo, Nado e Dô, filhos do José Maria de Queiroz; o Zezinho do Juca, assim conhecido por ser filho do Juca; o Chupeta, o Pará e o Murilinho, nascido Waldomiro Fernandes, mas até hoje chamado assim por ser um pouco parecido com o doutor Murillo Arruda.
Infelizmente, nos dias de hoje já não há mais a habitantes na colônia, como eram conhecidas as casas da longa rua que ligava a estrada até a moenda. Já não há mais casas, já não há mais habitantes, restou apenas a história de vida de cada uma das pessoas que ali viveram, formaram suas famílias e ganharam apelidos exóticos.


Alô, telefonista


A velocidade com que conseguimos os comunicar nos dias atuais, cada vez mais globalizados e integrados através de uma infinidade de canais, contrasta com o que havia em um tempo em que só por Deus era possível falar com alguém via telefone. Era sentar, esperar, rezar e torcer.
Nos meus tempos de criança a única forma de se falar com alguém via telefone era tirar o aparelho do gancho, aguardar a telefonista atender e pedir para completar a ligação para um determinado número; Daí em diante, podiam ser minutos, horas... e haja paciência.
Lembro que na minha casa não tinha telefone e quando dava aquele comichão de ligar na Rádio Clube e pedir uma música no programa do Dácio Clemente o jeito era ir na vizinha e pedir para que deixasse a gente usar seu telefone. A vizinha ao lado era a dona Olga Passarela, esposa do maestro Américo Passarela, e sempre que pedíamos, ela gentilmente abria as portas de sua casa para que pudéssemos realizar nosso desejo.
Ligar para algum parente em outra localidade era outro problema. Era necessário ir até a Telefônica, que ficava na Campos Salles, onde hoje está a Agrocentro, pedir a ligação, sentar e esperar que a mesma fosse completada.
Lembro que por lá passaram pessoas boas, atenciosas e pacientes como a Dezolina Eugênio Tossini, a Zola; a Malqui Martins Bayod, e a Albina Robustes, a Bina, prima da minha mãe, que detestava o próprio nome e inventou um outro que era do seu agrado. Mudou o nome para Sandra, mas a fuça continuou a mesma.
Tudo isso faz parte do passado, um passado que já vai longe. Mais de meio século já foi embora e tudo isso virou motivo de chacota para quem não viveu aquele tempo.
Mas, você lembra disso tudo? Lembra de ter pedido música no programa do Dácio Clemente utilizando os serviços da telefonista? Lembra de ter usado aquele telefone preto pesado, que não tinha o sistema de discagem e funcionava quando a pessoa tirava o fone do gancho? Se lembra, então está ficando velho como eu.

Alma pura, coração de ouro


Conheci Leo Santos em 82 durante os Jogos Regionais da Zona Leste que Itapira sediou, naquele ano, pela primeira vez. Eu fazia um bico pelas ondas da Rádio Clube e ele era fotógrafo do jornal Cidade de Itapira.
Nossa amizade nasceu ali e posso afirmar que é uma amizade que prezo e conservo. Leo, nascido Leovaldo, tem uma alma pura, um coração enorme e de ouro, e, como dizia Luiz Antonio da Fonseca, o Toy, nos nossos tempos de rádio, “o Leo pode estar com um baita problema, mas está sempre com um sorriso estampado no rosto”.
Ao longo do tempo tive esse amigo como companheiro de trabalho em várias situações e órgãos de imprensa. Trabalhamos juntos nos jornais Cidade de Itapira e O Impacto de Mogi Mirim, nas rádios Clube de Itapira e as mogimirianas Cultura, Chamonix e CBN, e vivenciamos muitas experiências.
Fui seu padrinho de casamento com a dona Penha em 86 e me orgulho disso, pois vi aquele amigo construir sua família com muito esforço e amor. Desse casamento nasceram a Júlia e a Isabela e hoje Leo é avô do Miguel.
Mas, por trás daquela alma pura e daquele sorriso constante tem algumas coisas que fazem desse amigo um ser ainda mais especial. Talvez, pela pureza de sua alma, Leo nunca pensou duas vezes para falar ou agir.
Nós, do meio jornalístico, costumamos dizer que falar do Leo daria para escrever um livro, daqueles grossos, tantas são as passagens bizarras proporcionadas por ele.
Uma delas ocorreu no dia 15 de abril de 93. Era meu aniversário e eu chefiava a equipe de esportes da Rádio Cultura de Mogi Mirim, da qual Leo era um dos repórteres de campo.
O Mogi Mirim, de Leto, Válber e Rivaldo, iria enfrentar o Palmeiras no Palestra Itália e lá fomos nós para fazer a cobertura. No volante o Ismael Rodrigues, do seu lado o saudoso Valentim Antonio, grande narrador; no banco de traz, além de mim, o Leo e o saudoso Ademar Hernandes.
Mal a viagem se iniciou e o Leo já fez das suas. Ao ver uma pessoa bêbada no meio do mato, bem no trevo de acesso para Limeira, mandou ver e me disse: “aquele ali era comentarista”, querendo insinuar que eu ficaria daquela maneira no futuro.
Qual foi sua surpresa ao ver, quando o carro se aproximou, que aquela pessoa era seu tio. “Meu tio Dino”, disse, espantado e ao mesmo tempo desconsertado.
A viagem toda, durante a transmissão e no nosso jantar de comemoração em uma cantina do Bexiga, Leo teve que ouvir as brincadeiras sobre seu tio Dino. Claro que tudo de maneira saudável, que Leo absorveu e levou na brincadeira.
Grande fotógrafo e profissional competente, tive o prazer de cobrir, ao seu lado, a segunda edição dos Jogos Regionais na cidade, isso em 91. Trabalhávamos no Cidade de Itapira e o jornal circulava diariamente com todas as informações da competição.
Lembro bem de uma foto feita por ele, com seu faro de fotógrafo. O jogo acontecia no Bento Nunes, no bairro do Cubatão, e reunia Araras e uma outra cidade que não me recordo.
Na lateral-esquerda do time ararense ninguém menos que Roberto Carlos. Não o cantor, claro, mas o dono de um dos chutes mais potentes que o futebol mundial já viu.
Ao cobrar uma falta, que por sinal foi parar nas redes do adversário, Roberto Carlos colocou toda sua força e a foto registrada pela objetiva do Leo Santos mostrou toda essa força traduzida em músculos enrijecidos daquele que mais tarde se transformaria em um dos grandes laterais do futebol mundial.
Leo Santos merece minhas reverências, não apenas como profissional, mas como uma pessoa pura, de alma leve. Um ser humano daqueles que podemos contar nos dedos das mãos.

Ah, se eles ainda estivessem por aqui


Nesse mundo de hoje, em que as músicas de Carnaval já não existem mais e o conceito sobre essa festa popular é totalmente contrário a tudo que o vivemos, como seria bom se pudéssemos voltar no tempo e reviver os grandes bailes carnavalescos de outrora. Seria como um reencontro com grandes músicos da terra e grandes orquestras que davam o tom para os bailes.
Talvez fosse pedir muito ao Homem lá cima para que liberasse, mesmo que por uma noite, alguns dos grandes músicos itapirenses de uma época de ouro. Seria uma forma de oferecer às pessoas que não viveram aquele período maravilhoso uma oportunidade para que pudessem ouvir e descobrir o que é música de verdade.
Fico imaginando se pudéssemos receber por aqui nomes como Antonio Brianti, o Tocha, músico de primeira linha e líder de uma das mais famosas orquestras da região. Com ele poderiam desembarcar, vindo do andar de cima, Alair Toledo de Oliveira, o Ito do Teté; Benedito Avancini, o Naite, dentista e baterista dos bons; Milton Guinesi, violonista de mão cheia; Guido Atílio Cremasco, o Tite Cremasco e seu violino; Aylton Riberti e Aparecido Ampélio Riberti, o Cidão Riberti, cujo sobrenome já diz tudo em matéria de talento musical, e tantos outros que me fogem à memória no momento, mas que contribuíram para que aquele fosse um tempo mágico e inesquecível.
Que bom seria se, pelo menos por uma noite, as orquestras do Clube XV e do Centro Comércio e Indústria se encontrassem na praça Bernardino de Campos e nos enchessem de alegria e nostalgia com clássicos como O Abre Alas, Allah-la Ô, Mamãe Eu Quero, As Águas Vão Rolar, Cabeleira do Zezé, Cidade Maravilhosa, Jardineira, Daqui Não Saio, As Pastorinhas, e tantas outras marchinhas que embalaram nossa juventude e que até hoje permanecem na memória de quem teve o privilégio de viver esse período. Mas, sei que tudo isso não passa de um simples devaneio de quem sente saudade de tudo que foi bom e não volta mais, mas pelo menos restou essa doce lembrança desses verdadeiros artistas, músicos de verdade, que nunca precisaram da mídia para se tornarem conhecidos.
Feliz de quem vai poder ir aos bailes de Carnaval lá de cima, pois é lá que irão rolar as mais belas e tradicionais marchinhas. Como não chegou nosso tempo, nos resta relembrar e engolir as lágrimas de saudade.


Acabou a gasolina


No final da década de 80 Itapira era uma cidade que respirava esporte. Eram muitas competições e muitas delas com projeção nacional, como a Mini Maratona Professor Cândido de Moura, que reunia atletas de várias partes do país.
O trabalho efetuado pela equipe do DECET (Departamento de Esportes, Cultura e Turismo), comandado pelo professor Oscar Soares de Campos Filho, o Kally, era reconhecido de forma merecida e colocava a cidade nas altas esferas do jornalismo esportivo. E o ponto culminante, sem dúvida, era a famosa corrida de 21 quilômetros, que mesclava em seu percurso trechos de terra com ruas da cidade, até adentrar o estádio municipal Chico Vieira, local da chegada.
Naquela época eu comandava a equipe de esportes da Rádio Clube e a cada ano montávamos um esquema para transmitir a prova do início ao fim. Era trabalhoso, mas muito gratificante.
Tínhamos o apoio da prefeitura, que cedia um Fusca com aparelho de rádio amador para que a prova fosse acompanhada em todo o trajeto. Para que isso fosse possível, uma base era instalada no almoxarifado da prefeitura, onde ficava a torre de recepção do serviço de rádio.
Com a destreza do Jorge Luiz Bonaldo, o som que chegava na torre era retransmitido para o estúdio e de lá para nossa transmissão. E assim tudo que se passava no trajeto era relatado.
Não me recordo o ano, mas lembro que o carro era dirigido pelo meu pai, que ao seu lado tinha o Tuia Pires de Souza, que narrava a prova e no banco de trás o Ademar Hernandes, que carregava a listagem com os atletas, para auxiliar na narração. E assim era possível para o ouvinte saber quem estava na frente e a posição dos demais competidores.
No estádio ainda tínhamos três repórteres no gramado. Lá estavam Léo Santos, Glauco Lauri e Humberto Luchetti, enquanto eu ocupava a cabine do estádio para narrar a volta final e a chegada e tinha no plantão, no estúdio da emissora, o José Roberto Destro, acompanhando e informando os resultados dos jogos daquela tarde de sábado.
Tudo corrida dentro do planejado, até que veio a informação que poderia acabar com todo o trabalho. Segundo o Tuia o carro apresentava problemas e estava ficando para trás enquanto os competidores seguiam na prova.
Nossa sorte foi a presença dos três repórteres, que passaram a entrevistar quem quer que fosse até que o problema fosse resolvido. Mas o tempo passava e nada de o carro ficar bom de novo, até que tudo se normalizou e novamente a transmissão pode continuar até que os primeiros colocados surgissem no portão do estádio e eu passasse a narrar os metros finais.
Mais tarde, já com o trabalho encerrado e satisfeitos com o sucesso, meu pai, o Tuia e o Ademarzinho já conosco no estádio, que fiquei sabendo o ocorrido. O carro que tinha sido destinado para nosso trabalho não tinha sido abastecido e a gasolina acabou no meio do percurso.
Passado o susto e agradecidos pelo sucesso da transmissão, só nos restou sentar no Chopinho e comemorar nossa vitória. O vencedor da prova? Confesso que não lembro quem foi, mas naquele instante nada importava, somente o fato de termos concluído mais uma façanha nas ondas do rádio;

A véspera de Natal


Se existe um dia favorito na vida da gente, o meu com certeza sempre foi a véspera do Natal. Principalmente na infância, era o dia que eu mais esperava, talvez por anteceder a chegada do Papai Noel ou por causa de todo aquele clima de preparativos para o dia seguinte.
Na minha casa a véspera do Natal sempre foi muito especial. Na verdade, a véspera começava bem antes, uma semana talvez, quando minha mãe subia os degraus do escadão da Ladeira São João, atravessava o Parque Juca Mulato até ganhar a Rua João Pereira, onde ficava a casa da minha avó Leonor.
Era lá que tudo acontecia durante a semana. Os doces eram feitos artesanalmente e com capricho. Era doce de figo feito com os figos do pé que havia no quintal da casa de meus avós, de laranja, duas cores, pudins e outras iguarias de dar água na boca.
Na véspera propriamente dita, o cheiro inconfundível de assados tomava conta do ar e completava o clima natalino. Aí, era só esperar pela chegada do Papai Noel, acordar, abrir o presente e depois fazer o caminho até a João Pereira para ganhar mais presentes e depois degustar as delícias naquela mesa enorme, cheia de gente e de alegria.
Tempos depois, quando eu já era jovem, principalmente depois que meus tios José Rubens e Ivan e meus avós João e Leonor foram para o andar de cima, nosso Natal passou a ser em casa. Minha mãe preparava o jantar da véspera com os assados, o tutu de feijão, o arroz branquinho, a maionese e, claro, os doces, tudo isso completado com as frutas natalinas que meu pai nunca deixou faltar, como nozes, avelãs, castanhas-do-pará e portuguesa.
Tudo isso faz parte do passado. Hoje meus pais também já estão comemorando o Natal no andar de cima, juntamente com aqueles que partiram antes.
Eu ainda permaneço por aqui e procuro oferecer para quem está comigo um pouco de tudo isso, dessa alegria da véspera de Natal, dessa magia que me comove mesmo depois de tanto tempo. Por isso que costumo dizer para quem queira ouvir que Papai Noel existe e está sempre presente em nosso coração.

A várzea dos Riboldi


Sempre afirmo que embora não tenha nascido ou residido nos Prados, minha ligação com o bairro é muito estreita. Desde os jogos de futebol até a época em que descia a ladeira São João com meu pai para caçar rã, tudo era direcionado para aquele lado da cidade.
A começar pelo meu avô, que por anos a fio trabalhou na Olaria dos Riboldi, que ficava na Avenida Brasil. Era lá que eu ia buscar barro para brincar ou para, mais tarde, fazer os trabalhos manuais.
E, falando nos Riboldi, que têm parentesco com minha família, era na várzea que tinha atrás da olaria que eu e meu pai íamos caçar as saborosas rãs folhagem e, às vezes, as mais encorpadas, chamadas de rãs pimenta pelo cheiro forte que exalavam. Naquele tempo anda não existia a Avenida dos Italianos e apenas uma cerca separava a várzea dos fundos da olaria.
Quando chegava a época de caçar rã, após a temporada de chuva principalmente em setembro e outubro, a várzea ficava repleta de pequenas lagoas formadas pela chuva pelo transbordo do ribeirão da Penha. Meu pai, profundo conhecedor daquele lugar, principalmente por ter morado nos Prados quando criança, sabia onde encontrar as bichinhas que mais tarde virariam um prato e tanto.
Lembro das inúmeras vezes que desci a ladeira, com um saco vazio em punho, caminhando ao lado do meu pai e esperando a hora em que ele iria acender o pavio da lanterna de carbureto. Era só começar a cair a noite e ele já providenciava a luz que nos levaria até os locais onde teríamos êxito na caçada.
Algumas vezes meu avô João nos acompanhava na caçada. Quando chegávamos à várzea ele ia por um lado e meu pai e eu por outro, assim era possível visitar todas as lagoas e encontrar mais rãs.
Quando meu tio José Detlinger, marido da tia Shirley, vinha para Itapira, também participava da caçada e na hora de limpar as rãs, gozador que era, deixava minha vó Leonor em polvorosa. Ela tinha pavor de rã e se trancava no quarto para se esconder, mas meu tio um dia quase matou a ‘véia’ do coração ao colocar uma rã por debaixo da porta.
Quando saiu do quarto, depois que meu pai recolheu a bichinha, de vassoura em punho correu atrás do genro para dar o troco. Era um tempo muito bom e feliz para todos nós.
Lembrar de tudo isso só traz alegria ao coração, pois me remete a um tempo em que minha família era numerosa, um tempo em que a mesa do rancho da casa de meus avós estava sempre cheia. Um tempo que se foi, mas que deixou boas recordações.


A sede da Banda Lira


Costumo dizer que faço parte da Banda Lira mesmo sem saber tocar qualquer instrumento. Nas inúmeras vezes que apresentei a corporação em eventos sempre fiz questão de lembrar que passei boa parte da vida ouvindo os ensaios que a Lira fazia em sua sede.
No meu tempo de criança não havia a sede da Banda Lira na Rua Comendador João Cintra. No local onde ela foi construída havia uma ferraria, que pertencia a um senhor que era chamado de Bertino.
Lembro que era uma construção antiga e bem judiada pelo tempo. Seu cheiro era uma mistura de odor de cavalo com ferro quente, talvez pela presença constante de animais que eram levados ali para receberem ferraduras novas.
 Não sei ao certo quantos anos eu tinha, acredito que menos de 10, quando o antigo prédio foi derrubado para dar lugar à sede da banda. Depois de um bom tempo tudo ficou pronto e a partir daquele momento, duas vezes por semana, podíamos ouvir os acordes nos ensaios comandados pelo maestro Américo Passarella, que era nosso vizinho.
Quando chegava o tempo da Festa de Maio era dali que a banda saía para a alvorada. Como era bom ouvir aqueles dobrados que me emocionam até hoje a cada vez que os ouço.
Era naquele prédio que fazíamos nossos bailinhos, era na grade que existia antes da reforma que brincávamos, ou nos reuníamos para jogar conversa fora. Aquilo era parte do nosso pequeno mundo, um mundo de criança que fazia da rua o seu próprio mundo.
Aos sábados a sede servia para ensaios de um conjunto e lá estava eu ouvindo aqueles caras tocarem os sucessos da época. Lembro como se fosse hoje do X9, do Cebola Zago, do João Carlos, do Fernando Riberti e de tantos outros que agora me fogem da memória, mas que estavam sempre lá para ensaiar.
Em 83 um temporal colocou o prédio da banda abaixo depois que o muro do terreno acima cedeu. Debaixo dos escombros ficaram para sempre as memórias de um tempo de infância.
O prédio foi reconstruído sem a entrada com a grade e cada vez que passo por lá recordo daquele tempo em que tudo era apenas uma brincadeira de criança. Um tempo que o próprio tempo já levou para o fundo do baú de memórias que guardo em meu coração.

A quarta série ginasial

Faz tempo que isso não ocorre, mas um tempo atrás eu vivia sonhando que estava nas dependências da escola onde cursei o ginasial e também ...