terça-feira, 5 de março de 2019

Carrinho de rolimã


Todos nós, pelo menos uma vez na vida, já andamos em um carrinho de rolimã. Feito em madeira, com rodinhas que giram através das bolinhas colocadas em uma espécie de engrenagem, o carrinho normalmente é dirigido com os pés.
O quarteirão que eu morava desde que nasci era propício para esse tipo de brinquedo. Com a calçada dotada de leve declive, era só embalar o carrinho lá na esquina onde ficava a Farmácia Nossa Senhora da Penha e torcer para que ninguém entrasse na frente.
A rua de casa, mais precisamente o quarteirão entre a Rua XV de Novembro e a Ladeira São João, era repleto de crianças. E a cada época do ano a brincadeira era diferente.
Tinha a febre do pião, das pipas, das brincadeiras de rua e tinha também a épocas do carrinho de rolimã. Aí a coisa fervia e era carrinho pra cima e pra baixo o dia inteiro.
Por causa das rodas em aço, além do barulho que produzia, o brinquedo muitas vezes riscava a calçada, principalmente na hora de colocar o pé no chão e brecar. E era aí que a confusão se formava.
Meu pai, sempre austero, não era muito chegado a esse tipo de brincadeira e quando ficava irritado saía na porta de casa e reclamava com os meninos que estavam descendo a calçada com os carrinhos. Isso fazia com que muitos deles tivessem medo dele e outros, mais rebeldes, davam de ombros e a brincadeira continuava.
Mas, o que meu pai não sabia era que o chefe da turma, ou melhor, a chefe da turma era sua filha mais nova. Minha irmã Claudia, que sempre gostou de fortes emoções, era a líder do grupo dos carrinhos de rolimã.
Claro que se soubesse da proeza dela meu pai iria virar o bicho, então tudo era feito as escondidas. Lembro de uma vez que, ao descer de patinete a calçada de casa, ela perdeu o controle do brinquedo e deu na parede, esfolando o tornozelo.
Com medo da reação do meu pai, que estava para chegar do trabalho para o almoço, entrou em casa escondida, sem que minha mãe visse, e quem curou o pé da corredora fui eu. Aliás, era sempre assim: ela aprontava das suas e eu acobertava e livrava ela do pior.
Talvez seja por isso que nos damos tão bem e somos não apenas irmãos, mas parceiros de todas as horas. Recordar esse tempo nos remete a um costume praticamente em desuso nos dias de hoje, tão atrelado à tecnologia e às telas de celulares, iPhones, tablets e outros brinquedinhos do gênero.


Camisa branca de gola vermelha


Era uma vez um grupo de garotos que residiam no mesmo quarteirão. Todos eles tinham a mesma paixão: a bola.
Se fosse um conto ou uma fábula, bem que poderia começar assim, mas o fato é que tudo isso é real. Éramos garotos e, como a maioria deles, gostávamos de jogar futebol.
Naquele tempo qualquer terreno baldio servia para nossas peladas, transformadas em nossa imaginação em verdadeiros clássicos. Até mesmo a rua de casa, pavimentada com paralelepípedos disformes, era palco para nossos jogos noturnos.
Mas havia também os jogos contra times de outros bairros e nessas ocasiões era necessário ter nosso uniforme. Jogar sem camisa ou com a roupa do corpo não era de bom tom e havia a necessidade de um uniforme, mesmo que fossem somente as camisas.
E tínhamos também os dias de glória, esperados meses a fio, que era o momento de subir o escadão da Ladeira São João para enfrentar o time do Parque Infantil Narciso Pieroni. A disputa por vaga na fila para enfrentar o time do parquinho era árdua, tinha muitos times que queriam jogar naquele campinho gramado com traves pintadas em verde escuro.
Nossa sorte mudou quando o José Eduardo Rocha, que era nosso vizinho de quarteirão, ganhou um uniforme de presente. Eram sete camisas brancas com golas vermelhas em V e uma camisa de goleiro.
Era o que bastava para vestir nosso time. No campinho do parque jogavam sete na linha e um no gol.
Era difícil ganhar daquele time, mas nossa estatística no confronto era das melhores, com equilíbrio entre vitórias e derrotas. Sempre com nosso garboso uniforme branco de golas vermelhas.
Lembro de uma manhã qualquer de um dia de semana que fomos até o caminho perto do cemitério enfrentar o time do bairro. Chegamos na perua Kombi do Tinho Venturini e já descemos para o campo uniformizados.
Vencemos por 2 a 1 em um jogo difícil. No primeiro tempo joguei na linha e contribui com um gol de cabeça, no segundo tempo fui para o gol para revezar e dar vez para quem estava na posição poder jogar na linha também e acabei defendendo um pênalti.
São momentos inesquecíveis para aquele menino magricela de orelhas grandes que um dia envergou uma camisa branca de golas vermelhas e defendeu o time da sua rua como se estivesse jogando um clássico. Momentos inesquecíveis que jamais deixarão de ser lembrados.

Caixão não tem gaveta


Um dia todo mundo vai embora desse mundo. Essa é a única certeza que temos durante nossa passagem por essas bandas.
Se vamos ser ricos ou pobres, só Deus sabe. O certo é que quando fizermos o embarque para a última viagem, o caixão, aquele em que nossos restos mortais serão colocados, não terá gaveta, cabide, cofre ou estacionamento.
Nunca me prendi por bens materiais, sempre quis ter apenas aquilo que provém, o que dá para o sustento, principalmente de minha pequena Mariane. Fui constatar isso somente depois que me tornei pai.
O dinheiro é bom? Sim, não nego. Mas é o mais importante de todos os bens? Nem de longe.
Para mim, o que vale mesmo são os princípios, a consciência tranquila e o sentimento do dever sendo cumprido a cada etapa. De nada adianta ser abastado se o espírito é pobre.
Sou capaz de dar tudo que possuo para ver a felicidade de alguém que esteja necessitado. Talvez por isso nunca tive muito ou apenas aquilo que era o suficiente.
Nunca fui escravo do dinheiro e nunca serei. Posso passar necessidade, deixar de comer, contanto que quem dependa de mim tenha o necessário.
Já passei por muitas etapas de penúria nessa vida e não culpo esse ou aquele, a não se eu mesmo, por isso. Mas, a partir do momento que do meu lado tinha um ser indefeso e que dependia de mim, enfrentei e venci inúmeros leões diariamente.
Tenho orgulho de ter sobrevivido a tantas etapas difíceis, como quando me vi sem emprego por ter sido dispensado do meu trabalho na administração municipal meramente por questões políticas. Sai do paço municipal com uma mão na frente e a outra segurando a mão da minha pequena, ciente de tudo que teria pela frente e estou aqui, cada vez mais forte.
Não poupo esforços para que ela tenha a melhor escola, boas roupas, um lar, comida decente e carinho, principalmente carinho. O resto, como se diz, eu corro atrás.
O dia em que me sentir incapaz de oferecer a ela tudo o que merece, então estará chegada a hora de embarcar naquele caixão sem cofre, sem gaveta, cabide ou estacionamento. Irei sim, mas irei feliz, sabendo que nunca deixei de me doar para ver alguém feliz e isso se chama riqueza de espírito.

Bife a rolê enrolado


Minha mãe sempre cuidou da comida com esmero, pelo menos enquanto a saúde permitiu. Sempre foi de fazer belas roscas, doces, pudins e outras iguarias, principalmente nas tardes de sábado.
Mas de seus dotes culinários também faziam parte pratos salgados e sempre experimentava alguma receita nova. Seu macarrão feito em casa, por exemplo, era de se comer rezando como dizem por aí quando a comida é boa, o mesmo se podia dizer do nhoque, que ela mesma preparava depois de ir ao mercadão e, de faca em punho, testar a batata para ver se dava liga.
Dizia que a batata boa para o nhoque era a binge. Ela cortava uma ao meio e juntava as duas partes outra vez. Se grudasse era porque dava liga e aí o nhoque seria de qualidade.
Mas, ao mesmo tempo em que cozinhava bem, sempre se preocupava com a família. Principalmente quando preparava algum prato diferente.
Certa vez, na hora do almoço, inventou de fazer bife a rolê. Lembro que o recheio tinha bacon, cenoura e outras iguarias que deixavam o bichinho com um sabor muito bom.
Naquele dia, como não tinha palitos para prender a carne depois de enrolada, deu uma de professor Pardal e amarrou cada bife com linha de costurar para que o recheio não escapasse quando fosse cozinhar no molho. A invenção deu certo e tudo ficou em seu lugar.
Mas, preocupada que ninguém se esquecesse de tirar a linha na hora de comer, avisou todos nós da tal da linha. A cada bife que saia da travessa era um aviso.
Até que aconteceu o inesperado. Mesmo avisando todo mundo que a linha podia enroscar na garganta e que era para termos cuidado, ela acabou esquecendo e comeu o tal do bife a rolê com linha e tudo. Imediatamente sentiu que tinha feito besteira e a coisa ficou ainda pior quando a linha fez sua parte e enroscou na garganta.
Passado o susto e refeita do problema, minha mãe riu dela própria por ver que avisou tanto a gente e acabou se esquecendo de tirar a linha antes de comer. Daquele dia em diante, cada vez que ela fazia bife a rolê, mesmo colocando os devidos palitos para segurar o recheio, já recebia o aviso de tomar cuidado com a linha.

Belas tardes de domingo


Mitos marcam os ciclos de nossas vidas e ajudam a formar nossa memória e nossa história. Quem nunca idolatrou um mito que atire a primeira pedra.
Nos meus tempos de adolescência tive meus ídolos e mitos. Não apenas aqueles inalcançáveis como grandes jogadores de futebol ou heróis de seriados ou histórias em quadrinhos.
Tive ídolos e mitos que viviam na mesma cidade e que podiam ser vistos a qualquer momento. Mas, era nas tardes de domingo que eu mais gostava de vê-los em ação.
Era no velho Chico Vieira, lá longe de casa, que eu passava minhas belas tardes de domingo para em 90 minutos ver o que eram capazes de fazer com a bola nos pés. Para mim eram verdadeiros heróis, pois treinavam no período noturno, quando treinavam, para depois enfrentarem os adversários nas tardes de sol escaldante.
Se na minha pré-adolescência tive a oportunidade de ver a Esportiva ser campeã da Terceira Divisão de 69, nos anos 70 foi a vez de idolatrar um grupo que, apesar das dificuldades e de não ganhar nada para jogar, ficou vários anos sem perder no Chico Vieira.
Vi muita gente vestir a camisa grená do Itapira Atlético Clube. Uns com maestria, outros nem tanto, mas todos com a mesma valentia.
E todos, sem exceção, se transformaram em mitos para os jovens e adolescentes da época. E tinham o respeito e carinho dos mais velhos.
Costumo dizer que sem personagem não há história para contar. E sem os ídolos e mitos não há feitos para relatar.
Aquele foi um tempo diferente, todos jogavam pelo amor a bola e a camisa que vestiam. Não havia chuteiras coloridas, cabelos descoloridos ou tatuagem encobrindo braços, pernas e outras partes do corpo.
Era um tempo mais romântico, um tempo em que muitos daqueles jovens se agigantavam dentro das quatro linhas davam o que tinham e o que não tinham pela vitória. Sem contar que algumas vezes saíam de um baile na noite anterior praticamente direto para o vestiário, mas mesmo assim estavam lá, prontos para a batalha que os esperava.
Ver as defesas de um Luizinho, um Sabadini, um Roberto Cremasco ou de tantos que envergaram a camisa 1 do time era fantástico. Assim como era bom ver o trato com a bola de um Almir, um Toninho Bellini, um Mineiro; a raça de um Pirulito, um Nelsinho, um Tadeu Venturini, um Carlinhos Mendes; a vontade e a capacidade para marcar um gol de um Dado, um Tuia, um Fifo, um Pedro Paulo, um Dé, um Kalu, um Cabrita e tantos outros que lá na frente tinham no meio-campo a maestria de um cara chamado Flávio Boretti.
Tempos bons aqueles! Nem sempre o dinheiro do ingresso estava disponível, mas meu pai, sabedor da paixão que eu tinha pela bola, colaborava e lá ia eu a pé até aquele templo do futebol, mas feliz por ter a oportunidade de viver mais uma bela tarde de domingo.
Mitos marcam os ciclos de nossas vidas e ajudam a formar nossa memória e nossa história. Esses foram meus mitos da juventude, que me ajudaram a construir minha memória e minha história.

Avenida sem biris


A Avenida dos Biris sempre foi um dos pontos principais da cidade. Sua vista para a parte baixa que compreende o Cubatão, parte dos Prados e até a Vila Izaura, sempre foi algo deslumbrante, principalmente no nascer do sol, que desponta atrás das montanhas.
Suas frondosas árvores, que deram o nome ao logradouro, além de enfeitar, protegiam a encosta e ofereciam às crianças os biris que serviam para diversas brincadeiras. Desde a curva onde começa o barranco que divide o parque da Avenida Brasil, até quase onde hoje está a lanchonete, tudo era bem diferente.
A partir da luminosa ideia que alguém que se acha dono da cidade teve de mudar a avenida, acabou-se o que era doce. A Avenida dos Biris perdeu suas árvores frondosas, as crianças perderam seu brinquedo, a natureza perdeu o sentido e tudo ficou igual a qualquer outro lugar.
O encanto do local era a sua cara de natureza, os raios de sol entre os galhos dos birizeiros, a brisa soprando suas folhas, aquele ar bucólico e a vista que tudo isso proporcionava para quem por ali passava. Hoje, o que restou disso foi apenas a vista da parte baixa da cidade, algo que ser humano nenhum, nem mesmo aqueles que se acham donos de tudo, podem tirar.
Para quem não sabe, o birizeiro é uma árvore rara encontrada no cerrado, principalmente em Mato Grosso. Acabar com elas, além de acabar com um dos cartões postais da cidade, foi agredir a natureza. Qual cidade tem ou tinha árvores tão belas enfileiradas em uma avenida?
Hoje, a encosta do parque é cercada por uma mureta com balaústres, que serve apenas para que o lixo depositado por vândalos e negligentes fique escondido. Mas, quem se debruça na tal mureta para observar a vista, se olhar para baixo com certeza irá se deparar com uma montanha de garrafas pet, copos, sacolas plásticas, entre outros detritos.
Será que um dia o ser humano voltará a ter consciência que não se deve mexer com a natureza, mesmo que seja para se autopromover? Mexer no que é belo aos olhos de quem vê deveria ser crime inafiançável, pois só assim nossos patrimônios jamais seriam destruídos.

Apelidos exóticos


Que o brasileiro é pródigo em inventar apelidos todo mundo sabe. Basta comparar times de futebol de outros países com os nossos, recheados de nomes exóticos.
Nos tempos atuais nem tanto, salvo algumas exceções a maioria é conhecida por nome e sobrenome ou nomes duplos. Mas, antigamente, era Pelé, Didi, Vavá, Garrincha, Tostão, Beto Fuscão, Zico, Quarentinha e por aí afora.
Durante nossa vida mesmo, quantas e quantas figuras ficaram conhecidas pelo apelido ou até mesmo por um nome que não era o seu. Alguém por acaso sabe que o Pedro, pai do Dão Rossi, não se chama Pedro e sim Onofre?
Acredito que muita gente desconhece esse detalhe que fez até mesmo o Onofre se esquecer de seu próprio nome. Certa vez, quando ainda era sócio do Mingo Bruzasco no açougue, ao atender uma ligação telefônica e ouvir a pessoa do outro lado da linha pedir para falar com o Onofre, virou-se imediatamente para o sócio e perguntou quem era esse tal de Onofre.
Mas, povo pródigo em colocar apelidos e daqueles bem exóticos eu conheci nos meus tempos de Usina Nossa Senhora Aparecida. Lá, dificilmente alguém era conhecido pelo nome.
E tinha cada apelido! Era Cido Bacate, João Cudiguia (melhor escrever emendado, embora leia-se separado), Gatão, Zé Sóco, Pacu, Bertozo, Zé do Mato, Coitão, Canário, os irmãos João de Lau e Cido de Lau, entre tantos outros.
Tinha também os que eram conhecidos pelo local onde trabalhavam como Sebastião Manoel, que era o Bastião da Bomba; o José Luiz Gonçalves, transformado em Zé Luiz da Balança; o José Scholz, conhecido como Zé do Armazém. Ou aqueles que já carregavam o apelido desde criança como o Lito e o Nô, filhos do Zé Luiz da Balança; o trio Lelo, Nado e Dô, filhos do José Maria de Queiroz; o Zezinho do Juca, assim conhecido por ser filho do Juca; o Chupeta, o Pará e o Murilinho, nascido Waldomiro Fernandes, mas até hoje chamado assim por ser um pouco parecido com o doutor Murillo Arruda.
Infelizmente, nos dias de hoje já não há mais a habitantes na colônia, como eram conhecidas as casas da longa rua que ligava a estrada até a moenda. Já não há mais casas, já não há mais habitantes, restou apenas a história de vida de cada uma das pessoas que ali viveram, formaram suas famílias e ganharam apelidos exóticos.


Alô, telefonista


A velocidade com que conseguimos os comunicar nos dias atuais, cada vez mais globalizados e integrados através de uma infinidade de canais, contrasta com o que havia em um tempo em que só por Deus era possível falar com alguém via telefone. Era sentar, esperar, rezar e torcer.
Nos meus tempos de criança a única forma de se falar com alguém via telefone era tirar o aparelho do gancho, aguardar a telefonista atender e pedir para completar a ligação para um determinado número; Daí em diante, podiam ser minutos, horas... e haja paciência.
Lembro que na minha casa não tinha telefone e quando dava aquele comichão de ligar na Rádio Clube e pedir uma música no programa do Dácio Clemente o jeito era ir na vizinha e pedir para que deixasse a gente usar seu telefone. A vizinha ao lado era a dona Olga Passarela, esposa do maestro Américo Passarela, e sempre que pedíamos, ela gentilmente abria as portas de sua casa para que pudéssemos realizar nosso desejo.
Ligar para algum parente em outra localidade era outro problema. Era necessário ir até a Telefônica, que ficava na Campos Salles, onde hoje está a Agrocentro, pedir a ligação, sentar e esperar que a mesma fosse completada.
Lembro que por lá passaram pessoas boas, atenciosas e pacientes como a Dezolina Eugênio Tossini, a Zola; a Malqui Martins Bayod, e a Albina Robustes, a Bina, prima da minha mãe, que detestava o próprio nome e inventou um outro que era do seu agrado. Mudou o nome para Sandra, mas a fuça continuou a mesma.
Tudo isso faz parte do passado, um passado que já vai longe. Mais de meio século já foi embora e tudo isso virou motivo de chacota para quem não viveu aquele tempo.
Mas, você lembra disso tudo? Lembra de ter pedido música no programa do Dácio Clemente utilizando os serviços da telefonista? Lembra de ter usado aquele telefone preto pesado, que não tinha o sistema de discagem e funcionava quando a pessoa tirava o fone do gancho? Se lembra, então está ficando velho como eu.

Alma pura, coração de ouro


Conheci Leo Santos em 82 durante os Jogos Regionais da Zona Leste que Itapira sediou, naquele ano, pela primeira vez. Eu fazia um bico pelas ondas da Rádio Clube e ele era fotógrafo do jornal Cidade de Itapira.
Nossa amizade nasceu ali e posso afirmar que é uma amizade que prezo e conservo. Leo, nascido Leovaldo, tem uma alma pura, um coração enorme e de ouro, e, como dizia Luiz Antonio da Fonseca, o Toy, nos nossos tempos de rádio, “o Leo pode estar com um baita problema, mas está sempre com um sorriso estampado no rosto”.
Ao longo do tempo tive esse amigo como companheiro de trabalho em várias situações e órgãos de imprensa. Trabalhamos juntos nos jornais Cidade de Itapira e O Impacto de Mogi Mirim, nas rádios Clube de Itapira e as mogimirianas Cultura, Chamonix e CBN, e vivenciamos muitas experiências.
Fui seu padrinho de casamento com a dona Penha em 86 e me orgulho disso, pois vi aquele amigo construir sua família com muito esforço e amor. Desse casamento nasceram a Júlia e a Isabela e hoje Leo é avô do Miguel.
Mas, por trás daquela alma pura e daquele sorriso constante tem algumas coisas que fazem desse amigo um ser ainda mais especial. Talvez, pela pureza de sua alma, Leo nunca pensou duas vezes para falar ou agir.
Nós, do meio jornalístico, costumamos dizer que falar do Leo daria para escrever um livro, daqueles grossos, tantas são as passagens bizarras proporcionadas por ele.
Uma delas ocorreu no dia 15 de abril de 93. Era meu aniversário e eu chefiava a equipe de esportes da Rádio Cultura de Mogi Mirim, da qual Leo era um dos repórteres de campo.
O Mogi Mirim, de Leto, Válber e Rivaldo, iria enfrentar o Palmeiras no Palestra Itália e lá fomos nós para fazer a cobertura. No volante o Ismael Rodrigues, do seu lado o saudoso Valentim Antonio, grande narrador; no banco de traz, além de mim, o Leo e o saudoso Ademar Hernandes.
Mal a viagem se iniciou e o Leo já fez das suas. Ao ver uma pessoa bêbada no meio do mato, bem no trevo de acesso para Limeira, mandou ver e me disse: “aquele ali era comentarista”, querendo insinuar que eu ficaria daquela maneira no futuro.
Qual foi sua surpresa ao ver, quando o carro se aproximou, que aquela pessoa era seu tio. “Meu tio Dino”, disse, espantado e ao mesmo tempo desconsertado.
A viagem toda, durante a transmissão e no nosso jantar de comemoração em uma cantina do Bexiga, Leo teve que ouvir as brincadeiras sobre seu tio Dino. Claro que tudo de maneira saudável, que Leo absorveu e levou na brincadeira.
Grande fotógrafo e profissional competente, tive o prazer de cobrir, ao seu lado, a segunda edição dos Jogos Regionais na cidade, isso em 91. Trabalhávamos no Cidade de Itapira e o jornal circulava diariamente com todas as informações da competição.
Lembro bem de uma foto feita por ele, com seu faro de fotógrafo. O jogo acontecia no Bento Nunes, no bairro do Cubatão, e reunia Araras e uma outra cidade que não me recordo.
Na lateral-esquerda do time ararense ninguém menos que Roberto Carlos. Não o cantor, claro, mas o dono de um dos chutes mais potentes que o futebol mundial já viu.
Ao cobrar uma falta, que por sinal foi parar nas redes do adversário, Roberto Carlos colocou toda sua força e a foto registrada pela objetiva do Leo Santos mostrou toda essa força traduzida em músculos enrijecidos daquele que mais tarde se transformaria em um dos grandes laterais do futebol mundial.
Leo Santos merece minhas reverências, não apenas como profissional, mas como uma pessoa pura, de alma leve. Um ser humano daqueles que podemos contar nos dedos das mãos.

Ah, se eles ainda estivessem por aqui


Nesse mundo de hoje, em que as músicas de Carnaval já não existem mais e o conceito sobre essa festa popular é totalmente contrário a tudo que o vivemos, como seria bom se pudéssemos voltar no tempo e reviver os grandes bailes carnavalescos de outrora. Seria como um reencontro com grandes músicos da terra e grandes orquestras que davam o tom para os bailes.
Talvez fosse pedir muito ao Homem lá cima para que liberasse, mesmo que por uma noite, alguns dos grandes músicos itapirenses de uma época de ouro. Seria uma forma de oferecer às pessoas que não viveram aquele período maravilhoso uma oportunidade para que pudessem ouvir e descobrir o que é música de verdade.
Fico imaginando se pudéssemos receber por aqui nomes como Antonio Brianti, o Tocha, músico de primeira linha e líder de uma das mais famosas orquestras da região. Com ele poderiam desembarcar, vindo do andar de cima, Alair Toledo de Oliveira, o Ito do Teté; Benedito Avancini, o Naite, dentista e baterista dos bons; Milton Guinesi, violonista de mão cheia; Guido Atílio Cremasco, o Tite Cremasco e seu violino; Aylton Riberti e Aparecido Ampélio Riberti, o Cidão Riberti, cujo sobrenome já diz tudo em matéria de talento musical, e tantos outros que me fogem à memória no momento, mas que contribuíram para que aquele fosse um tempo mágico e inesquecível.
Que bom seria se, pelo menos por uma noite, as orquestras do Clube XV e do Centro Comércio e Indústria se encontrassem na praça Bernardino de Campos e nos enchessem de alegria e nostalgia com clássicos como O Abre Alas, Allah-la Ô, Mamãe Eu Quero, As Águas Vão Rolar, Cabeleira do Zezé, Cidade Maravilhosa, Jardineira, Daqui Não Saio, As Pastorinhas, e tantas outras marchinhas que embalaram nossa juventude e que até hoje permanecem na memória de quem teve o privilégio de viver esse período. Mas, sei que tudo isso não passa de um simples devaneio de quem sente saudade de tudo que foi bom e não volta mais, mas pelo menos restou essa doce lembrança desses verdadeiros artistas, músicos de verdade, que nunca precisaram da mídia para se tornarem conhecidos.
Feliz de quem vai poder ir aos bailes de Carnaval lá de cima, pois é lá que irão rolar as mais belas e tradicionais marchinhas. Como não chegou nosso tempo, nos resta relembrar e engolir as lágrimas de saudade.


Acabou a gasolina


No final da década de 80 Itapira era uma cidade que respirava esporte. Eram muitas competições e muitas delas com projeção nacional, como a Mini Maratona Professor Cândido de Moura, que reunia atletas de várias partes do país.
O trabalho efetuado pela equipe do DECET (Departamento de Esportes, Cultura e Turismo), comandado pelo professor Oscar Soares de Campos Filho, o Kally, era reconhecido de forma merecida e colocava a cidade nas altas esferas do jornalismo esportivo. E o ponto culminante, sem dúvida, era a famosa corrida de 21 quilômetros, que mesclava em seu percurso trechos de terra com ruas da cidade, até adentrar o estádio municipal Chico Vieira, local da chegada.
Naquela época eu comandava a equipe de esportes da Rádio Clube e a cada ano montávamos um esquema para transmitir a prova do início ao fim. Era trabalhoso, mas muito gratificante.
Tínhamos o apoio da prefeitura, que cedia um Fusca com aparelho de rádio amador para que a prova fosse acompanhada em todo o trajeto. Para que isso fosse possível, uma base era instalada no almoxarifado da prefeitura, onde ficava a torre de recepção do serviço de rádio.
Com a destreza do Jorge Luiz Bonaldo, o som que chegava na torre era retransmitido para o estúdio e de lá para nossa transmissão. E assim tudo que se passava no trajeto era relatado.
Não me recordo o ano, mas lembro que o carro era dirigido pelo meu pai, que ao seu lado tinha o Tuia Pires de Souza, que narrava a prova e no banco de trás o Ademar Hernandes, que carregava a listagem com os atletas, para auxiliar na narração. E assim era possível para o ouvinte saber quem estava na frente e a posição dos demais competidores.
No estádio ainda tínhamos três repórteres no gramado. Lá estavam Léo Santos, Glauco Lauri e Humberto Luchetti, enquanto eu ocupava a cabine do estádio para narrar a volta final e a chegada e tinha no plantão, no estúdio da emissora, o José Roberto Destro, acompanhando e informando os resultados dos jogos daquela tarde de sábado.
Tudo corrida dentro do planejado, até que veio a informação que poderia acabar com todo o trabalho. Segundo o Tuia o carro apresentava problemas e estava ficando para trás enquanto os competidores seguiam na prova.
Nossa sorte foi a presença dos três repórteres, que passaram a entrevistar quem quer que fosse até que o problema fosse resolvido. Mas o tempo passava e nada de o carro ficar bom de novo, até que tudo se normalizou e novamente a transmissão pode continuar até que os primeiros colocados surgissem no portão do estádio e eu passasse a narrar os metros finais.
Mais tarde, já com o trabalho encerrado e satisfeitos com o sucesso, meu pai, o Tuia e o Ademarzinho já conosco no estádio, que fiquei sabendo o ocorrido. O carro que tinha sido destinado para nosso trabalho não tinha sido abastecido e a gasolina acabou no meio do percurso.
Passado o susto e agradecidos pelo sucesso da transmissão, só nos restou sentar no Chopinho e comemorar nossa vitória. O vencedor da prova? Confesso que não lembro quem foi, mas naquele instante nada importava, somente o fato de termos concluído mais uma façanha nas ondas do rádio;

A quarta série ginasial

Faz tempo que isso não ocorre, mas um tempo atrás eu vivia sonhando que estava nas dependências da escola onde cursei o ginasial e também ...