quinta-feira, 31 de março de 2011

Se eu pudesse voltar no tempo

Sou de um tempo em que o próprio tempo custava a passar. Um tempo diferente de tudo que se vê hoje em dia.

Se eu pudesse voltar no tempo, com certeza, escolheria momentos inesquecíveis de minha passagem por esse mundo. Faria um tour por minha infância e adolescência para reviver um tempo feliz.

Experimentaria, logo de saída, beber um guaraná Itamira, sem esquecer de fazer um furo na tampa com um prego, ao invés de abrir a garrafa. Não poderia deixar de lado também os deliciosos quindins da Padaria Modelo, que ficava onde hoje está o banco Santander.

Deixaria um espaço também para os pães d’água da Padaria do Samora, entregues em casa pelo Irineu Samora e sua inseparável Kombi. E as roscas e sequilhos do Tico Donatti.

Aos domingos iria com meu pai até a casa dos meus avós paternos, sempre subindo o escadão da Ladeira São João, passando pela avenida dos Biris. E à tarde iria com ele ao velho Chico Vieira, ali no Parque Juca Mulato, ver um jogo do futebol amador e saborear um guaraná da Brahma.

Se não fosse, ficaria em casa e ouviria o jogo pela Rádio Clube. Até parece que ouço, pelo rádio, a voz grave do narrador Geraldo Marconi: “Boooola nas mãos do goleiro Orlandinho Boretti, que levaaaanta para o ataque....”. Ah, que saudade desse tempo.

Como era bom esse tempo. Um tempo em que as pessoas podiam andar tranquilamente pelas ruas, sem medo de assaltos.

Um tempo em que tudo era diferente, mais gostoso. Um tempo em que eu era um menino magricela de orelhas grandes.

Às vezes, paro no tempo e me pego pensando se não estou no tempo errado. Aí, caio na real e vejo que minha realidade é bem outra, diferente daquela que gostaria de ter.

Como seria bom poder voltar no tempo e reviver tudo aquilo que ficou para trás. Ler um gibi com estórias de Walt Disney, ver as notícias do Palmeiras no exemplar da Gazeta Esportiva do Carlos Venturini, assistir na TV do vizinho um episódio do Nacional Kid ou simplesmente brincar na rua com os amigos de infância.

Ou, quem sabe, sentar à mesa de casa para o jantar e ter ao meu lado meus pais e minhas irmãs. Almoçar aos domingos na casa de meus avós, cercado de tantas pessoas queridas, que já não estão mais nesse mundo.


Mas, infelizmente, os tempos são outros. Tudo isso ficou no passado, mas bem guardado em meu baú de memórias. Me resta fechar os olhos, remexer em minhas recordações e trazer de volta esse tempo feliz e tudo aquilo que tive em minha infância.

sexta-feira, 25 de março de 2011

Branca de Neve

Sou de um tempo em que estórias infantis eram contadas por nossas mães. Um tempo em que não se tinha os recursos de hoje, como TV, DVD ou computador e a mãe usava a imaginação para passar ao filho todos os detalhes de cada fábula.

Lembro bem desse tempo. Das riquezas de detalhes que as estórias que minha mãe contava continham.

Hoje, com todos os recursos tecnológicos possíveis, a tarefa ficou mais fácil. Basta ligar a TV e o aparelho de DVD e a estória está ali, pronta para ser vista e ouvida.

Uma de minhas estórias prediletas sempre foi Branca de Neve e os Sete Anões. Talvez pela forma que minha mãe contava, com riqueza de detalhes.

Lembro que ela sempre frisava que a casa dos anõezinhos tinha sete cadeirinhas e sete caminhas. E na mesa eram sete pratinhos, com sete garfinhos e sete copinhos.

Era fechar os olhos e imaginar tudo aquilo. Sua forma de contar ainda hoje permanece em minha memória e me inspira na hora de contar as estórias para minha filha.

E, por coincidência ou não, minha pequena Mariane também tem predileção pela Branca de Neve e os Sete Anões. Até mesmo seu fascínio pelo inocente Dunga - não aquele da Copa do Mundo – repete meus passos na infância. Isso me faz voltar aos meus tempos de infância, quando eu ainda era um menino magricela de orelhas grandes.

Naquele tempo, sem os recursos de hoje, minha imaginação viajava enquanto minha mãe contava a estória com todos os detalhes. E como era bom ouvir aquilo, poder criar em minha mente as formas descritas por ela para cada personagem.

Mais tarde, quando o extinto Cine Paratodos, um dos cinemas da cidade daquela época, exibiu a fábula adaptada pelos Irmãos Grimm e incrementada pelos estúdios do fabuloso Walt Disney, pude ver como minha mãe realmente tinha um dom especial para detalhar as fábulas.
Olhando naquela telona e visualizando os personagens era como se estivesse ouvindo minha mãe ao fundo, contando o desenrolar da estória da bela moça acolhida pelos pequeninos.

Curiosamente, ainda hoje, quando vejo e revejo o filme ao lado de minha filha, é como se estivesse ouvindo a descrição de minha mãe. Parece que ela está ali, ao nosso lado, nos contando a fábula mais famosa do mundo.

E como é bom ouvir minha pequenina imitando os personagens, repetir a fala da bruxa, quando ela diz que Branca de Neve será sepultada viva, ou cantar a canção dos anões retornando para casa. Sua cabecinha recheada de imaginação até criou uma versão especial para quando estamos indo para a escola.

São momentos que me fazem voltar aos meus tempos de criança. Tempos que ficaram perdidos no passado, mas que retornam de forma veloz a cada fagulha de lembrança que as eternas fábulas provocam.


Viajo no tempo e me vejo no colo de minha mãe, ouvindo atentamente cada detalhe narrado por ela. O tempo é implacável em muitos sentidos, mas não consegue apagar as boas lembranças que guardamos de tempos felizes.

sexta-feira, 18 de março de 2011

A copa que não vi

Sou de um tempo em que as crianças ainda obedeciam aos mais velhos. Um tempo em que aquilo que os pais diziam era lei. E ai de quem desobedecesse.

Lembro bem daquele tempo, embora eu ainda fosse um menino magricela de orelhas grandes. Nós, crianças da casa, tínhamos sempre que seguir aquilo que nos era determinado, principalmente quando havia visita em casa.

Como morávamos com minha avó Carmela, mãe de minha mãe, era comum tios e tias estarem sempre em casa. Era um tempo em que, embora as dificuldades impostas pela precariedade nos meios de locomoção, sempre se dava um jeito de um visitar o outro.

Da família de minha mãe, além de nós, apenas meu tio Nine morava em Itapira. Os demais residiam em outras localidades, uns mais longe, outros em cidades vizinhas, mas era comum, por exemplo, minha tia Hilda, irmã mais nova de minha mãe, que naquela época residia na vila da Rhodia, aparecer em casa com tio Valdemar e os filhos Diná, Jorge, Márcia, Célia e Neto.

Minha tia Jacira morava mais perto, na fazenda São Miguel, no distrito de Martim Francisco, em Mogi Mirim, e sempre aparecia. Os demais já não eram visitas tão freqüentes. Tia Nira morava na distante Álvares Machado, na Alta Sorocabana, e levava meses para nos visitar.

Tio Nico vinha às vezes de Casa Branca e tia Chiquita, a mais velha, raramente aparecia, embora morasse em Campinas.

Além de todo esse pessoal ainda tinha os irmãos de minha avó, que de vez em sempre estavam em casa. E é um deles que protagonizaria essa história.

Quem olha lá no alto e lê o título deste artigo pode pensar, pela minha proximidade com o esporte e pelos anos de atuação no jornalismo esportivo, que se trata de um Mundial que deixei de ver, mas a realidade é bem diferente. Lembro bem que minha mãe e minha avó haviam comprado carne de porco para transformá-la em copa, aquilo embutido que parece muito com salame, mas é mais forte e mais carregado na gordura.

Eu e minha irmã Vera, ávidos por experimentar aquela iguaria, passávamos o dia todo debaixo das peças que haviam sido penduradas no teto do porão para chegarem ao ponto de serem consumidas. Foram dias e dias de vigília, contando os minutos para que o dia finalmente chegasse.

E depois de tanta espera, finalmente, minha mãe anunciou que aquele era o dia de fatiar a copa e devorar aquela iguaria. Esperamos o dia todo pela hora do jantar para que fosse dado o pontapé inicial, mas, para nosso desespero surgiu um visitante de última hora e passamos a temer pelo adiamento.

Um dos irmãos de minha avó, o José Galli, genitor da Cida Galli, prima muito querida, apareceu de última hora e tudo indicava que nossos planos iriam por água abaixo e teríamos que esperar mais um dia pela hora de saborear a tal copa.

E não é que, para nosso desespero, minha avó e meu tio, como bons italianos, sentaram à mesa para conversar bem debaixo das peças mais cobiçadas da casa. Daí para iniciarem a comilança e devorarem tudo foi uma fração de segundo.

E, como naquele tempo criança não participava das conversas e muito menos das decisões, nos restou engolir em seco a vontade e esperar pela nova remessa de copa. Além de torcer para que outro visitante não aparecesse no momento exato para estragar nossa festa.


Claro que não demorou muito para que pudéssemos matar nossa vontade de experimentar a iguaria mas, aquela copa posso dizer que não vi. Ficou apenas registrada na memória, assim como tantos outros momentos de minha infância feliz.

terça-feira, 1 de março de 2011

A Rádio Nacional

Sou de um tempo em que novela se ouvia no rádio. Um tempo em que o rádio tinha válvulas que iluminavam o aparelho por dentro.

Lembro bem que minha mãe era fã de carteirinha das rádionovelas. E era através da rádio Nacional do Rio de Janeiro, que ela sintonizava pelas Ondas Curtas, que acompanhava os capítulos todas as tardes, de segunda a sexta.

Naquele tempo o rádio era o companheiro inseparável e as emissoras produziam programas de qualidade, muitos deles em auditórios. Cantoras e cantores que faziam sucesso eram figurinhas carimbadas nesses programas.

E era em um desses programas de auditório que minha mãe acompanhava as atrações apresentadas por César de Alencar. Comunicativo, como todo bom carioca, o animador tinha uma audiência enorme em todo o país e minha casa se incluía nesse contexto.

Pela forma como gostava de ouvir os programas do animador, minha mãe acalentava o sonho de um dia estar naquele auditório no Rio de Janeiro, mesmo sabendo que aquilo era algo difícil de acontecer, quase impossível. Mas, quis o destino que meu pai resolvesse comprar quatro passagens para uma dessas excursões ao Rio de Janeiro. Corria o ano de 64 e eu, um menino magricela de orelhas grandes, iria, pela primeira vez, pisar naquele paraíso chamado Rio de Janeiro.

Lembro que a excursão foi organizada pelo Laércio Mazon, hoje um dos nomes fortes da Viação Santa Cruz, e que ficamos em um simpático hotel, cujo nome se não me falha a memória era Flórida, na rua do Catete, no Flamengo. Feliz com a oportunidade, minha mãe não perdeu tempo e no primeiro dia na Cidade Maravilhosa fez o pedido e meu pai, de pronto, atendeu,

E lá fomos nós, meu pai, minha mãe, minha irmã Vera e eu para o programa de auditório do César de Alencar, na rádio Nacional – a Cláudia nasceu só no ano seguinte e perdeu a oportunidade. Se não me falha a memória o auditório ficava no 21º andar em um prédio na praça Mauá. Dotado de um palco com duas cabines laterais, por onde os cantores entravam em cena, o auditório era imponente com suas poltronas vermelhas.

Não me lembro das atrações que vimos, mas só de estar ali, naquele lugar mágico, presenciando de perto o que só podíamos ouvir através do rádio era algo fantástico. E, além disso, ver a alegria de minha mãe, extasiada por ver de perto seus ídolos, já valia a pena.

O programa durou cerca de duas horas que valeram por uma vida toda. Mal sabia eu, um garotinho apenas, que um dia também me tornaria um radialista. Mas, talvez, tivesse sido ali, com apenas sete anos, que minha paixão pelo rádio tenha se manifestado pela primeira vez.

Claro que visitamos outros lugares tradicionais do Rio, com o Corcovado, o Pão de Açúcar, as praias de Copacabana e Ipanema, mas o que guardo em meu baú de memórias é aquele programa de auditório da rádio Nacional. Agora, muitos anos depois, ainda me lembro com saudade daquele dia glorioso para minha mãe e para nós também, porque não.

Afinal, fizemos um passeio diferente e vimos de perto grandes nomes da música brasileira. Apesar das dores que senti nos pés durante todo o tempo por ter calçado os sapatos nos pés trocados.


E, em relação ao Laércio Mazon, com quem eu ficava na maior parte do tempo, posso citar uma passagem no mínimo hilária. Foi ele quem me convenceu a subiu no bondinho do Pão de Açúcar e foi lá em cima, no Morro da Urca, primeira parada antes do Pão de Açúcar, que ele, ao se sentar na grama, não reparou que no lugar que havia escolhido para descanar tinha um monte deixado por um cachorro mal educado.

quarta-feira, 23 de fevereiro de 2011

O campinho do parque

Sou de um tempo em que o Parque Infantil Narciso Pieroni ficava bem no coração do Parque Juca Mulato. Um tempo em que as crianças que frequentavam o parquinho usavam uniformes listrados de forma vertical em azul e branco.

Lembro bem de quantas e quantas vezes eu fiquei ali, prostrado no alambrado que cercava o parquinho, apenas observando aquelas crianças uniformizadas brincando sob os olhares das professoras. Ficava ali apenas olhando o ir e vir daquelas crianças.

Era um tempo em que o Juca Mulato tinha árvores frondosas, a avenida dos Biris honrava o nome que tinha e o tempo custava a passar. Um tempo feliz para aquele menino magricela de orelhas grandes, que adorava jogar futebol no campinho do parque.

Lembro como se fosse hoje daquele campinho gramado que ficava onde hoje está o espaço reservado aos eventos culturais realizados no Parque Juca Mulato. Era um lugar mágico, principalmente para os garotos da minha rua, que não viam a hora de jogar naquele campinho.

A fila de espera era grande, tínhamos que aguardar nossa vez. Mas quando o dia chegava a ansiedade tomava conta de todos desde as primeiras horas da manhã.

Jogar naquele campinho era um sonho. Principalmente pra nós, acostumados a jogar no meio da rua de paralelepípedos, onde a champa do dedão do pé geralmente ficava grudada em uma pedra mais saliente.

O campinho do parque era bem cuidado, com a grama verde e as traves feitas em madeira pintada de verde escuro. Bem diferente do nosso campo improvisado na rua, com os gols demarcados por tijolos que muitas vezes eram esmagados pelas rodas dos parcos carros que rodavam pelas ruas da cidade.

Ganhar do time do parquinho era difícil. De cada quatro confrontos a gente ganhava um. Mas, mesmo assim, para nós era a glória máxima estar ali naquele lugar, poder desfrutar daqueles 30 ou 40 minutos e, ainda por cima, saborear o leite com chocolate que nos era servido no final do jogo.

Entrar na fila com as crianças que frequentavam o parquinho e receber o copo de plástico cheio de leite com chocolate era a recompensa maior para nosso time. Fecho os olhos e ainda sinto o sabor daquele leite delicioso.

Como é bom relembrar tudo isso. Reviver aqueles momentos mágicos, visualizar o saudoso Jaú, responsável pelo timinho do parquinho, ou o ‘seo’ João, o zelador do parquinho.

Hoje, tudo isso já não existe mais. O parquinho há muito foi embora do Juca Mulato e só restaram as boas lembranças, revividas a cada manhã de domingo, quando vou àquele local para que minha pequena Mariane possa desfrutar de bons momentos no pula-pula ou na piscina de bolinhas.


É o momento em que relembro todos os detalhes de um tempo que não volta mais, mas que ficou guardado em meu baú de memórias. Um tempo mágico, capaz de me fazer viajar pelo túnel do tempo para reviver momentos tão significativos em minha existência.

Aprendi com mestres

Sou de um tempo em que o aprendizado era para a vida toda. O que se aprendia em casa ou nos bancos escolares valia como lição de vida.

Um tempo em que o valor de um ensinamento era medido pelo reflexo que o mesmo representava no dia-a-dia. Por isso, até hoje, continuo acreditando que a cada dia da vida se aprende um pouco mais, mas que nunca se pode dizer que já se sabe tudo.

Aprendi muito com meus pais, meus primeiros e mais importantes mestres. Aprendi também nos bancos escolares, pois tive mestres de primeira grandeza, tanto no primário como nas demais fases escolares.

Na profissão que abracei e pela qual sou apaixonado posso dizer que tive quatro grandes mestres. Cada um com seu grau de importância na minha formação profissional.

Digo isso porque, quando decidi enveredar pelos caminhos do jornalismo, mesmo não sendo formado, tinha no meu cerne a certeza de que era isso que queria. Sentia que era isso que corria nas minhas veias e, mesmo não tendo formação ou preparo algum, devia seguir em frente.

Afinal, quando ainda era um menino magricela de orelhas grandes já narrava as partidas de futebol de botão que jogava sozinho em minha casa. Sem contar a facilidade para escrever ou interpretar um texto.

Começar do zero tem suas vantagens e desvantagens. A vantagem estava em aprender tudo desde o início e a desvantagem era não saber nem por onde começar.

E é aí que entram os mestres, aqueles que sabem, mas que também sabem passar adiante tudo o que possuem de conhecimento. Pessoas que têm esse dom e que nasceram para isso.

Posso dizer que tive quatro importantes mestres em minha vida profissional. Com eles aprendi a formatar um texto, a saber ouvir os dois lados da história antes de descrever um fato, a ser natural à frente de um microfone e ser isento de qualquer tipo de paixão.

Jonas Alves Araújo, que me deu a primeira oportunidade no jornal Cidade de Itapira, me ensinou a ouvir os dois lados do sino antes de escrever qualquer tipo de notícia. Me mostrou a importância que os relatos das partes envolvidas têm quando se vai noticiar um fato.

Com o Toy Fonseca, na Rádio Clube, aprendi a ser natural à frente de um microfone, a ser simples na forma de passar ao ouvinte aquilo que se tem a dizer. Aprendi com ele a ter a ponderação necessária a um profissional do rádio.

Com Maurinho Adorno, meu patrão no jornal O Impacto de Mogi Mirim, aprendi a formatar um texto, a usar as palavras de forma correta e com a naturalidade que o leitor merece. Dele recebi os ensinamentos que teria caso tivesse frequentado uma faculdade de Jornalismo, por exemplo.

Já com Tuia Pires de Souza aprendi um pouco de cada uma dessas virtudes necessárias ao bom profissional. Aprendi a formatar um texto, a colocar as palavras de forma correta, a ser natural e simples à frente de um microfone, ouvir os dois lados da história e, o mais importante, aprendi como ganhar o respeito de leitores e ouvintes.


Sou grato a cada um e, a cada dia de minha vida profissional, a cada instante, lembro de algo que aprendi com um deles, pois sempre que me sento para escrever ou pego um microfone, sempre faço uso de algo que aprendi com meus mestres. O que se aprende em casa, na escola ou na vida vale para todo o sempre.

sexta-feira, 28 de janeiro de 2011

Pato cagão

Sou de um tempo em que ser feliz era ter ao redor pessoas que eram queridas. Um tempo em que a felicidade era algo simples e fácil de ser alcançada.

Naquela época tudo era mais difícil. Não existia o que hoje chamamos de tecnologia. Uma ligação telefônica para outra cidade, por exemplo, demorava horas para ser completada.

Falar com quem morava a quilômetros de distância era algo quase impossível. Por isso, receber notícias dos parentes longínquos só era possível através de cartas.

Receber visita de parente que morava longe, então, era raro. Quando isso ocorria era uma festa.

Lembro bem de um período de minha vida, mais precisamente no início dela. Eu era um menino magricela de orelhas grandes, com quatro ou cinco anos de idade.

Meu primo Arturzinho, filho de minha tia Nira, irmã de minha mãe, necessitava de uma cirurgia no coração, apesar de ser um jovem ainda, com 17 ou 18 anos. Por residir na distante Álvares Machado, na Alta Sorocabana, ficou decidido que ele passaria um tempo em minha casa após a operação realizada no Hospital das Clínicas, em São Paulo, para ficar mais próximo da Capital, caso houvesse necessidade de um acompanhamento médico.

Não sei ao certo quanto tempo ele permaneceu em minha casa, talvez por uns seis meses. Só sei que para mim, um garotinho ainda, foi um dos períodos mais felizes de minha existência.

Talvez pela distância que o separava de sua família, meu primo dedicava grande parte de se tempo às brincadeiras com aquele moleque magricela. Quando chegou a hora dele voltar para sua casa, já totalmente recuperado da cirurgia, foi preciso que deixasse minha casa de madrugada, sem se despedir daquele menino que era sua sombra em grande parte do tempo.

Alguns anos depois meu primo Arturzinho casou-se e, junto com a esposa Carol, construiu uma bela família, de sete filhos, todos com o nome começando com a letra A – Arthur, Adriano, André, Álvaro, Alessandro e Aroldo e, no meio de tantos marmanjos, a Adriana. Uma família unida e que lhe deu todas as alegrias que uma pessoa com seu carisma e bondade merecem.

Mas, antes desse povo todo vir ao mundo, um fato curioso marcou minha infância. Lembro bem que foi justamente durante a lua-de-mel de meu primo e sua esposa Carol.

Como era um apreciador dos dotes culinários de minha mãe, cada vez que aportava por aqui meu primo pedia um prato diferente e prontamente era atendido. Naquela oportunidade o prato escolhido foi pato assado e lá fomos nós, eu, minha mãe, o Artur e a Carol, atrás do bichinho.

Eu cursava o segundo ano do curso primário no Júlio Mesquita e lembro muito bem que havia saído da aula quando fomos no Fusca dele em busca do ingrediente principal. O tal do pato foi comprado lá pelos lados do Morro do Macumbê e colocado no banco de trás do carro, entre eu e minha mãe.

Em determinado momento de sua derradeira viagem, talvez ciente de que seu destino era uma panela, o bichinho, possivelmente com medo, deu pra fazer suas necessidades. Apavorados com a situação e vendo aquele pato sujando o assento do carro, meu primo e minha mãe não tiveram dúvidas e mais que depressa tiraram minha camisa do uniforme escolar, branca com a s letras J e M bordadas no bolso, além das duas listras indicando que eu estava no segundo ano, e fizeram dela a fralda, o cueiro ou a calça plástica daquele bicho cagão.

Claro que o pato ficou uma delícia depois de assado. Mas que deu um trabalho danado para minha mãe limpar minha camisa de uniforme, disso não tenho dúvida.

Arturzinho partiu dessa vida no final de 2010, mas levou consigo a certeza de ter construído algo de bom nesse mundo. Guardo dele as melhores recordações possíveis. Carrego em minha memória o carinho com que aquele primo mais velho me tratava e dedicava grande parte de seu tempo para aquele menino magricela de orelhas grandes, que talvez o tenha auxiliado na difícil tarefa de engolir a saudade de casa e de sua família.

quinta-feira, 27 de janeiro de 2011

Amizades duradouras

Sou de um tempo em que amizade era para sempre. As pessoas se conheciam, solidificavam a amizade e ela durava uma eternidade.

Tenho amigos do meu tempo de infância, de quando ainda era um menino magricela de orelhas grandes. Amizades de mais de 45 anos que permanecem intactas.

São amigos que, mesmo que o tempo passe de forma implacável, sempre são lembrados e estão guardados em um lugar especial do coração. E dá para citar tantos amigos que fazem parte desse rol, como por exemplo o Sérgio Venturini, o Tião Venturini, seu irmão Tadeu, o Fernandinho Venturini, o Helinho Jacomini e alguns que já partiram desse mundo como o Coca e o Márcio Venturini, mas que permanecem como integrantes dessa lista.

Acredito que dessa vida iremos levar poucas coisas. Afinal, não há caixão com gaveta para os bens materiais.

Assim sendo, minha relação de pertences já está pronta e terá apenas os lugares bonitos que conhecemos, as boas coisas que fazemos para as outras pessoas e as boas amizades que conquistamos. Por isso, passei a vida angariando novas e boas amizades, dessas do tipo duradouras, que o tempo e a distância não conseguem diluir.

E foi assim, pensando sempre dessa maneira, que fui incluindo nessa lista outros nomes importantes. Amigos que fiz nos meus tempos de grupo escolar, de ginásio e nas atividades profissionais.

Dia desses, relembrando fatos e passagens de minha existência, um detalhe curioso me fez voltar no tempo e chamou minha atenção para meu baú de memórias.
Lembro bem que estava com nove anos e no terceiro ano do grupo escolar. Naquele ano minha lista de amizades duradouras ganhou novos integrantes como Maurinho Xavier, Kilão Galdi, Sávio Pegorari, Luís Paulo Souza Ferreira, Alexandre Caio, Plininho Cremasco, Paulo Zanô e Du Sartori, entre outros.

O detalhe que voltou à minha memória, embora possa parecer insignificante nos dias de hoje, marcou minha vida de uma forma especial. Lembro bem que estávamos no período de férias escolares e eu estava brincando na casa dos Cremasco, onde hoje está a Câmara Municipal.

Estava chegando a hora do almoço e minha hora de ir para casa, pois sabia que meu pai, quando chegasse do trabalho queria ver os filhos em casa. Mas, um convite da dona Angelina, mãe do Plininho, para ficar para o almoço, me fez balançar. Afinal, nunca havia almoçado fora de casa, e isso era uma novidade na vida daquele menino de apenas nove anos.

Só havia um problema a ser resolvido. Eu teria que ligar e pedir autorização de minha mãe para poder aceitar aquele convite.

E a tarefa não era tão fácil assim. Em casa não tinha telefone e havia a necessidade de ligar na alfaiataria do Hélio Sígolo, pedir para chamar minha mãe, que por sua vez precisaria ligar para o meu pai na fábrica de móveis.

Só então, depois de toda essa complicação, é que veio a autorização e, para minha felicidade, pude sentar à mesa como um convidado especial daquela família que até hoje faz parte da minha relação de bons amigos. Pessoas especiais, que sempre me trataram como um membro da família deles.


O tempo passa, mas os bons momentos permanecem para sempre. Alguns ficam guardados em um canto de nossas mentes como se estivessem esquecidos, mas vez por outra retornam como fagulhas e avivam a saudade que nos faz seguir em frente.

sexta-feira, 21 de janeiro de 2011

Música e requeijão

Sou de um tempo em que música era algo marcante, assim como um perfume. Um tempo que música era algo que ficava para sempre, bem diferente do que se ouve nos dias de hoje.

Lembro bem dos meus tempos de criança, quando ainda era aquele menino magricela de orelhas grandes, Naquela época o programa da moda era comandado pelo Dácio Clemente, com quem, mais tarde, tive o prazer de trabalhar e que passei a admirar pelo seu profissionalismo à frente dos microfones da Rádio Clube.

Fui crescendo e experimentando outras emoções, descobrindo novas emissoras e ampliando meu mundo radiofônico e meu gosto musical. Aos 14 anos, já na quarta série ginasial no IEEESO, meu gosto musical já havia tomado a forma que permanece até hoje, mais quarenta anos depois.

Lembro bem que minha carteira na escola era a primeira de uma fila que tinha, na sequência, o Rudyard Trani, o Plininho Cremasco, o Alexandre Caio e o Kilão Galdi. Foi um ano marcante em minha vida, talvez o melhor deles, principalmente pela convivência escolar.

Como sempre tinha boas notas e era um dos melhores alunos da classe, me permitia, de vez em quando, uma escapada das aulas para ouvir rádio na casa do Rudyard, que morava na Santos Dumont, no chamado Pito Aceso.
Não fazíamos nada de errado. Afinal, íamos sempre que não havia aula importante. Mas, de qualquer forma, enforcar aula era sempre algo considerado errado por nossos pais.

Embora soubéssemos que estávamos burlando a vigilância deles, nunca íamos direto pra casa do Rudyard. Sempre descíamos a Rui Barbosa até a José Bonifácio para subir a rua principal e depois descer a Comendador João Cintra até chegar ao famoso Pito Aceso.

Nossa rádio preferida era a Excelsior, de São Paulo, conhecida como A Máquina do Som. Sua programação e suas músicas só eram comparadas com o que tocava na Mundial, do Rio de Janeiro, emissora que só se conseguia ouvir à noite.

Ali ficávamos por horas, jogando conversa fora e ouvindo aquelas músicas que me encantavam. Invariavelmente éramos descobertos pela dona Edna, mãe do Rudyard, que depois de nos repreender pelo fato de enforcar aula, nos convidava para um café da tarde, sempre acompanhado por pão com requeijão.

Foram tempos felizes de minha adolescência, tempos que só não prosseguiram porque, no ano seguinte fui para o período noturno para trabalhar durante o dia e meus sonhos de se tornar, talvez, um engenheiro ou um profissional de outra área, acabaram sendo frustrados pela falta de qualidade no ensino e pelo desinteresse que a mudança causou em mim. Até hoje lembro dessa época com muita saudade dos meus tempos de adolescente, que adorava ouvir as músicas que até hoje fazem sucesso e comer aquele pão com requeijão tão saboroso.

terça-feira, 18 de janeiro de 2011

Meu único jogo no velho Chico

Sou de um tempo em que jogar futebol na rua era algo comum. Um tempo em que não havia tantos veículos nas ruas, principalmente à noite.

Lembro bem das brincadeiras na rua onde ficava minha casa. À noite, sem movimento de carros, era naquela rua de paralelepípedos que jogávamos futebol.

Apesar da pouca distância entre minha casa e o velho estádio Chico Vieira, que ficava ao lado do Parque Juca Mulato, eu frequentava aquele local apenas em companhia de meu pai quando havia algum jogo importante. Jogar ali, para nós, garotos, era algo inimaginável.

Lembro como era a arquibancada de madeira e o barzinho do Soliani. Também tenho na memória alguns momentos vividos naquele lugar.

Aos oito anos, ainda um menino magricela de orelhas grandes, eu nem sonhava em pisar naquele gramado, reservado aos grandes craques da época como Peretta, Capota, Carlucha, Lero, Iquinho e tantos outros. Mas, um dia, isso mudou e tive a oportunidade de jogar naquele campo. Uma única vez, mas que valeu pela vida toda.

Lembro bem que estava brincando com uma bola na frente de casa quando fui convidado para fazer parte do time do bairro dos Prados que iria enfrentar a Guarda Mirim. O convite, feito pelo Paulo Pedro, que mais tarde viraria Pedro Paulo e faria sucesso como jogador da Ponte Preta, era para integrar o time de baixo, os aspirantes, formado por garotos da minha idade.

Prontamente aceitei o convite. Afinal, iria pisar naquele gramado pela primeira vez.

Lembro bem que joguei no ataque e nosso time venceu por 1 a 0, gol do Hélio, irmão mais novo do Paulo Pedro. Do jogo principal não recordo o placar, mas lembro que nosso time também venceu e que o árbitro da partida foi meu tio José Rubens, ainda seminarista, que estava na arquibancada e foi convidado para dirigir a disputa.

Um tempo depois o campo acabou. Foi transferido para o alto da Duque de Caxias, bem longe de minha casa, mas minhas lembranças daquele dia ficaram guardadas.


Recordações assim permanecem para sempre. Afinal, de que vale a vida se não tivermos boas recordações de um tempo que passou, mas que deixou marcas indeléveis em nossos corações.

segunda-feira, 27 de dezembro de 2010

Rojões não combinam com o Natal

Sou de um tempo em que Natal se comemorava em família, dentro de casa, com a ceia e o almoço entre familiares. Um tempo que ficou bem lá trás, esquecido no tempo.

Lembro bem que a noite de Natal era dedicada à Missa do Galo e à ceia com a família reunida. Minha mãe preparava a leitoa, o frango assado, a maionese, a farofa, o arroz, o virado de feijão e a sobremesa. As castanhas-do-pará, nozes, castanhas portuguesas, avelãs e as frutas ficavam por conta do meu pai.

Tenho gravadas na memória as noites natalinas de minha infância. Geralmente a hora de dormir era bem antes da meia-noite. O silêncio imperava nas ruas, não se ouvia carros buzinando, gente berrando ou rojões, como nos dias de hoje.

A noite de Natal era dedicada à confraternização e ao encontro com familiares que vinham de longe. Não havia essa loucura dos dias de hoje, quando não se tem paz nem mesmo para uma simples troca de presentes, tal o barulho dos fogos e das buzinas.

Talvez os tempos tenham mudado ou eu esteja ficando velho, mas a verdade é que rojões, gritaria e buzinas não combinam com a celebração do nascimento de Jesus. Esse tipo de algazarra, típico da juventude atual, está mais para o Ano Novo, que para mim não tem significado algum, a não ser o fim de um ano e o começo de outro.

Sei que minhas lembranças de um tempo que não volta mais são apenas lembranças, mas como seria bom se o tempo parasse e o relógio retrocedesse para tudo aquilo voltar. Seria bom ver tantas pessoas que já se foram, sentir novamente a ansiedade pela espera para abrir o presente de Natal, acreditar em Papai Noel e olhar no espelho e ver um menino magricela de orelhas grandes.

Mas, como não sou senhor do tempo, é preciso viver o tempo de hoje e me contentar com o que tenho, que não é pouco. Na noite de Natal, deitado em minha cama, tive o prazer de acariciar a cabeça de minha pequena Mariane para protegê-la do barulho dos fogos.


Sentir que aquela pequena criatura confiava no pai para não ter medo do barulho foi o maior presente de Natal que eu poderia ter. Muito mais do que qualquer presente material de grande valor. Ouvi-la perguntar se o barulho já ia acabar preencheu o vazio que meu coração sentia pela falta de meus pais e das noites de Natal de antigamente.

A quarta série ginasial

Faz tempo que isso não ocorre, mas um tempo atrás eu vivia sonhando que estava nas dependências da escola onde cursei o ginasial e também ...