terça-feira, 3 de maio de 2011

Amor de pai e mãe

Sou de um tempo em que pai e mãe eram o esteio de uma família. Um tempo em que havia, antes de tudo, o respeito dos filhos pelos pais.

Lembro bem como meu pai e minha mãe sempre deram tudo de si por seus três filhos. Talvez, naquele tempo, eu não tenha dado o verdadeiro valor a tudo que ambos fizeram por nós, mas hoje, só depois que os perdi sei o verdadeiro valor de cada gesto, cada palavra, cada atitude de cada um deles.

Por que será que tem que ser assim? Por que será que só damos valor a alguma coisa ou alguém quando perdemos? Será que é tão difícil avaliarmos com o coração e com a razão ao mesmo tempo?

Meu pai e minha mãe sempre foram o esteio de nossa família. E, apesar das divergências que nossa infância ou juventude provocam, sempre tive consciência do valor de cada um deles.

Hoje, depois de ter sido contemplado com a ação divina de ser pai depois dos 50, e, por circunstâncias que o destino nos impõe, sei o quanto o quanto seria bom tê-los ao meu lado. Como seria bom que estivessem por aqui para acompanhar o crescimento de minha pequena Mariane.

A cada brincadeira que ela me propõe lembro do tempo em que eu ainda era um menino magricela de orelhas grandes. Um tempo em que minha mãe era minha melhor companheira para as brincadeiras de criança.

Assim como ela também foi a melhor companheira para minhas irmãs, meus sobrinhos Duda e Camila e, mais tarde, para as minhas outras duas sobrinhas, Manon e Luê.
Quando ouço o pedido de minha pequena para o tradicional esconde-esconde, vejo minha mãe se escondendo atrás da porta ou contando até dez para os netos se esconderem. E sinto um nó no peito por minha mãe não estar mais aqui para brincar com ela também.

Quando lhe dou proteção vejo meu pai, sempre presente nos momentos em que sua proteção de pai se fazia presente. Claro que minha filha não percebe, mas meus olhos se enchem de lágrimas simplesmente porque não posso lhe oferecer a companhia da avó nas brincadeiras ou o carinho do avô nos momentos de medo.


E como isso dói no cerne do meu ser, incapaz de reverter o destino. E aí entendo o porquê de ter sido escolhido por Deus para ser pai pela primeira vez já na idade de ser avô.

segunda-feira, 25 de abril de 2011

O sino da igreja, o bolinho de bacalhau e o lanche de aliche

Sou de um tempo em que a Sexta-feira Santa era algo sagrado. Um dia para se recolher em casa e respeitar.

Lembro bem como era a rotina das pessoas na Semana Santa. Lembro que meu pai, cumprindo as determinações da igreja, participava da vigília noturna, velando o Nosso Senhor Morto.

Era um tempo em que havia respeito pelos desígnios de Deus. A partir das três da tarde da quinta-feira tudo ficava parado, como se esperasse o tempo passar e com ele chegasse o Sábado de Aleluia.

Lembro que a partir das três da tarde da quinta não se ouvia mais as buzinas os carros, as sirenes das fábricas, o apito do trem ou o badalar dos sinos. Tudo era um silêncio só e nós, crianças, obedecendo as regras, nem às ruas saíamos.

Ao contrário do que acontece nos dias de hoje, o silêncio respeitoso imperava. As pessoas não comiam carne vermelha de forma alguma e não havia a algazarra que se tem hoje, com carros com o som nas alturas, as buzinas soando e até o sino da igreja repicando firme e forte.

Às vezes, paro e penso se tudo que era certo no meu tempo de criança já não vale mais. O respeito pelas tradições da Igreja já não existe mais, principalmente no seio das famílias e isso dói no fundo da alma de quem sempre acreditou nisso tudo.

Mas, voltando ao tempo que realmente interessa, lembro bem de como era a Semana Santa para mim, um menino magricela de orelhas grandes. A partir das três da tarde da quinta-feira tudo parava e só restava aguardar por cada momento da Semana Santa.

Na Sexta-feira da Paixão o ritual consistia em visitar o Senhor Morto na Matriz e acompanhar a Procissão do Enterro, como dizia minha mãe. Claro que no meio de tanta religiosidade havia o respeito às determinações da Santa Igreja.

Como não era permitido o consumo de carne vermelha, minha mãe preparava o bacalhau ensopado com batata e o tradicional bolinho de bacalhau. À noite, depois da procissão, íamos para casa e aguardávamos a chegada de meu pai com aquele embrulho envolto em papel cor-de-rosa, contendo um prato de papelão recheado de sanduíches de aliche comprados no Bar Central ou no Brasília Bar. Ainda sinto o sabor daquela iguaria consumida apenas uma vez por ano.

Bons tempos aqueles. Tempos em que a tradição era algo importante na vida das pessoas, assim como o respeito a tudo que era sagrado.

Lembro que no Sábado de Aleluia a tradição mandava que se malhasse o Judas ao meio-dia. Era o momento em que os rojões espocavam no ar anunciando que a alegria pela volta de Jesus estava próxima.

Na manhã do domingo minha família acordava cedo, ainda de madrugada, para acompanhar a Procissão do Encontro. Minha ansiedade era grande pela hora de voltar para casa e ganhar meu ovo de páscoa.

A Páscoa era comemorada na casa de meus avós paternos, que ficava na rua João Pereira, nas proximidades do Bairral, com a presença de todos os integrantes da família. Como era bom aquele tempo e como seria bom poder reviver tudo aquilo.

Hoje, quando ouço o sino repicar na igreja, mesmo no período de silêncio da Semana Santa, entendo que aquele tempo nunca mais irá voltar. Sinto que a magia dos bons tempos foi quebrada e nunca mais nada será com antes.

Isso faz meu coração doer de tristeza. E essa dor aumenta cada vez que lembro que nunca mais terei os bolinhos de bacalhau de minha mãe para saborear ou os lanches de aliche, envoltos em um embrulho cor-de-rosa, que meu pai fazia questão de comprar para a nossa noite de Sexta-feira Santa.


Que pena que tudo isso acabou. Que pena que não tenho mais ao meu lado meu pai e minha mãe. E, que pena que não exista mais o respeito por parte das pessoas pelas tradições religiosas. Que pena...

quinta-feira, 21 de abril de 2011

Parque Juca Mulato

Sou de um tempo em que o Parque Juca Mulato era circundado por cedrinhos, formando uma espécie de cerca viva. Um tempo em que as pessoas respeitavam os logradouros públicos e os mesmos recebiam a atenção que mereciam.

Lembro bem daquele lugar aprazível, com suas alamedas bem cuidadas e limpas. Suas luminárias acesas e oferecendo o clima ideal para quem gostava de sentar nos bancos espalhados pela Avenida dos Biris.

Como era bom ficar ali naqueles bancos, à noite, com meus pais, olhando para o bairro do Cubatão. Ouvir o barulho da represa no ribeirão da Penha e dar asas a imaginação.

Aquele era um tempo em que as pessoas davam valor a cada espaço dedicado ao lazer. Um tempo em que o vandalismo não imperava e as pessoas podiam transitar tranquilamente pelas ruas.

Ainda estão em minha memória os momentos de alegria nos brinquedos do parque. Balanços, gangorras e escorregador que ficavam fora do parquinho infantil e mesmo assim estavam livres da ação dos vândalos.

Eram tempos felizes para aquele menino magricela de orelhas grandes. Tempos em que havia respeito entre as pessoas e também para com a natureza e os bens públicos.

Hoje, quando vou ao parque aos domingos para proporcionar à minha pequena Mariane momentos de alegria nos brinquedos do parque, olho com tristeza para o espaço dedicado ao lazer das crianças. Vejo aqueles brinquedos caindo aos pedaços, sujos e maltratados pelo homem e pelo tempo, e lembro da época em que ainda era um menino.

Volto no tempo e tento reconstruir tudo para que as crianças de hoje possam brincar com tranquilidade, sem o perigo de encontrarem pelo chão as embalagens que acondicionam drogas e que proliferam por todos os cantos. Varro o chão com os olhos na tentativa de tirar os cacos de vidro deixados na noite por frequentadores que ali vão para se drogar e se embebedar.

Como é triste ver tudo aquilo que foi construído pela natureza e pelo homem, agora sendo deteriorado sem que alguém faça alguma coisa. A única esperança é que, algum dia, alguém com poderes para mudar a situação passe por aquele local e relembre de sua infância.


Quem sabe assim, relembrando os momentos felizes que tenha passado naquele local em sua infância, faça valer sua força e lute pelas melhorias que as crianças merecem. Talvez, só assim algo poderá ser feito para recuperar um espaço tão nobre e que faz parte da vida de cada um de nós.

segunda-feira, 18 de abril de 2011

Eu e a bola

Sou de um tempo em que a bola era de capotão, feita de couro, com costura e que, quando chovia, ficava pesada e encharcada. Um tempo em que ser criança significava brincar com bola, pião, maranhão e tantos outros brinquedos simples e ao mesmo tempo fascinantes.

Minha relação com a bola começou cedo. Desde pequeno, quando eu ainda era um menino magricela de orelhas grandes, sempre gostei de brincar com bola.

Minha mãe era minha companhia na hora de dar meus chutes. Eu, envergando minha camisa verde como atacante e ela, encarnando o velho José Poy, então goleiro do seu São Paulo.

Era divertido e muito prazeroso. Dávamos boas risadas e eu aprimorava meus chutes com a perna esquerda, como bom canhoto.

Mais tarde, um pouco mais crescido, dei meus chutes como atacante do Paulistinha, o time de minha rua. Não que eu tenha sido um grande ponta-esquerda, mas tenho consciência de que dei minha pequena colaboração para algumas de nossas vitórias.

Depois de vestir a camisa de outros gloriosos clubes do nosso futebol amador, como o Olimpikus da Usina, por exemplo, enveredei pelos caminhos do jornalismo esportivo, onde insisto em permanecer até hoje. Pelo menos, dessa forma, pude contribuir de forma mais decisiva para esse esporte que nos apaixona.

Acredito que essa relação estreita com a bola me inspirou desde pequeno a cultivar essa paixão pelas coisas que circundam o futebol. Quando não estava correndo atrás de uma bola, estava lendo a Gazeta Esportiva na alfaiataria do Carlos Venturini ou ouvindo o jogo do domingo pelas ondas da Rádio Clube.

Adorava jogar futebol de botão e narrar as jogadas. Além disso, ao lado do campo imaginário havia sempre uma folha de caderno para as anotações sobre quem havia feito o gol.

Por todos esses indícios acredito que o dom de escrever ou falar ao microfone vem de pequeno, sendo moldado ao longo do tempo. Nascemos com esse dom e desenvolvemos as aptidões de acordo com as oportunidades.

Passados tantos anos desde aquela época posso afirmar com toda certeza que cada vez que abro os olhos para um novo dia tenho a consciência de que será mais um dia para aprender um pouco mais. E sinto alegria em saber que ganho o meu sustento e o de minha pequena Mariane fazendo o que gosto e sei fazer.


E fico mais feliz ainda quando ela me pede para brincar de bola e coloca a mesma no chão para dar seus chutes. Volto no tempo, encarno o José Poy e vejo nela aquele menino magricela de orelhas grandes, ávido por enfiar o pé na bola com fé e gosto.

sábado, 9 de abril de 2011

Meu nome

Sou de um tempo em que nome do filho era escolhido pelo pai. A mãe até dava palpite, mas era o pai quem dava a última palavra quando era um menino que vinha ao mundo.

Comigo não foi diferente. Quando vim ao mundo, apesar de alguns palpites extras, foi meu pai quem escolheu que eu chamaria Humberto.

Minha avó Leonor, muito religiosa, até quis que meu pai colocasse Domingos Sávio, mas entre o terço e a bola, prevaleceu esta última. A escolha recaiu sobre o nome do centroavante do Palmeiras, time pelo qual meu pai torcia.

Humberto Tozzi era o principal atacante do Palmeiras na década de 50 e meu pai, um palmeirense roxo, não pensou duas vezes para homenagear seu ídolo colocando o nome dele no filho que acabava de nascer.

Claro que essa paixão pelo Palmeiras passou de pai para filho. E, quando comecei a entender as coisas, já era palestrino de corpo e alma, com direito a uniforme e tudo.

E, como naquela época era bem diferente dos dias atuais, em que jogador troca de camisa como troca de roupa e torcedor vira casaca a todo instante, permaneci fiel ao clube que escolhi. E, claro, tinha orgulho de responder sobre a origem do meu nome.

Meu pai, orgulhoso de ter um filho com o nome de um jogador de seu Palestra, me levava para todos os cantos e, se possível, com a camisa do Palmeiras. Não foram poucas as vezes que posei, como mascotinho, ao lado dos times que meu pai defendeu.

Até hoje, quando alguma dessas fotos antigas sai na coluna do Arlindo Bellini, posso ver aquele menino magricela de orelhas grandes com a camisa do Palmeiras. E como tenho saudade daquele tempo.

Lembro bem de muitas passagens daquela época e muitas delas envolvendo minha paixão pelo time de Palestra Itália. Momentos que ficaram registrados em minha memória.

Lembro com clareza de uma passagem ocorrida no antigo Itapira Bar, comandado pelo Alberto Baldissin. Como sempre fazia quando ia àquele local, meu pai me levou a tiracolo e eu, pra variar, vestia minha inseparável camisa verde.

Um amigo de meu pai, que no momento não recordo o nome, começou a me provocar dizendo que eu devia trocar de time e passar a torcer pelo São Paulo. Claro que não aceitei de forma alguma.

Mas a provocação continuou e, na tentativa de me persuadir a mudar, aquele amigo de meu pai propôs me presentear com o uniforme completo do São Paulo, incluindo as chuteiras, caso eu topasse a parada. Sem pensar duas vezes, agradeci a oferta e finquei pé na minha preferência pelo Palmeiras.

Até mesmo meu pai, palmeirense roxo, tentou me fazer mudar de idéia, mas eu, firme como uma rocha, permaneci fiel ao meu time do coração. Mesmo sabendo que iria perder aquele presente.

Fosse hoje e qualquer garoto não pestanejaria e mudaria de clube na hora. Mas, eu não, fui fiel à minha origem.


Afinal, já imaginaram eu ter o nome do centroavante do Palmeiras e torcer pelo São Paulo? Nem pensar.

quinta-feira, 31 de março de 2011

Se eu pudesse voltar no tempo

Sou de um tempo em que o próprio tempo custava a passar. Um tempo diferente de tudo que se vê hoje em dia.

Se eu pudesse voltar no tempo, com certeza, escolheria momentos inesquecíveis de minha passagem por esse mundo. Faria um tour por minha infância e adolescência para reviver um tempo feliz.

Experimentaria, logo de saída, beber um guaraná Itamira, sem esquecer de fazer um furo na tampa com um prego, ao invés de abrir a garrafa. Não poderia deixar de lado também os deliciosos quindins da Padaria Modelo, que ficava onde hoje está o banco Santander.

Deixaria um espaço também para os pães d’água da Padaria do Samora, entregues em casa pelo Irineu Samora e sua inseparável Kombi. E as roscas e sequilhos do Tico Donatti.

Aos domingos iria com meu pai até a casa dos meus avós paternos, sempre subindo o escadão da Ladeira São João, passando pela avenida dos Biris. E à tarde iria com ele ao velho Chico Vieira, ali no Parque Juca Mulato, ver um jogo do futebol amador e saborear um guaraná da Brahma.

Se não fosse, ficaria em casa e ouviria o jogo pela Rádio Clube. Até parece que ouço, pelo rádio, a voz grave do narrador Geraldo Marconi: “Boooola nas mãos do goleiro Orlandinho Boretti, que levaaaanta para o ataque....”. Ah, que saudade desse tempo.

Como era bom esse tempo. Um tempo em que as pessoas podiam andar tranquilamente pelas ruas, sem medo de assaltos.

Um tempo em que tudo era diferente, mais gostoso. Um tempo em que eu era um menino magricela de orelhas grandes.

Às vezes, paro no tempo e me pego pensando se não estou no tempo errado. Aí, caio na real e vejo que minha realidade é bem outra, diferente daquela que gostaria de ter.

Como seria bom poder voltar no tempo e reviver tudo aquilo que ficou para trás. Ler um gibi com estórias de Walt Disney, ver as notícias do Palmeiras no exemplar da Gazeta Esportiva do Carlos Venturini, assistir na TV do vizinho um episódio do Nacional Kid ou simplesmente brincar na rua com os amigos de infância.

Ou, quem sabe, sentar à mesa de casa para o jantar e ter ao meu lado meus pais e minhas irmãs. Almoçar aos domingos na casa de meus avós, cercado de tantas pessoas queridas, que já não estão mais nesse mundo.


Mas, infelizmente, os tempos são outros. Tudo isso ficou no passado, mas bem guardado em meu baú de memórias. Me resta fechar os olhos, remexer em minhas recordações e trazer de volta esse tempo feliz e tudo aquilo que tive em minha infância.

sexta-feira, 25 de março de 2011

Branca de Neve

Sou de um tempo em que estórias infantis eram contadas por nossas mães. Um tempo em que não se tinha os recursos de hoje, como TV, DVD ou computador e a mãe usava a imaginação para passar ao filho todos os detalhes de cada fábula.

Lembro bem desse tempo. Das riquezas de detalhes que as estórias que minha mãe contava continham.

Hoje, com todos os recursos tecnológicos possíveis, a tarefa ficou mais fácil. Basta ligar a TV e o aparelho de DVD e a estória está ali, pronta para ser vista e ouvida.

Uma de minhas estórias prediletas sempre foi Branca de Neve e os Sete Anões. Talvez pela forma que minha mãe contava, com riqueza de detalhes.

Lembro que ela sempre frisava que a casa dos anõezinhos tinha sete cadeirinhas e sete caminhas. E na mesa eram sete pratinhos, com sete garfinhos e sete copinhos.

Era fechar os olhos e imaginar tudo aquilo. Sua forma de contar ainda hoje permanece em minha memória e me inspira na hora de contar as estórias para minha filha.

E, por coincidência ou não, minha pequena Mariane também tem predileção pela Branca de Neve e os Sete Anões. Até mesmo seu fascínio pelo inocente Dunga - não aquele da Copa do Mundo – repete meus passos na infância. Isso me faz voltar aos meus tempos de infância, quando eu ainda era um menino magricela de orelhas grandes.

Naquele tempo, sem os recursos de hoje, minha imaginação viajava enquanto minha mãe contava a estória com todos os detalhes. E como era bom ouvir aquilo, poder criar em minha mente as formas descritas por ela para cada personagem.

Mais tarde, quando o extinto Cine Paratodos, um dos cinemas da cidade daquela época, exibiu a fábula adaptada pelos Irmãos Grimm e incrementada pelos estúdios do fabuloso Walt Disney, pude ver como minha mãe realmente tinha um dom especial para detalhar as fábulas.
Olhando naquela telona e visualizando os personagens era como se estivesse ouvindo minha mãe ao fundo, contando o desenrolar da estória da bela moça acolhida pelos pequeninos.

Curiosamente, ainda hoje, quando vejo e revejo o filme ao lado de minha filha, é como se estivesse ouvindo a descrição de minha mãe. Parece que ela está ali, ao nosso lado, nos contando a fábula mais famosa do mundo.

E como é bom ouvir minha pequenina imitando os personagens, repetir a fala da bruxa, quando ela diz que Branca de Neve será sepultada viva, ou cantar a canção dos anões retornando para casa. Sua cabecinha recheada de imaginação até criou uma versão especial para quando estamos indo para a escola.

São momentos que me fazem voltar aos meus tempos de criança. Tempos que ficaram perdidos no passado, mas que retornam de forma veloz a cada fagulha de lembrança que as eternas fábulas provocam.


Viajo no tempo e me vejo no colo de minha mãe, ouvindo atentamente cada detalhe narrado por ela. O tempo é implacável em muitos sentidos, mas não consegue apagar as boas lembranças que guardamos de tempos felizes.

sexta-feira, 18 de março de 2011

A copa que não vi

Sou de um tempo em que as crianças ainda obedeciam aos mais velhos. Um tempo em que aquilo que os pais diziam era lei. E ai de quem desobedecesse.

Lembro bem daquele tempo, embora eu ainda fosse um menino magricela de orelhas grandes. Nós, crianças da casa, tínhamos sempre que seguir aquilo que nos era determinado, principalmente quando havia visita em casa.

Como morávamos com minha avó Carmela, mãe de minha mãe, era comum tios e tias estarem sempre em casa. Era um tempo em que, embora as dificuldades impostas pela precariedade nos meios de locomoção, sempre se dava um jeito de um visitar o outro.

Da família de minha mãe, além de nós, apenas meu tio Nine morava em Itapira. Os demais residiam em outras localidades, uns mais longe, outros em cidades vizinhas, mas era comum, por exemplo, minha tia Hilda, irmã mais nova de minha mãe, que naquela época residia na vila da Rhodia, aparecer em casa com tio Valdemar e os filhos Diná, Jorge, Márcia, Célia e Neto.

Minha tia Jacira morava mais perto, na fazenda São Miguel, no distrito de Martim Francisco, em Mogi Mirim, e sempre aparecia. Os demais já não eram visitas tão freqüentes. Tia Nira morava na distante Álvares Machado, na Alta Sorocabana, e levava meses para nos visitar.

Tio Nico vinha às vezes de Casa Branca e tia Chiquita, a mais velha, raramente aparecia, embora morasse em Campinas.

Além de todo esse pessoal ainda tinha os irmãos de minha avó, que de vez em sempre estavam em casa. E é um deles que protagonizaria essa história.

Quem olha lá no alto e lê o título deste artigo pode pensar, pela minha proximidade com o esporte e pelos anos de atuação no jornalismo esportivo, que se trata de um Mundial que deixei de ver, mas a realidade é bem diferente. Lembro bem que minha mãe e minha avó haviam comprado carne de porco para transformá-la em copa, aquilo embutido que parece muito com salame, mas é mais forte e mais carregado na gordura.

Eu e minha irmã Vera, ávidos por experimentar aquela iguaria, passávamos o dia todo debaixo das peças que haviam sido penduradas no teto do porão para chegarem ao ponto de serem consumidas. Foram dias e dias de vigília, contando os minutos para que o dia finalmente chegasse.

E depois de tanta espera, finalmente, minha mãe anunciou que aquele era o dia de fatiar a copa e devorar aquela iguaria. Esperamos o dia todo pela hora do jantar para que fosse dado o pontapé inicial, mas, para nosso desespero surgiu um visitante de última hora e passamos a temer pelo adiamento.

Um dos irmãos de minha avó, o José Galli, genitor da Cida Galli, prima muito querida, apareceu de última hora e tudo indicava que nossos planos iriam por água abaixo e teríamos que esperar mais um dia pela hora de saborear a tal copa.

E não é que, para nosso desespero, minha avó e meu tio, como bons italianos, sentaram à mesa para conversar bem debaixo das peças mais cobiçadas da casa. Daí para iniciarem a comilança e devorarem tudo foi uma fração de segundo.

E, como naquele tempo criança não participava das conversas e muito menos das decisões, nos restou engolir em seco a vontade e esperar pela nova remessa de copa. Além de torcer para que outro visitante não aparecesse no momento exato para estragar nossa festa.


Claro que não demorou muito para que pudéssemos matar nossa vontade de experimentar a iguaria mas, aquela copa posso dizer que não vi. Ficou apenas registrada na memória, assim como tantos outros momentos de minha infância feliz.

terça-feira, 1 de março de 2011

A Rádio Nacional

Sou de um tempo em que novela se ouvia no rádio. Um tempo em que o rádio tinha válvulas que iluminavam o aparelho por dentro.

Lembro bem que minha mãe era fã de carteirinha das rádionovelas. E era através da rádio Nacional do Rio de Janeiro, que ela sintonizava pelas Ondas Curtas, que acompanhava os capítulos todas as tardes, de segunda a sexta.

Naquele tempo o rádio era o companheiro inseparável e as emissoras produziam programas de qualidade, muitos deles em auditórios. Cantoras e cantores que faziam sucesso eram figurinhas carimbadas nesses programas.

E era em um desses programas de auditório que minha mãe acompanhava as atrações apresentadas por César de Alencar. Comunicativo, como todo bom carioca, o animador tinha uma audiência enorme em todo o país e minha casa se incluía nesse contexto.

Pela forma como gostava de ouvir os programas do animador, minha mãe acalentava o sonho de um dia estar naquele auditório no Rio de Janeiro, mesmo sabendo que aquilo era algo difícil de acontecer, quase impossível. Mas, quis o destino que meu pai resolvesse comprar quatro passagens para uma dessas excursões ao Rio de Janeiro. Corria o ano de 64 e eu, um menino magricela de orelhas grandes, iria, pela primeira vez, pisar naquele paraíso chamado Rio de Janeiro.

Lembro que a excursão foi organizada pelo Laércio Mazon, hoje um dos nomes fortes da Viação Santa Cruz, e que ficamos em um simpático hotel, cujo nome se não me falha a memória era Flórida, na rua do Catete, no Flamengo. Feliz com a oportunidade, minha mãe não perdeu tempo e no primeiro dia na Cidade Maravilhosa fez o pedido e meu pai, de pronto, atendeu,

E lá fomos nós, meu pai, minha mãe, minha irmã Vera e eu para o programa de auditório do César de Alencar, na rádio Nacional – a Cláudia nasceu só no ano seguinte e perdeu a oportunidade. Se não me falha a memória o auditório ficava no 21º andar em um prédio na praça Mauá. Dotado de um palco com duas cabines laterais, por onde os cantores entravam em cena, o auditório era imponente com suas poltronas vermelhas.

Não me lembro das atrações que vimos, mas só de estar ali, naquele lugar mágico, presenciando de perto o que só podíamos ouvir através do rádio era algo fantástico. E, além disso, ver a alegria de minha mãe, extasiada por ver de perto seus ídolos, já valia a pena.

O programa durou cerca de duas horas que valeram por uma vida toda. Mal sabia eu, um garotinho apenas, que um dia também me tornaria um radialista. Mas, talvez, tivesse sido ali, com apenas sete anos, que minha paixão pelo rádio tenha se manifestado pela primeira vez.

Claro que visitamos outros lugares tradicionais do Rio, com o Corcovado, o Pão de Açúcar, as praias de Copacabana e Ipanema, mas o que guardo em meu baú de memórias é aquele programa de auditório da rádio Nacional. Agora, muitos anos depois, ainda me lembro com saudade daquele dia glorioso para minha mãe e para nós também, porque não.

Afinal, fizemos um passeio diferente e vimos de perto grandes nomes da música brasileira. Apesar das dores que senti nos pés durante todo o tempo por ter calçado os sapatos nos pés trocados.


E, em relação ao Laércio Mazon, com quem eu ficava na maior parte do tempo, posso citar uma passagem no mínimo hilária. Foi ele quem me convenceu a subiu no bondinho do Pão de Açúcar e foi lá em cima, no Morro da Urca, primeira parada antes do Pão de Açúcar, que ele, ao se sentar na grama, não reparou que no lugar que havia escolhido para descanar tinha um monte deixado por um cachorro mal educado.

quarta-feira, 23 de fevereiro de 2011

O campinho do parque

Sou de um tempo em que o Parque Infantil Narciso Pieroni ficava bem no coração do Parque Juca Mulato. Um tempo em que as crianças que frequentavam o parquinho usavam uniformes listrados de forma vertical em azul e branco.

Lembro bem de quantas e quantas vezes eu fiquei ali, prostrado no alambrado que cercava o parquinho, apenas observando aquelas crianças uniformizadas brincando sob os olhares das professoras. Ficava ali apenas olhando o ir e vir daquelas crianças.

Era um tempo em que o Juca Mulato tinha árvores frondosas, a avenida dos Biris honrava o nome que tinha e o tempo custava a passar. Um tempo feliz para aquele menino magricela de orelhas grandes, que adorava jogar futebol no campinho do parque.

Lembro como se fosse hoje daquele campinho gramado que ficava onde hoje está o espaço reservado aos eventos culturais realizados no Parque Juca Mulato. Era um lugar mágico, principalmente para os garotos da minha rua, que não viam a hora de jogar naquele campinho.

A fila de espera era grande, tínhamos que aguardar nossa vez. Mas quando o dia chegava a ansiedade tomava conta de todos desde as primeiras horas da manhã.

Jogar naquele campinho era um sonho. Principalmente pra nós, acostumados a jogar no meio da rua de paralelepípedos, onde a champa do dedão do pé geralmente ficava grudada em uma pedra mais saliente.

O campinho do parque era bem cuidado, com a grama verde e as traves feitas em madeira pintada de verde escuro. Bem diferente do nosso campo improvisado na rua, com os gols demarcados por tijolos que muitas vezes eram esmagados pelas rodas dos parcos carros que rodavam pelas ruas da cidade.

Ganhar do time do parquinho era difícil. De cada quatro confrontos a gente ganhava um. Mas, mesmo assim, para nós era a glória máxima estar ali naquele lugar, poder desfrutar daqueles 30 ou 40 minutos e, ainda por cima, saborear o leite com chocolate que nos era servido no final do jogo.

Entrar na fila com as crianças que frequentavam o parquinho e receber o copo de plástico cheio de leite com chocolate era a recompensa maior para nosso time. Fecho os olhos e ainda sinto o sabor daquele leite delicioso.

Como é bom relembrar tudo isso. Reviver aqueles momentos mágicos, visualizar o saudoso Jaú, responsável pelo timinho do parquinho, ou o ‘seo’ João, o zelador do parquinho.

Hoje, tudo isso já não existe mais. O parquinho há muito foi embora do Juca Mulato e só restaram as boas lembranças, revividas a cada manhã de domingo, quando vou àquele local para que minha pequena Mariane possa desfrutar de bons momentos no pula-pula ou na piscina de bolinhas.


É o momento em que relembro todos os detalhes de um tempo que não volta mais, mas que ficou guardado em meu baú de memórias. Um tempo mágico, capaz de me fazer viajar pelo túnel do tempo para reviver momentos tão significativos em minha existência.

Aprendi com mestres

Sou de um tempo em que o aprendizado era para a vida toda. O que se aprendia em casa ou nos bancos escolares valia como lição de vida.

Um tempo em que o valor de um ensinamento era medido pelo reflexo que o mesmo representava no dia-a-dia. Por isso, até hoje, continuo acreditando que a cada dia da vida se aprende um pouco mais, mas que nunca se pode dizer que já se sabe tudo.

Aprendi muito com meus pais, meus primeiros e mais importantes mestres. Aprendi também nos bancos escolares, pois tive mestres de primeira grandeza, tanto no primário como nas demais fases escolares.

Na profissão que abracei e pela qual sou apaixonado posso dizer que tive quatro grandes mestres. Cada um com seu grau de importância na minha formação profissional.

Digo isso porque, quando decidi enveredar pelos caminhos do jornalismo, mesmo não sendo formado, tinha no meu cerne a certeza de que era isso que queria. Sentia que era isso que corria nas minhas veias e, mesmo não tendo formação ou preparo algum, devia seguir em frente.

Afinal, quando ainda era um menino magricela de orelhas grandes já narrava as partidas de futebol de botão que jogava sozinho em minha casa. Sem contar a facilidade para escrever ou interpretar um texto.

Começar do zero tem suas vantagens e desvantagens. A vantagem estava em aprender tudo desde o início e a desvantagem era não saber nem por onde começar.

E é aí que entram os mestres, aqueles que sabem, mas que também sabem passar adiante tudo o que possuem de conhecimento. Pessoas que têm esse dom e que nasceram para isso.

Posso dizer que tive quatro importantes mestres em minha vida profissional. Com eles aprendi a formatar um texto, a saber ouvir os dois lados da história antes de descrever um fato, a ser natural à frente de um microfone e ser isento de qualquer tipo de paixão.

Jonas Alves Araújo, que me deu a primeira oportunidade no jornal Cidade de Itapira, me ensinou a ouvir os dois lados do sino antes de escrever qualquer tipo de notícia. Me mostrou a importância que os relatos das partes envolvidas têm quando se vai noticiar um fato.

Com o Toy Fonseca, na Rádio Clube, aprendi a ser natural à frente de um microfone, a ser simples na forma de passar ao ouvinte aquilo que se tem a dizer. Aprendi com ele a ter a ponderação necessária a um profissional do rádio.

Com Maurinho Adorno, meu patrão no jornal O Impacto de Mogi Mirim, aprendi a formatar um texto, a usar as palavras de forma correta e com a naturalidade que o leitor merece. Dele recebi os ensinamentos que teria caso tivesse frequentado uma faculdade de Jornalismo, por exemplo.

Já com Tuia Pires de Souza aprendi um pouco de cada uma dessas virtudes necessárias ao bom profissional. Aprendi a formatar um texto, a colocar as palavras de forma correta, a ser natural e simples à frente de um microfone, ouvir os dois lados da história e, o mais importante, aprendi como ganhar o respeito de leitores e ouvintes.


Sou grato a cada um e, a cada dia de minha vida profissional, a cada instante, lembro de algo que aprendi com um deles, pois sempre que me sento para escrever ou pego um microfone, sempre faço uso de algo que aprendi com meus mestres. O que se aprende em casa, na escola ou na vida vale para todo o sempre.

A quarta série ginasial

Faz tempo que isso não ocorre, mas um tempo atrás eu vivia sonhando que estava nas dependências da escola onde cursei o ginasial e também ...